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SERMÃO 42

"Meu Jardim" — "Seu Jardim"

Cantares de Salomão 4:16
"Levanta-te, vento norte, e vem tu, vento sul; assopra no meu jardim, para que destilem os seus aromas. Ah! venha o meu amado para o seu jardim, e coma os seus frutos excelentes." — Cantares de Salomão 4:16

Que diferença há entre o que o crente era por natureza e o que a graça de Deus fez dele! Naturalmente, éramos como o ermo uivante, como o deserto que não produz planta saudável nem verdura. Parecia que éramos entregues a ser como terra salgada, que não é habitada; não havia nada de bom em nós, nem podia brotar de nós. Mas agora, quantos de nós conhecemos o Senhor, somos transformados em jardins; nosso ermo é feito como Éden, nosso deserto é mudado no jardim do Senhor. "Voltarei a vós", disse o Senhor aos montes de Israel quando estavam desnudos e estéreis, "voltarei a vós, e sereis lavrados e semeados"; e isto é exatamente o que ele disse à esterilidade de nossa natureza. Fomos cercados pela graça, fomos lavrados e semeados, experimentamos todas as operações da divina lavoura. Nosso Senhor Jesus disse a seus discípulos: "Meu Pai é o lavrador", e ele nos fez frutíferos para seu louvor, cheios de doçura onde antes não havia fruto, e nada que pudesse dar-lhe deleite.

Somos um jardim, pois, e num jardim há flores e frutos, e em cada coração cristão achareis as mesmas evidências de cultura e cuidado; não em todos igualmente, pois mesmo jardins e campos variam em produtividade. Na boa terra mencionada por nosso Senhor na parábola do semeador, a boa semente não toda trouxe cem por um, ou sequer sessenta por um; havia algumas partes do campo onde a colheita foi tão baixa quanto trinta por um, e temo que haja alguns dos jardins do Senhor que rendem ainda menos que isto. Ainda assim, há frutos e há flores, em certa medida; há bom começo feito onde quer que a graça de Deus empreendeu a cultura de nossa natureza.

I. HÁ ESPECIARIAS DOCES NOS CRENTES

Agora, chegando a nosso texto, e pensando nos cristãos como o jardim do Senhor, quero que observeis, primeiro, que HÁ ESPECIARIAS DOCES NOS CRENTES. O texto assume isto quando diz: "Assopra no meu jardim, para que destilem os seus aromas". Há no jardim do Senhor doces flores que gotejam mel, e toda sorte de deliciosos perfumes. Há tais doces especiarias dentro do coração do crente; pensemos neles por alguns minutos, e primeiro, deixai-me lembrar-vos dos nomes destas doces especiarias.

Por exemplo, há a fé; há algo fora do céu mais doce que a fé — a fé que confia e se apega, que crê e espera, e declara que, ainda que Deus a mate, nele confiará? Na estima do Senhor, a fé é cheia de fragrância. Ele nunca se deleitou na queima de touros e na gordura de bestas cevadas, mas sempre se deleitou na fé que trazia estas coisas como tipos do único grande sacrifício pelo pecado. A fé é muito querida a ele.

Então vem o amor; e novamente devo perguntar — há a ser achada em qualquer lugar mais doce especiaria que esta — o amor que ama a Deus porque ele primeiro nos amou, o amor que flui a toda a irmandade, o amor que não conhece círculo dentro do qual pode ser limitado, mas que ama toda a raça humana, e procura fazer-lhe o bem? É extremamente agradável a Deus ver amor crescendo onde uma vez tudo era ódio, e ver fé brotando naquela mesma alma que anteriormente estava abafada com os espinhos e sarças de dúvida e incredulidade.

E há também a esperança, que é deveras excelente graça, graça de visão longínqua pela qual contemplamos o céu e a bem-aventurança eterna. Há tal fragrância acerca de esperança dada por Deus que este pobre mundo ferido pelo pecado parece ser curado por ela. Onde quer que esta viva e vívida esperança vem, ali os homens levantam suas cabeças abatidas, e começam a regozijar-se em Deus seu Salvador. Não necessitais que eu passe por toda a lista de graças cristãs, e mencione mansidão, bondade fraterna, coragem, retidão, ou a paciência que suporta tanto da mão de Deus; mas qualquer que seja a graça que eu possa mencionar, não seria difícil imediatamente convencer-vos de que há doçura e perfume acerca de toda graça na estima daquele que a criou, e deleita-o que floresça onde uma vez seu oposto somente era encontrado crescendo no coração do homem. Estas, então, são algumas das doces especiarias dos santos.

Notai, em seguida, que estas doces especiarias são deleitosas a Deus. É muito maravilhoso que tenhamos dentro de nós qualquer coisa em que Deus possa ter deleite; contudo, quando pensamos em todas as outras maravilhas de sua graça, não necessitamos maravilhar-nos em nada. O Deus que nos deu a fé pode bem agradar-se com a fé. O Deus que criou amor em corações tão desamáveis quanto os nossos pode bem deleitar-se com sua própria criação. Não desprezará a obra de suas próprias mãos; antes deleitar-se-á com ela, e achará doce complacência nisso. Que exaltação é para nós vermes da terra que jamais deva haver algo em nós bem agradável a Deus! Bem disse o salmista: "Que é o homem, para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites?" Mas Deus se lembra de nós, e nos visita. Antigamente, antes que Cristo viesse a este mundo em forma humana, seus deleites eram com os filhos dos homens; muito mais é assim agora que ele tomou a natureza deles ao próprio céu, e deu aos filhos dos homens seu próprio Espírito para habitar dentro deles.

Deixai que arrebate vosso coração com intenso deleite que, embora frequentemente não possais ter complacência em vós mesmos, mas andar com a cabeça curvada, como junco, e clamar: "Ai de mim!" contudo, naquele vosso próprio clamor Deus ouve nota que é doce e musical a seus ouvidos. Bendito é o arrependimento, com suas gotas de lágrima nos olhos, cintilando como diamantes. Deus se deleita até mesmo em nossos anelos por santidade, e em nossa repugnância por nossas próprias imperfeições. Assim como o pai se deleita em ver seu filho ansioso por estar nos melhores e mais amorosos termos com ele, assim Deus se deleita em nós quando estamos clamando por aquilo que ainda não alcançamos, a perfeição que nos fará plenamente semelhantes a ele. Ó amados, não conheço nada que encha minha alma com tais sentimentos de alegria como a reflexão de que eu, até mesmo eu, posso ainda ser e fazer algo que dará deleite ao coração do próprio Deus! Ele tem alegria sobre um pecador que se arrepende, embora o arrependimento seja apenas graça inicial; e quando prosseguimos daí para outras graças, e tomamos passos ainda mais altos na vida divina, podemos estar certos de que sua alegria está em nós, e portanto nossa alegria pode bem ser plena.

Estas nossas especiarias não são apenas deleitosas a Deus, mas são saudáveis ao homem. Cada partícula de fé que há no mundo é espécie de purificador; onde quer que venha, tende a matar o que é mau. Nos arranjos espirituais sanitários que Deus fez para este pobre mundo, pôs homens de fé, e a fé destes homens, no meio de toda esta corrupção, para ajudar a manter vivas as almas dos outros homens, assim como nosso Senhor Jesus disse a seus discípulos: "Vós sois o sal da terra". Os doces perfumes que fluem das flores que Deus cultiva no jardim de sua Igreja estão espalhando saúde espiritual e sanidade ao redor. É coisa bendita que o Senhor haja provido estas doces especiarias para vencer e contra-atuar os odores insalubres que flutuam em cada brisa.

Pensai, então, queridos amigos, na importância de ser as flores fragrantes de Deus, que podem produzir perfumes deleitosos a ele, e que são benditos e saudáveis a nossos semelhantes. Um homem de fé e amor numa igreja adoça todos os seus irmãos. Dai-nos apenas poucos tais em nosso meio, e não haverá unidade espiritual quebrada, não haverá frieza e morte espiritual; mas tudo irá bem onde estes homens de Deus estão entre nós como influência poderosa para o bem. E, quanto aos ímpios ao nosso redor, a existência continuada na terra da Igreja de Cristo é a esperança do mundo. O mundo que odeia a Igreja não sabe o que faz, pois está odiando seu melhor amigo. As especiarias com que Deus está preservando esta presente era má, para que sua ira não a destrua por causa da corrupção crescente, devem ser encontradas nas flores que ele plantou no jardim de sua Igreja.

Às vezes acontece que estes doces odores dentro do povo de Deus jazem quietos e calmos. Há uma quietude no ar, algo como aquilo de que o poeta Coleridge faz "O Velho Marinheiro" falar em sua descrição gráfica de uma calmaria nos trópicos. Vós, queridos amigos, nunca entrais naquela condição estagnada? Recordo-me, quando era jovem, de ler uma expressão — penso que de Erskine — em que ele diz que gosta mais de um diabo rugindo do que de um diabo dormindo. Impressionou-me então que, se pudesse manter o diabo sempre dormindo, seria a melhor coisa que poderia possivelmente acontecer a mim; mas agora não estou tão certo de que estivesse certo. De qualquer forma, sei isto: quando o velho cão do inferno ladra muito alto, mantém-me acordado; e quando uiva para mim, impele-me ao propiciatório para proteção; mas quando vai dormir, e jaz muito quieto, estou muito inclinado a ir dormir também, e então as graças que estão dentro de minha alma parecem estar absolutamente ocultas. E, notai, graça oculta, que de nenhum modo se revela por seus benditos odores, é o mesmo como se não houvesse nenhuma, para aqueles que observam de fora, e às vezes para o próprio crente.

O que se requer, a fim de que ele saiba que tem estes doces perfumes, é algo fora de si mesmo. Não podeis agitar vossas próprias graças, não podeis fazê-las mais, não podeis fazer com que sua fragrância flua. É verdade, pela oração, podeis ajudar a este fim; mas então, aquela própria oração é posta em vós pelo Espírito Santo, e quando é oferecida ao Senhor, volta a vós carregada de bênçãos; mas frequentemente, algo mais é necessário, algum movimento da providência de Deus, e muito mais, alguma poderosa operação de sua graça, para vir e sacudir as campânulas florais em seu jardim, e fazê-las derramar sua fragrância no ar. Ai! em dia quente e sonolento, quando tudo caiu em profundo sono, até mesmo os santos de Deus, embora sejam virgens prudentes, vão dormindo profundamente como as virgens loucas, e esquecem que "vem o Esposo". "E tardando o esposo, todas cabecearam e adormeceram"; e, às vezes, vós e eu devemos pegar-nos cochilando quando deveríamos estar bem acordados.

Estamos passando por parte daquele terreno encantado que João Bunyan descreve, e não sabemos o que fazer para nos mantermos acordados. Em tais tempos, o cristão está muito inclinado a perguntar: "Estou de fato plantado no jardim de Deus? Sou verdadeiramente filho de Deus?" Agora, direi o que alguns de vós podeis pensar coisa forte; mas não creio que seja filho de Deus aquele que nunca levantou aquela questão. Cowper verdadeiramente escreveu:

"Não tem esperança quem nunca teve temor;
E aquele que nunca duvidou de seu estado,
Ele pode, talvez — talvez possa — tarde demais."

Tenho cantado, e espero que possa ter de cantar novamente:

"É ponto que anseio saber;
Frequentemente causa pensamento ansioso;
Amo o Senhor ou não?
Sou dele, ou não sou?"

Não posso suportar entrar naquela condição, e não posso suportar permanecer nela quando nela estou, mas ainda, deve haver pensamento ansioso sobre este tão importantíssimo assunto. Porque aconteceu de estardes excitado em certa ocasião, e pensastes que estáveis convertido e estáveis certo do céu, melhor olhardes bem a evidência sobre a qual vos apoiais. Podeis estar enganado afinal; e embora eu não queira pregar fé pequena, quero pregar contra grande presunção. Nenhum homem pode ter fé forte demais, e nenhuma certeza pode ser cheia demais, se vem verdadeiramente de Deus, o Espírito Santo; mas se vem meramente de vossa imaginação de que é assim, e, portanto, não vos examinareis, se estais na fé, começo a resolver que não é assim, porque temeis olhar para o assunto.

"Sei que estou ficando rico", diz um mercador, "nunca mantenho livros, e não quero livros, mas sei que estou indo bem em meu negócio". Se, meu querido senhor, não vir logo seu nome na Gazeta, ficarei surpreso. Sempre que um homem é tão muito bom que não quer de modo algum inquirir sobre sua posição diante de Deus, suspeito que teme introspecção e autoexame, e que não ousa olhar em seu próprio coração. Isto sei: ao observar o muito povo de Deus a mim confiado aqui, vejo alguns correrem por dez anos ou mais servindo a Deus com santa alegria, e não tendo dúvida nem temor. Não são geralmente notáveis por qualquer grande profundidade de experiência, mas quando Deus pretende fazer deles homens poderosos, cava ao redor deles, e logo vêm a mim chorando, e ansiando um pouco de consolo, contando-me que dúvidas têm, porque não são o que querem ser. Alegro-me quando este é o caso, regozijo-me porque sei que estarão espiritualmente melhores depois. Alcançaram padrão mais alto do que haviam alcançado previamente, têm agora melhor conhecimento do que devem ser. Pode ser que, antes, seu ideal fosse baixo, e pensavam que o haviam alcançado. Agora, Deus lhes revelou alturas maiores, que têm de galgar; e podem bem cingir os lombos de sua mente para fazê-lo por ajuda divina.

À medida que sobem, talvez pensem: "Agora estamos no topo da montanha", quando estão realmente somente em uma das esporas inferiores dela. Sobem, subindo novamente. "Se eu puder apenas alcançar aquele ponto, logo estarei no cume", pensais. Sim, e quando finalmente chegais ali, vedes a montanha ainda elevando-se muito acima de vós. Quão enganosa é a altura dos Alpes àqueles que não os viram antes! Disse a um amigo uma vez: "Levará cerca de treze horas para chegar ao topo daquela montanha". "Ora", respondeu ele, "posso correr lá em meia hora". Deixei que tentasse, e não foi longe antes de ter que sentar-se para ofegar e descansar. Assim pensais em certa altura de graça: "Oh, posso facilmente alcançar aquilo!" Sim, exatamente; mas não sabeis quão alta é; e aqueles que pensam que alcançaram o topo não sabem nada sobre o topo; pois aquele que sabe quão alta é a santidade à qual o crente pode atingir continuará escalando e subindo, frequentemente sobre mãos e joelhos, e quando tiver alcançado aquele ponto que pensou ser o cume, sentar-se-á e dirá: "Pensei ter alcançado o topo, mas agora acho que apenas comecei a subida". Ou pode dizer com Jó: "Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi falar de ti" (e então eu não sabia muito de ti, ou de mim mesmo tampouco), "mas agora o meu olho te vê. Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza".

Vedes, então, que há doces especiarias jazendo nos cristãos, como mel oculto e perfume trancado dentro das flores em dia quente.

II. QUE ESTES DOCES ODORES DEVEM SER DIFUNDIDOS

O que se requer é que ESTES DOCES ODORES DEVEM SER DIFUNDIDOS. Esta há de ser nossa segunda divisão. Lede o texto novamente: "Levanta-te, vento norte, e vem tu, vento sul; assopra no meu jardim, para que destilem os seus aromas".

Observai, primeiro, que, até que nossas graças sejam difundidas, é o mesmo como se não estivessem ali. Podeis passar por uma floresta, e ela pode estar abundando em caça, contudo podeis mal ver uma lebre ou notar um faisão em qualquer lugar nela. Ali jazem todos quietos e não perturbados; mas, pouco a pouco, os batedores passam pela floresta fazendo grande barulho, e lá voam os faisões, e podeis ver as lebres tímidas correrem como cervas soltas, porque são perturbadas e despertadas. Isto é o que às vezes necessitamos, ser despertados e agitados do sono. Podemos não saber que temos qualquer fé até que venha uma prova, e então nossa fé levanta-se ousadamente. Dificilmente podemos saber quanto amamos nosso Senhor até que venha uma prova de nosso amor, e então nos comportamos de tal modo que sabemos que o amamos. Frequentemente, como já vos lembrei, algo se requer de fora para agitar a vida que jaz escondida dentro. É assim com estas doces flores no jardim do Bem-Amado; necessitam ou do vento norte ou do vento sul assoprar sobre elas para que possam espalhar seus doces odores.

Notai em seguida, que é muito doloroso ao cristão estar em tal condição que suas graças não estão agitando. Não pode suportá-lo. Nós que amamos o Senhor não nascemos de novo para desperdiçar nosso tempo em sono pecaminoso; nossa palavra-de-ordem é: "Não durmamos, pois, como os demais". Não nascemos para inação; cada poder que Deus pôs dentro de nós foi destinado a ser usado em trabalhar, e esforçar-se, e servir ao Senhor. Assim, quando nossas graças estão adormecidas, nós mesmos estamos em estado infeliz. Então anelamos por qualquer agência que coloque aquelas graças em movimento. O vento norte? Oh, mas se assoprar, então teremos neve! Bem, então, que venha a neve, pois devemos ter nossas graças postas em movimento, não podemos suportar que continuem a jazer quietas e paradas. "Levanta-te, vento norte!" — prova pesada, adversidade crua, tentação feroz — qualquer coisa contanto que apenas comecemos a difundir nossas graças. Ou se o vento norte é temido, dizemos: "Vem tu, vento sul!" Que prosperidade nos seja concedida; que doce comunhão com nossos irmãos nos desperte, e santas meditações, cheias de deleite, agitem nossas almas; que um senso da vida divina, como suave vento sul, venha a nosso espírito. Não somos particulares quanto a qual é, que o Senhor envie o que lhe aprouver, ou ambos juntos, como o texto parece implicar, somente deixai-nos ser despertados. "Vivifica-me, ó Senhor, segundo a tua palavra" — qualquer palavra que escolheres aplicar, somente vivifica teu servo, e não deixes as graças dentro de mim estarem como se estivessem mortas!

Lembrai, todavia, que o melhor Vivificador é sempre o Espírito Santo; e aquele bendito Espírito pode vir como o vento norte, convencendo-nos de pecado, e rasgando cada farrapo de nossa autoconfiança, ou pode vir como o suave vento sul, todo cheio de amor, revelando Cristo, e o concerto da graça, e todas as bênçãos nele entesouradas para nós. Vem, Espírito Santo! Vem como a celestial Pomba, ou como o vento impetuoso e poderoso; mas vem! Cai do alto, tão suavemente quanto o orvalho, ou vem como granizo estalante, mas vem, bendito Espírito de Deus! Sentimos que devemos ser movidos, devemos ser agitados, as emoções de nosso coração devem novamente pulsar, para provar que a vida de Deus está realmente dentro de nós; e se não percebemos esta vivificação e agitação, somos completamente infelizes.

Vedes também, queridos amigos, por este texto, que quando um filho de Deus vê que suas graças não estão difundidas, então é o tempo que deve tomar para a oração. Nunca pense nenhum de nós em dizer: "Não me sinto como se pudesse orar, e portanto não orarei". Pelo contrário, então é o tempo quando devíeis orar mais fervorosamente que nunca. Quando o coração está desinclinado para a oração, tomai isto como sinal de perigo, e de uma vez ide ao Senhor com esta resolução:

"Aproximar-me-ei de ti — forçarei
Meu caminho através de obstáculos a ti:
A ti por força terei recurso,
A ti por consolação fugirei!"

Quando pareceis a vós mesmos ter pouca fé, e pouco amor, e pouca alegria, então clamai ao Senhor muito mais: "clama em alta voz, não te detenhas". Dizei: "Ó meu Pai, não posso suportar esta existência miserável! Tu me fizeste para ser uma flor, para espalhar meu perfume, contudo não o estou fazendo. Oh, por algum meio, agita meu espírito desfalecente, até que esteja cheio de fervorosa indústria, cheio de santa ansiedade para promover tua glória, ó meu Senhor e Mestre!" Enquanto estais assim clamando, deveis ainda crer, contudo, que Deus, o Espírito Santo, pode agitar vosso espírito, e fazer-vos cheios de vida novamente. Nunca permitais que uma dúvida sobre este fato permaneça em vosso peito, senão ficareis desnecessariamente tristes.

Vós, que sois os verdadeiros filhos de Deus, nunca podeis vir a uma condição da qual o Espírito Santo não possa levantar-vos. Conheceis o caso notável de Laodiceia, que não era nem fria nem quente, e portanto tão nauseante ao grande Senhor que ameaçou vomitá-la de sua boca, contudo qual é a mensagem ao anjo daquela igreja? "Eis que estou à porta e bato". Isto não é dito aos pecadores, é dirigido ao anjo da igreja dos Laodicenses: "Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo". Oh, graça sem par! Ele está enjoado destes professores mornos, contudo promete cear com eles, e que hão de cear com ele. Esta é a única cura para mornidão e declínio: renovar comunhão de coração com Cristo; e ele está em pé e a oferece a todo seu povo agora. "Somente abris a porta, e cearei convosco, e cearieis comigo". Ó vós cujas graças estão jazendo tão pecaminosamente dormentes, que tendes de lamentar e clamar por causa do "corpo desta morte" — pois a morte em vós parece ter tomado para si um corpo, e ter-se tornado coisa substancial, não mais mero esqueleto agora, mas forma pesada, embaraçosa, que vos curva — clamai ainda àquele que é capaz de livrar-vos deste estado morno e pecaminoso! Que cada um de nós levante a oração de nosso texto: "Levanta-te, vento norte, e vem tu, vento sul; e assopra no meu jardim, para que destilem os seus aromas".

III. A COMPANHIA DE CRISTO E A ACEITAÇÃO DE NOSSO FRUTO POR CRISTO

Nossa terceira e final divisão ajudará a explicar a porção restante de nosso texto: "Ah! venha o meu amado para o seu jardim, e coma os seus frutos excelentes". Estas palavras falam de A COMPANHIA DE CRISTO E A ACEITAÇÃO DE NOSSO FRUTO POR CRISTO.

Quero, queridos amigos, que especialmente noteis uma expressão que é usada aqui. Enquanto a esposa estava, por assim dizer, trancada e congelada, e as especiarias do jardim do Senhor não estavam saindo, ela clamou aos ventos: "Assopra no meu jardim". Ela mal ousou chamá-lo jardim de seu Senhor; mas agora, notai a alteração na fraseologia: "Ah! venha o meu amado para o seu jardim, e coma os seus frutos excelentes". O vento soprou pelo jardim, e fez os doces odores fluírem; agora não é mais "meu jardim", mas "seu jardim". É maravilhoso como um aumento de graça transfere nossas propriedades; enquanto temos apenas pouca graça, clamamos "meu", mas quando obtemos grande graça, clamamos "seu". Naquilo em que és pecaminoso e fraco, irmão, aquilo é teu, justamente o chamas "meu"; mas quando te tornas forte, e alegre, e cheio de fé, aquilo não é teu, irmão, e justamente o chamas "seu". Que ele tenha toda a glória da mudança enquanto tu tomas para ti toda a vergonha e confusão de face de que jamais devesses ter sido tão desprovido de graça. Como diz a esposa: "Ah! venha o meu amado para o seu jardim. Aqui estão todos os doces perfumes fluindo; ele os desfrutará, deixai-o vir e sentir-se em casa entre eles. Ele plantou cada flor, e deu a cada uma sua fragrância; deixai-o vir para o seu jardim, e ver que maravilhas sua graça operou".

Não sentis, amados, que a única coisa que anelais para agitar toda vossa alma é que Cristo venha a ela? Perdestes sua companhia ultimamente? Oh, não tenteis passar sem ela! O verdadeiro filho de Deus não deve estar disposto a suportar comunhão quebrada nem mesmo por cinco minutos; mas deve estar suspirando e clamando por sua renovação. Nosso negócio é procurar "andar na luz, como ele na luz está", plenamente desfrutando comunhão com Cristo nosso Senhor; e quando aquela comunhão é quebrada, então o coração sente que lançou fora toda sua felicidade, e deve vestir-se em saco, e dolorosamente jejuar. Se a presença do Esposo vos for tirada, então deveras tereis causa para jejuar e estar triste. A melhor condição em que um coração pode estar, se perdeu comunhão com Cristo, é resolver que não dará repouso a Deus até obter de volta comunhão com ele, e não dar repouso a si mesmo até que uma vez mais ache o Bem-Amado.

Em seguida, observai que, quando o Bem-Amado vem ao seu jardim, o humilde mas fervoroso rogo do coração é: "Coma os seus frutos excelentes". Quereríeis reter qualquer coisa de Cristo? Sei que não poderíeis se ele viesse ao seu jardim. As melhores coisas que tendes, primeiro lhe apresentaríeis, e então tudo que tendes, trazeríeis a ele, e deixaríeis tudo a seus queridos pés. Não lhe pedimos para vir ao jardim, para que possamos armazenar nossos frutos, para que possamos guardá-los e estocá-los para nós mesmos; pedimos-lhe para vir e comê-los. A maior alegria de um cristão é dar alegria a Cristo; não sei se o próprio céu pode superar esta pérola de dar alegria ao coração de Jesus Cristo na terra. Pode igualá-la, mas não superá-la, pois é alegria superlativa dar-lhe alegria — o Homem de dores, que foi esvaziado de alegria por amor de nós, e que agora é enchido novamente com alegria à medida que cada um de nós vem e traz sua porção, e causa ao coração de Cristo novo e fresco deleite.

Jamais resgatastes uma pobre moça das ruas? Jamais resgatastes um pobre ladrão que tinha estado na prisão? Então sei que, enquanto ouvistes da santa castidade de uma, ou da sagrada honestidade do outro daquelas vidas que tendes sido o meio de restaurar, dissestes: "Oh, isto é deleitoso! Não há alegria igual a isto. O esforço custou-me dinheiro, custou-me tempo, custou-me pensamento, custou-me oração, mas sou recompensado mil vezes". Então, à medida que os vedes crescerem tão brilhantes, tão transparentes, tão santos, tão úteis, dizeis: "Esta obra vale a pena viver por ela, é um deleite além de medida". Frequentemente, pessoas vêm a mim, e contam-me de almas que foram salvas através de meu ministério há vinte anos. Ouvi, outro dia, de um que foi trazido a Cristo por um sermão meu quase há trinta anos, e disse ao amigo que me contou: "Obrigado, obrigado; não poderias dizer-me nada que daria a meu coração tal alegria como estas boas novas de que Deus me fez instrumento da conversão de uma alma". Mas qual deve ser a alegria de Cristo, que faz toda a obra da salvação, que nos redime do pecado, e da morte, e do inferno, quando vê tais criaturas como somos, feitas para ser semelhantes a ele, e conhece as divinas possibilidades de glória e imortalidade que jazem dentro de nós?

Que havemos de ser, irmãos e irmãs, nós que estamos em Cristo? Não temos ideia do que a santidade, e a glória, e a bem-aventurança ainda hão de ser nossas. "Ainda não é manifesto o que havemos de ser". Podemos subir até mesmo enquanto estamos na terra a grandes alturas de santidade — e quanto mais alto, melhor; mas há algo melhor para nós do que olho mortal jamais viu ou ouvido mortal jamais ouviu. Há mais graça para estar nos santos do que jamais vimos neles, o mais santo santo na terra nunca foi tal santo quanto são aqueles lá que estão diante do trono do Altíssimo; e não sei, mas, mesmo quando chegarem lá, haverá algo ainda além para eles, e que através dos eternos séculos tomarão ainda como seu lema: "Adiante e para cima!" No céu, não haverá "Fim". Continuaremos ainda a desenvolver-nos, e a tornar-nos algo mais do que jamais fomos antes; não mais cheios, mas contudo capazes de conter mais, crescendo sempre na possibilidade de refletir Cristo, e ser cheios de seu amor; e durante todo o tempo nosso Senhor Jesus Cristo estará encantado e deleitado conosco. Ao ouvir ele nossos cânticos elevados de louvor, ao ver ele a bem-aventurança que estará sempre fulgurando de cada um de nós, ao perceber ele o êxtase divino que será nosso para sempre, tomará supremo deleite em tudo isto. "Meus remidos", dirá ele, "as ovelhas de meu pasto, a compra de meu sangue, levadas sobre meus ombros, meu próprio coração traspassado por eles, oh, como me deleito em vê-los no aprisco celestial! Estes meus remidos são co-herdeiros comigo na ilimitada herança que lhes será para sempre; oh, como me deleito neles!"

"Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras", amados, e clamai poderosamente para que, sobre esta igreja, e sobre todas as igrejas, o Espírito de Deus possa soprar, para fazer as especiarias fluírem. Orai, queridos amigos, todos vós, pelas igrejas às quais pertenceis; e se tu, meu irmão, és pastor, pede especialmente por este divino vento para soprar pelo jardim que tens de cultivar, como também oro por esta porção do jardim do Senhor: "Ah! venha o meu amado para o seu jardim, e coma os seus frutos excelentes". O Senhor seja com cada um de vós, amados, por amor de seu querido nome! Amém.

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