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SERMÃO 56

"O Retrato Formoso de um Santo"

Jó 23:11, 12
"Meu pé tem seguido os seus passos; o seu caminho tenho guardado, e não me desviei. Não me apartei do mandamento dos seus lábios; as palavras da sua boca guardei mais do que o meu alimento necessário." — Jó 23:11, 12

Jó fala assim de si mesmo, não por vanglória, mas por vindicação. Elifaz o temanita e seus dois companheiros havia levantado distintas acusações contra o caráter de Jó: vendo-o em tal miséria extrema, concluíram que sua adversidade havia sido mandada como punição por seu pecado, e portanto julgaram-no um hipócrita, que sob pretensão de religião havia exercido opressão e tirania.

Sofar havia insinuado que a impiedade era doce na boca de Jó, e que ele ocultava a iniquidade sob sua língua. Elifaz o acusava de dureza de coração para com os pobres, e ousava dizer: "Certamente despiste a roupagem do nu, e não cobriste o faminto". Isto, por sua própria impossibilidade, fora destinado a demonstrar a extrema vileza a qual ele falsamente imaginava que Jó havia descido — como poderia ele despojar o nu? Claramente estava disparando ao acaso. Como nem ele nem seus companheiros pudessem descobrir qualquer mancha palpável em Jó sobre a qual pudessem definitivamente assinalar seus dedos, salpicaram-no por todos os lados com suas acusações infundadas. Compensavam em veneno a falta de evidência para apoiar suas acusações. Sentiam-se certos de que havia de haver algum grande pecado nele para ter procurado tais aflições extraordinárias, e portanto, ferindo-o por todas as partes, esperavam atingir o ponto sensível. Que nos sirvam como aviso para nunca julgar os homens por suas circunstâncias, e nunca concluir que um homem deve ser mau porque caiu da riqueza à pobreza.

Jó, porém, conhecia sua inocência, e estava determinado não a ceder diante deles. Disse: "Vocês são forjadores de mentiras, médicos de nenhum valor. Oh, se totalmente silenciassem! e seria vossa sabedoria!"

Ele lutou pela batalha com grande coragem; não talvez sem alguma exibição de temperamento e autopredomínio, mas ainda assim com muito menos de um e outro do que qualquer de nós teria mostrado estivéssemos na mesma situação, e estivéssemos igualmente conscientes de integridade perfeita. Nesta parte de sua autodefesa, esboçou um belo quadro de um homem perfeito e reto perante Deus.

Apresentou-nos a imagem à qual deveríamos procurar ser conformados.

Aqui está o alto ideal após o qual todo homem cristão deve aspirar; e bem-aventurado será aquele que o alcançar. Abençoado é aquele que na hora de sua angústia, se for falsamente acusado, será capaz de dizer com tanta verdade quanto o patriarca podia, "Meu pé tem seguido os seus passos; o seu caminho tenho guardado, e não me desviei. Não me apartei do mandamento dos seus lábios; as palavras da sua boca guardei mais do que o meu alimento necessário."

Peço-vos, primeiro, que inspecioneis o quadro da vida santa de Jó, para que o façais vosso modelo. Depois de termos feito isto, olharemos um pouco além da superfície, perguntando-nos: "Como foi que ele se viu capacitado a viver tal vida admirável como esta? De que alimento se sustentava este grande patriarca para ter crescido tão eminente?" Encontraremos a resposta em nosso segundo tema, o sustento santo de Jó — "as palavras da sua boca guardei mais do que o meu alimento necessário." Que Aquele que operou em Jó sua paciência e integridade, por esta nossa meditação, nos ensine as mesmas virtudes pelo poder do Espírito Santo.

I. SENTEMOS ANTE ESTE ESBOÇO DA VIDA SANTA DE JÓ

Note, em primeiro lugar, que Jó havia sido ao longo de sua vida um homem que temia a Deus e andava segundo a regra divina. Nas palavras diante de nós, ele muito se detém nas coisas de Deus — "seus passos", "seu caminho", "o mandamento dos seus lábios", "as palavras da sua boca". Era preeminentemente um que "temia a Deus e se desvia do mal". Ele conhecia Deus como o Senhor, e digno de ser servido, e portanto vivia em obediência à sua lei, que estava escrita em sua consciência instruída. Seu caminho era o caminho de Deus; escolheu o curso que o Senhor mandava. Não procurava seu próprio prazer, nem a realização de sua própria vontade: não seguia a moda do tempo, nem se conformava à opinião reinante ou costume da idade em que vivia: a moda e o costume nada eram para ele, conhecia nenhuma regra senão a vontade do Todopoderoso. Como algum rochedo elevado que enfrenta a enchente, mantinha-se quase sozinho, uma testemunha para Deus num mundo idólatra. Reconhecia o Deus vivo, e vivia "como aquele que vê o invisível". A vontade de Deus havia tomado a roda do navio, e o barco era guiado segundo o curso de Deus de acordo com a bússola divina de justiça infalível e a carta inexorável da vontade divina. Este é um ponto magnífico para começar; é, com efeito, a única base segura de um caráter nobre. Pergunto ao homem que procura ser o arquiteto de um grande e honrado caráter esta questão — Onde coloca Deus? É segundo para você? Ah, então, no julgamento daqueles cuja vista compreende todas as relações humanas, você levará uma vida muito secundária, pois a primeira e mais urgente obrigação de seu ser será negligenciada. Mas é Deus primeiro para você? É esta sua determinação, "Quanto a mim e à minha casa, serviremos ao Senhor"? Você procura primeiro o reino de Deus e sua justiça? Se assim é, está lançando o fundamento para um caráter inteiro ou santo, pois começa reconhecendo sua mais elevada responsabilidade. Neste aspecto você descobrirá que "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria." Seja o caminho áspero ou suave, ascendente ou descendente, através de verdes pastos ou desertos abrasadores, deixe que o caminho de Deus seja seu caminho. Onde a coluna de fogo e nuvem de sua providência conduz, tenha certeza de seguir, e onde seus santos estatutos mandam, ali prontamente vá. Peça ao Senhor que lhe deixe ouvir seu Espírito falando como uma voz atrás de você dizendo: "Este é o caminho, andai por ele." Assim que ver das Escrituras, ou da consciência, ou da providência, qual é a vontade do Senhor, apresse-se e não se demore em guardar seus mandamentos. Coloque o Senhor sempre diante de você. Tenha respeito aos seus estatutos a todo o tempo, e em todos os seus caminhos o reconheça. Nenhum homem será capaz de olhar para trás sobre sua vida com complacência se Deus não tiver estado sentado no trono de seu coração e governado todos os seus pensamentos, propósitos e ações. Se não puder dizer com Davi, "Minha alma tem guardado teus testemunhos e os amo extremamente," encontrará muito sobre o que chorar e pouco com que responder seus acusadores.

Devemos seguir o caminho do Senhor, ou nosso fim será destruição; devemos tomar os passos de Cristo, ou nossos pés logo estarão em lugares escorregadios; devemos reverenciar as palavras de Deus, ou nossas próprias palavras serão ociosas e cheias de vaidade; e devemos guardar os mandamentos de Deus, ou seremos destituídos daquela santidade sem a qual nenhum homem verá o Senhor. Não apresento a obediência à lei como o caminho da salvação; mas falo àqueles que professam estar salvos pela fé em Cristo Jesus, e lembro todos vós que sois numerados com a companhia de crentes que se sois discípulos de Cristo, trazereis os frutos da santidade, e se sois filhos de Deus sereis como vosso Pai. A piedade gera semelhança a Deus. O temor de Deus leva à imitação de Deus, e onde isto não é assim, falta a raiz do assunto.

A regra escriturística é "pelos seus frutos os conhecereis," e por isto devemos examinar-nos a nós mesmos.

Consideremos agora a primeira sentença de Jó. Diz ele: "Meu pé tem seguido os seus passos." Esta expressão estabelece grande cuidado.

Ele havia observado cada passo de Deus, isto é, havia sido minucioso quanto aos detalhes, observando cada preceito, que olhava como sendo uma pegada que o Senhor havia feito para ele colocar seu pé; observando também cada detalhe do grande exemplo de seu Deus; pois na medida em que Deus é imitável, é o grande exemplo de seu povo, como diz — "Sede santos, porque eu sou santo": e novamente, "Sede vós perfeitos, assim como vosso Pai celestial é perfeito." Jó havia observado os passos da justiça de Deus, para ser justo; os passos da misericórdia de Deus, para ser piedoso e compassivo; os passos da generosidade de Deus, para nunca ser culpado de mesquinhez ou falta de liberalidade; e os passos da verdade de Deus, para nunca enganar. Havia observado os passos do perdão de Deus, para poder perdoar seus adversários; e os passos da benevolência de Deus, para também fazer o bem e comunicar, conforme sua capacidade, a todos os que estavam em necessidade. Em consequência disto tornou-se olhos para os cegos e pés para os coxos; libertou o pobre que clamava, e o órfão e aquele que não tinha quem o ajudasse. A bênção daquele que estava a ponto de perecer caía sobre ele, e fazia o coração da viúva cantar de alegria. "Meu pé," diz ele, "tem seguido os seus passos": quer dizer que havia laborado para ser exato em sua obediência a Deus, e na imitação do caráter divino. Amados, faremos bem se formos ao ponto mais minucioso, continuamente atentos aos preceitos e exemplo de Deus em todas as coisas. Devemos seguir não apenas o caminho reto, mas suas pegadas naquele caminho. Somos obedientes a nosso Pai celestial não apenas em algumas coisas, mas em todas as coisas: não em alguns lugares mas em todos os lugares, fora de casa e em casa, nos negócios e na devoção, nas palavras de nossos lábios e nos pensamentos de nossos corações.

Não há andar santo sem observação cuidadosa. Dependa disso, nenhum homem foi jamais bom por acaso, nem alguém se tornou como o Senhor Jesus por um feliz acidente. "Coloquei ouro no forno," disse Arão, "e saiu este bezerro," mas ninguém o acreditou. Se a imagem era como um bezerro era porque ele a havia moldado com um buril; e se não é de se acreditar que o metal por si só tomará a forma de um bezerro, muito menos o caráter assumirá semelhança ao próprio Deus, como vemos nele em o Senhor Jesus. O padrão é demasiado rico e raro, demasiado elaborado e perfeito, para ser jamais reproduzido por um trifler desatento e semi-acordado. Não, devemos dar todo nosso coração, mente, alma e força a este negócio, e observar cada passo, ou senão nosso andar não será próximo a Deus, nem agradável à sua vista. Oh, poder dizer, "Meu pé tem seguido os seus passos."

Note aqui que a expressão tem algo de tenacidade nela, fala de tomar posse dos passos de Deus. A ideia precisa ser iluminada pela ilustração contida na expressão original. Você deve ir a regiões montanhosas para compreendê-la. Em caminhos muito ásperos uma pessoa pode andar muito melhor por não ter sapatos aos pés. Algumas vezes tive pena das mulheres de Mentone descendo os lugares ásperos das montanhas descalças, carregando pesadas cargas sobre suas cabeças, mas deixei de ter pena quando observei que a maioria delas tinha um excelente par de sapatos na cesta no topo; e percebi quando as observava que podiam estar onde eu escorregava, porque seus pés tomavam posse da rocha, quase como outro par de mãos. Descalças poderiam estar com segurança, e prontamente subir onde pés calçados segundo nossa moda nunca os levariam. Muitos orientais têm um poder de preensão em seus pés que parece termos perdido pela falta de uso. Um árabe ao tomar uma posição determinada realmente parece agarrar o chão com seus dedos dos pés. Roberts nos diz em suas bem-conhecidas "Ilustrações" que os orientais, em vez de se curvarem para apanhar coisas do chão com seus dedos, as apanharão com os dedos dos pés; e ele conta de um criminoso condenado a ser decapitado, que, para estar firme quando estava a ponto de morrer, agarrou um arbusto com seu pé. Jó declara que tomou posse dos passos de Deus, e assim garantiu uma posição firme. Ele tinha um apreensão cordial da santidade, assim como Davi disse, "Tenho-me apegado aos teus testemunhos."

Aquele eminente erudito Dr. Good traduz a passagem, "em seus passos fixarei meus pés." Colocaria seus pés tão firmemente nas pegadas da verdade e justiça como se estivessem fixos ali, tão firme era sua apreensão daquele caminho santo que seu coração havia escolhido. Isto é exatamente o que precisamos fazer com relação à santidade: devemos sentir por ela com uma consciência sensível, para saber onde ela está, e quando a conhecemos devemos apoderar-nos dela avidamente, e mantê-la como por nossas vidas. O caminho da santidade é frequentemente áspero, e Satanás tenta torná-lo muito escorregadio, e a menos que possamos tomar posse dos passos de Deus logo escorregaremos com nossos pés, e traremos grande injúria sobre nós mesmos, e desonra ao seu santo nome. Amados, para fazer um caráter santo deve haver uma adesão tenaz à integridade e piedade. Você não deve ser um que possa ser soprado de seus pés pela esperança de um pequeno ganho, ou pelo sopro ameaçador de um homem ímpio: você deve estar firme e estar firme, e contra toda pressão e lisonja você deve apreender e agarrar os preceitos do Senhor, e abide neles, fixo neles. Firme é um dos melhores soldados no exército do Príncipe Imanuel e um dos mais dignos de confiança com as cores de seu regimento. "Tendo feito tudo, permanecei firmes."

Para fazer um caráter santo devemos tomar posse dos passos de Deus no sentido de prontidão e velocidade. Aqui novamente devo levá-los ao Oriente para obter a ilustração. Dizem de um homem que imita de perto seu mestre religioso, "seus pés tomaram posse dos passos de seu mestre," querendo dizer que segue tão de perto seu mestre que parece tomar posse de seus calcanhares. Esta é uma coisa bem-aventurada com efeito, quando a graça nos capacita a seguir nosso Senhor de perto.

Ali está seu pé, e logo atrás dele está o nosso; e ali novamente ele dá outro passo, e plantamos nossos pés onde ele plantou os seus. Um lema muito belo está pendurado em nossa sala de aula infantil no Orfanato de Stockwell, "O que Jesus faria?" Não apenas as crianças podem tomá-lo como seu guia, mas todos nós podemos fazer o mesmo, seja qual for nossa idade. "O que Jesus faria?" Se desejam conhecer o que deveriam fazer sob quaisquer circunstâncias, imaginem Jesus naquela posição, e então pensem, "O que Jesus faria? pois o que Jesus faria devo eu fazer." Ao seguir a Jesus estamos seguindo a Deus, pois em Cristo Jesus o resplendor da glória do Pai é melhor visto. Nosso exemplo é nosso Senhor e Mestre, Jesus o Filho de Deus, e portanto esta questão é mas um raio de nossa estrela guiadora. Perguntem em todos os casos — "O que Jesus faria?" Isto desfaz o nó de toda dificuldade moral da maneira mais prática, e o faz tão simplesmente que nenhuma grande engenhosidade ou sabedoria será necessária. Que o Espírito Santo de Deus nos ajude a copiar a linha que Jesus escreveu, assim como os alunos imitam seu mestre de escrita em cada traço, linha, marca e ponto. Oh, quando viermos a morrer, e tivermos de olhar para trás sobre nossas vidas, será uma coisa bem-aventurada ter seguido o Senhor plenamente. São felizes os que seguem o Cordeiro por onde quer que ele vá. Bem-aventurados são eles em vida e morte de quem se pode dizer — assim como ele era assim também eram eles neste mundo. Embora mal compreendidos e mal representados, ainda eram honestos imitadores de seu Senhor.

Tal cristão de coração verdadeiro pode dizer, "Ele conhece o caminho que tomo. Ele me provou, e saí como ouro. Meu pé tem seguido os seus passos." Muita tristeza evitareis se vos mantendo de perto junto ao calcanhar de vosso Mestre. Sabeis o que veio de Pedro seguir de longe; provai o que virá de caminhar de perto com Jesus. Permanecei nele, e deixai que suas palavras permaneçam em vós, e sereis seus discípulos. Não ousais confiar em vossas obras, e não pensareis em fazê-lo, contudo abençoareis a Deus que, sendo salvos por sua graça, fostes capacitados a trazer os frutos do Espírito, por uma estreita e exata seguimento dos passos de vosso Senhor.

Três coisas, então, temos na primeira sentença — uma exatidão de obediência, uma tenacidade de apreensão naquilo que é bom, e uma prontidão em procurar manter contato com Deus, e segui-lo em todos os aspectos.

Que estas coisas estejam em nós e abundem.

Agora prosseguimos à segunda sentença. Temo que digais, "Poupa-nos, pois nem mesmo à primeira sentença ainda chegamos." Laborai por ela então, amados; esquecendo as coisas que ficaram para trás, exceto para chorar sobre elas, avançai para aquilo que está diante. Que Deus vos dê aqueles pés sensíveis e apreensivos que procuramos descrever: pés que tomam posse do caminho do Senhor, e que possais ao longo da vida manter aquela apreensão; pois "bem-aventurados os imaculados no caminho, que andam na lei do Senhor."

A próxima sentença corre assim: "O seu caminho tenho guardado"; isto é, Jó havia aderido ao caminho de Deus como regra de sua vida. Quando sabia que tal-e-tal coisa era a mente de Deus, quer por sua consciência lhe dizendo que era certo, ou por uma revelação divina, então obedecia à intimação e mantinha-se a ela. Ele não saía do caminho de Deus para indulgar suas próprias fantasias, ou seguir algum suposto líder: ao caminho de Deus mantinha-se desde sua juventude, mesmo até o tempo quando o próprio Senhor disse dele, "Consideraste meu servo Jó? Varão perfeito e reto, que teme a Deus e se desvia do mal?" O Senhor deu-lhe este caráter ao diabo, quem não podia negá-lo, e não tentou fazê-lo, mas somente murmurou, "Será à toa que Jó teme a Deus? Não lhe fizeste uma sebe ao redor?" Quando proferiu nosso texto Jó poderia ter replicado ao acusador malicioso que, mesmo quando Deus havia derrubado seus muros e o assolado, ele não havia pecado nem acusado a Deus falsamente. Não deu ouvidos aos conselhos precipitados de sua esposa de amaldiçoar a Deus e morrer, mas continuava bendizendo o nome divino embora tudo lhe fosse tirado. Que palavras nobres são estas: "Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei; o Senhor o deu, e o Senhor o tirou; bendito seja o nome do Senhor." Embora privado de todo conforto terreno, não abandonou o caminho da santidade, mas ainda mantinha-se a seu Deus.

Guardar o caminho significa não simplesmente adesão, mas continuação e progresso nele. Jó havia prosseguido nos caminhos de Deus ano após ano. Ele não se havia cansado da santidade, nem se havia enfastiado da devoção, nem havia ficado doente do que os homens chamam de piedade inflexível. Ele havia mantido o caminho de Deus, e seguido em frente, e em frente, deleitando-se naquilo que a versão de Coverdale chama da "grande rua" de Deus — a estrada da santidade. Quanto mais prosseguia mais prazer tirava disso, e mais fácil o encontrava aos seus pés, pois Deus estava com ele e o guardava, e assim ele guardava o caminho de Deus. "O seu caminho tenho guardado." Quer dizer que apesar de haver dificuldades no caminho ele perseverou nele. Era tempo tempestuoso, mas Jó mantinha-se na velha estrada; a neve brava lhe batia no rosto, mas ele guardava seu caminho: havia percorrido aquele caminho em bom tempo, e não ia abandonar seu Deus agora que as tempestades estavam à solta; e assim guardava seu caminho. Então a cena mudava, o sol era quente, e todo o ar estava repleto de perfume, e alegre com o canto dos pássaros, mas Jó guardava seu caminho. Se a providência de Deus encharcava seu céu de luz solar ele não abandonava Deus por causa da prosperidade, como alguns fazem, mas guardava seu caminho — guardava seu caminho quando era áspero, guardava seu caminho quando era suave. Quando encontrava com adversidades não se desviava para uma trilha lateral, mas viajava a grande estrada do Rei, onde um homem está mais seguro, pois aqueles que ousam assaltá-lo terão que responder para uma autoridade mais alta. A grande rua da santidade é segura porque a garantia do Rei é dada que "ali não haverá leão, nem será por ela visto nenhuma besta feroz." O justo prosseguirá em seu caminho, e assim fazia Jó, vindo chuva ou sol. Quando havia outros no caminho com ele, e quando não havia nenhum, guardava seu caminho. Nem mesmo se desviaria para aqueles três homens bons, ou homens que se consideravam bons, que sentavam à beira do caminho e miseravelmente o confortavam, isto é, o atormentavam; ele guardava o caminho de Deus, como um cujo espírito está determinado e cuja face está posta como um silicioso. Não havia virá-lo, ele lutaria seu caminho se não pudesse tê-lo pacificamente. Gosto de um homem cuja mente está posta em estar certo com Deus, um homem autocontido pela graça de Deus, que não quer ser batido nas costas e encorajado, e que por outro lado não se importa se é repreendido, mas que contou o custo e permanece com ele. Que me seja dado um homem que tem uma espinha; um homem corajoso que tem coragem nele. É bem para um professor quando Deus o colocou alguma alma nele, e o fez um homem com efeito, pois se um homem cristão não é um homem bem como cristão, ele não permanecerá por muito tempo um homem cristão. Jó era firme: um caráter bem-feito que não encolheu quando molhado. Ele cria em seu Deus, conhecia o caminho de Deus, e mantinha-se a ele sob todas as circunstâncias desde seu primeiro começo na vida até àquele dia quando se sentou numa montoeira e a transformou num trono, sobre o qual reinou como entre todos os meros homens, o príncipe incomparável da paciência. Tendes ouvido falar da paciência de Jó, e disto como uma parte dela, que guardava o caminho do Senhor.

Agora, queridos irmãos, sobre esta segunda cláusula deixem-me proferir esta palavra de auto-exame. Temos guardado o caminho de Deus? Temos entrado nele e pretendemos guardá-lo ainda? Alguns são rapidamente quentes e rapidamente frios; alguns começam para a Nova Jerusalém como Plausível, muito avidamente, mas a primeira vez que caem no pântano do desespero sua resolução é abalada, e eles rasteiam para o lado de volta para casa e retornam ao mundo novamente. Não haverá conforto em tal religião temporária, mas miséria terrível quando virmos a considerá-la num leito de morte.

Pliáveis inconstantes acharão difícil morrer. Oh, estar constante até o fim, para assim dizer, "Meu pé tem seguido os seus passos, o seu caminho tenho guardado."

Deus nos conceda graça para fazê-lo, por seu Espírito permanecendo conosco.

A terceira cláusula é, "E não me desviei," pela qual entendo que ele não havia se desviado do caminho da santidade, nem declinado no caminho. Primeiro, ele não havia se desviado dele. Ele não havia virado à mão direita nem à mão esquerda. Alguns se desviam do caminho de Deus à mão direita fazendo mais do que a palavra de Deus lhes tem ordenado fazer; tais como inventam cerimônias religiosas, e votos, e laços, e tornam-se supersticiosos, caindo sob a servidão da clergy, e sendo levados para adoração da vontade, e coisas que não são escriturísticas. Isto é tão verdadeiramente vagar quanto sair do caminho para a esquerda seria. Ah, queridos amigos, mantêm-se à simplicidade da Bíblia. Esta é uma idade em que a Sagrada Escritura é muito pouco apreciada. Se uma igreja escolhe inventar uma cerimônia, os homens caem nela, e a praticam como se fosse uma ordenança de Deus. Sim, e se nem a igreja nem a lei reconheçam a realização, contudo se certos padres teimosos escolhem queimar velas, e usar toda sorte de enfeites, e curvar-se, e rastejar, e marchar em procissão, há muitos simplórios que irão para onde quer que seu clérigo escolha, mesmo que ele os leve para o direto paganismo. "Siga meu líder" é o jogo do dia, mas "Siga meu Deus" é o lema de um verdadeiro cristão. Jó não havia virado à mão direita.

Nem havia virado à mão esquerda. Ele não havia sido laxo em observar os mandamentos de Deus. Ele havia evitado a omissão bem como a comissão.

Esta é uma matéria que testa o coração muito; pois quantos há cujos maiores pecados estão na omissão. E lembrem-se, pecados de omissão, embora repousem muito levemente em muitas consciências, e embora a maioria dos professores nem mesmo os pensem como pecados, são os próprios pecados pelos quais os homens serão condenados no último. Como provo isto? O que disse o grande Juiz? "Tive fome e não me destes comida, tive sede e não me destes bebida, estava enfermo e não me visitastes." Era o que não fizeram que os amaldiçoou, mais do que o que fizeram. Então olhem bem para isto, e orem a Deus para que possam não se desviar do caminho de seus preceitos, de Jesus que é o um e único caminho.

Além disso, entendo que Jó significa que nem mesmo havia declinado naquele caminho. Ele não começou correndo duramente e então ficou sem fôlego, e sentou-se à beira do caminho e disse, "Descansa e seja agradecido;" mas ele manteve o ritmo, e não declinava. Se era quente e zeloso uma vez permanecia quente e zeloso; se era incansável no serviço, não diminuía gradualmente para um preguiçoso, mas podia dizer, "Não me desviei."

Enquanto deveríamos fazer avanços rumo ao céu, há muitos que estão, após vinte anos de profissão, não mais avançados do que estavam, mas talvez em um estado pior. Oh, cuidai de um declínio. Costumávamos usar aquele termo anos atrás para significar o começo de uma consunção, ou talvez os efeitos dela; e com efeito, um declínio na alma frequentemente leva a uma consunção mortal. Em uma consunção espiritual a própria vida da religião parece esvair-se pouco a pouco. O homem não morre por uma ferida que golpeia sua reputação, mas por uma fraqueza secreta dentro dele, que se alimenta das entranhas da piedade e deixa a superfície externa bela.

Deus nos salve do declínio. Tenho certeza, queridos amigos, que a maioria de nós não pode permitir-se declinar muito, pois não somos demasiado zelosos, não somos demasiado vivos agora; mas isto é um dos grandes defeitos das igrejas, tantos dos membros estão em declínio que a igreja se torna um hospital em vez de uma caserna. Muitos professores não são o que eram a princípio: eram homens muito promissores, mas não estão sendo homens realizadores de idade. Nos agrada ver as flores em nossas árvores frutíferas, mas elas nos decepcionam a menos que se transformem em fruta, e não estamos satisfeitos nem mesmo então a menos que a fruta amadureça para uma doçura madura. Não fazemos pomares por causa das flores, queremos maçãs. Assim é com o jardim da graça, nosso Senhor vem procurando fruto, e em seu lugar frequentemente acha nada mas folhas.

Que Deus nos conceda que não nos desviemos do mais elevado padrão que jamais alcançamos. "Eu gostaria," disse o Senhor da igreja de Laodiceia, "que fosses frio ou quente." Oh, vós tépidos levem aquele aviso para o coração. Lembrem-se, Jesus não vos pode sofrer; vos soltará de sua boca; vos faz vomitar ao pensar em vós. Se fôsseis absolutamente frio ele vos compreenderia; se fôsseis quente ele se deleitaria em vós; mas sendo nem frio nem quente ele fica doente ao pensar em vós, não vos pode sofrer; e com efeito, quando pensamos no que o Senhor fez por nós, é o bastante para nos fazer vomitar ao pensar que alguém deva arrastar-se de uma maneira fria, inanimada em seu serviço, ele que nos amou, e se deu a si mesmo por nós.

Alguns declinam porque se tornam pobres: até mesmo abstêm-se do culto nessa conta. Espero que nenhum de vós diga, "Não gosto de vir ao Tabernáculo porque não tenho roupas adequadas para vir." Como muitas vezes tenho dito, qualquer roupa é adequada para um homem vir aqui se ele a pagou.

Que cada um venha por todos os meios em tais vestes como tem, e será bem-vindo. Mas conheço alguns professores muito pobres que, na extremidade de sua ansiedade e angústia, em vez de fugirem para Deus, fogem dele. Isto é muito triste. Quanto mais pobres sois, mais necessitais dos ricos consoles da graça. Não deixeis que esta tentação vos vença, mas se sois tão pobres quanto Jó, sede tão resolvidos quanto ele a guardar o caminho do Senhor e não vos desviar. Outros fogem de sua religião porque ficam ricos. Dizem que três gerações nunca virão em rodas a um lugar de culto dissidente, e provou-se ser tristemente verdade em muitos casos, embora eu não tenha causa de me queixar de vós ainda. Algumas pessoas quando sobem no mundo viram seus narizes para seus pobres amigos.

Se algum de vós fizer assim sereis dignos de pena, se não de desprezo. Se abandonardes os caminhos de Deus pela moda do mundo, sereis pobres ganhadores por vossa riqueza. Que o Senhor vos guarde de tal declínio. Muitos declinam porque se conformam à moda do mundo, e o caminho do mundo não é o caminho de Deus. Não diz Tiago, "Não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus." Outros vagueiam porque entram em má companhia, entre pessoas aguçadas, ou pessoas inteligentes, ou pessoas hospitaleiras, que não são pessoas graciosas. Tal sociedade é perigosa. Pessoas que estimamos, mas que Deus não estima, são uma grande armadilha. É muito perigoso amar aqueles que não amam a Deus.

Não será meu amigo do peito aquele que não é amigo de Deus, pois provavelmente lhe renderei pouco serviço, e ele me fará muito mal. Que a graça de Deus impeça que vos torneis frios por qualquer destas causas, e que possais ser capazes de dizer, "Não me desviei."

Uma mais sentença permanece: "Não me apartei do mandamento dos seus lábios": isto é, assim como ele não havia afrouxado seu passo, muito menos havia virado para trás. Que nenhum de vós jamais vire para trás.

Esta é a dor mais cortante de um pastor, que certas pessoas venham entre nós, e até mesmo venham para a frente, que após um tempo virem para trás e não mais caminhem conosco. Nós sabemos, como João diz, "Saíram de nós, mas não eram de nós; porque se fossem de nós, certamente com a gente permaneceriam, mas isto foi para que se manifestasse que nem todos são de nós"; contudo que angústia causa quando vemos apóstatas entre nós e conhecemos sua condenação. Tomai cuidado, irmãos, para que não haja em vós um coração mau de incredulidade em vos apartardes do Deus vivo. Deixai que a esposa de Lot vos seja um aviso. Temperai vossas almas com um fragmento de sal daquele pilar, e pode vos guardar da corrupção.

Lembrem-se que podeis virar para trás, não apenas de todos os mandamentos, e assim se tornar um apóstata completo, mas há tal coisa como recuar de mandamentos únicos. Vós conheceis o preceito como sendo certo, mas não podeis enfrentá-lo; olhais para ele, e o olhais, e o olhais, e então voltais, voltais, voltais dele, recusando obedecer. Jó nunca havia feito assim. Se era mandamento de Deus ele avançava para cumpri-lo. Pode ser que pareça impossível avançar no caminho do dever, mas se tendes fé deveis ir em frente fosse qual fosse a dificuldade. O negro estava certo ao dizer, "Senhor, se Deus diz, 'Sam, salta pela parede'; é negócio de Sam saltar, e trabalho de Deus fazer-me ir através da parede." Pulai para ele, queridos amigos, ainda que pareça uma parede de granito. Deus limpará o caminho. Pela fé os israelitas atravessaram o Mar Vermelho como em terra seca. É nosso fazer o que Deus nos manda, como nos o manda, quando nos o manda, e nenhum mal pode vir disso. Força igual a nosso dia nos será dada, apenas deixai-nos gritar "Avante!" e empurrai em frente.

Aqui somente uma palavra mais. Deixai-nos cuidado de nós mesmos de que não viremos para trás, pois virar para trás é perigoso. Não temos armadura para nossas costas, nenhuma promessa de proteção em retirada. Virar para trás é ignóbil e vil. Ter tido uma ideia grandiosa e então virar para trás dela como um cão chicoteado, é desonroso.

Vergonha do homem que não ousa ser um cristão. Até mesmo pecadores e homens ímpios apontam para o homem que colocou sua mão no arado e olhou para trás, e não era digno do reino. Com efeito, é fatal; pois o Senhor disse, "Se alguém se afastar, minha alma não terá prazer nele." Avante! Avante! embora — morte e inferno obstruam o caminho, pois para trás é derrota, destruição, desespero. Oh Deus, concede-nos de tua graça que quando chegarmos ao fim da vida possamos dizer com alegria, "Não me apartei de teu mandamento." A aliança promete graça perseverante, e será vossa, apenas olhai bem que não vos burleis desta graça.

Eis o quadro que Jó esboçou. Pendurem-no na parede de vossa memória, e Deus vos ajude a pintar segundo este velho mestre, cuja perícia é inigualável.

II. SECONDAMENTE, DEIXEMOS VER COMO JÓ ADQUIRIU ESTE CARÁTER

Aqui notamos o SUSTENTO SANTO DE JÓ, "as palavras da sua boca guardei mais do que o meu alimento necessário."

Primeiro, então, Deus falou a Jó. Alguma vez Deus vos falou? Não suponho que Jó tivesse sequer uma única página de escritura inspirada. Provavelmente não tinha — nem sequer vira os primeiros livros de Moisés; pode ter feito, mas provavelmente não tinha. Deus falou a ele. Alguma vez vos falou? Nenhum homem jamais servirá a Deus corretamente a menos que Deus tenha lhe falado. Tendes a Bíblia, e Deus fala naquele livro e através dele; mas cuidado para não repousar na letra impressa sem discernir seu espírito. Deveis procurar ouvir a voz de Deus na letra impressa. "Deus, tendo falado muitas vezes, e de muitas maneiras aos pais pelos profetas, nestes últimos dias nos falou por seu Filho"; mas oh, orai para que este Filho divino vos fale pelo Espírito Santo bem em vosso coração.

Qualquer coisa que vos guarde do contato pessoal com Jesus vos rouba da melhor bênção. O romanista diz que usa um crucifixo para o ajudar a lembrar-se de Cristo, e então suas orações frequentemente param no crucifixo, e não chegam a Cristo; e da mesma maneira podeis fazer um ídolo de vossa Bíblia usando as meras palavras como substituto pela voz de Deus para vós. O livro é para vos ajudar a lembrar-se de Deus, mas se vos aderis na mera letra, e não chegais a Deus nunca, mal usais a palavra sagrada.

Quando o Espírito de Deus fala um texto bem na alma, quando o próprio Deus toma a promessa ou o preceito e o envia com energia viva no coração, isto é aquilo que faz um homem ter reverência pela palavra: ele sente sua majestade terrível, sua supremacia divina, e enquanto treme por ela se alegra, e avança para obedecer porque Deus lhe falou. Queridos amigos, quando Deus fala tende certeza de que tendes ouvidos abertos para ouvir, pois frequentemente ele fala e os homens o desregram. Em uma visão da noite quando sono profundo cai sobre os homens Deus falou a seus profetas, mas agora ele fala por sua palavra, aplicando-a ao coração com poder por seu Espírito. Se Deus fala-nos pouco é porque somos duros de ouvido. Corações renovados nunca ficam por muito tempo sem um sussurro do Senhor. Ele não é um Deus mudo, nem está tão longe que não possamos ouvi-lo: aqueles que guardam seus caminhos e tomam seus passos, como Jó fez, ouvirão muitas de suas palavras para o deleite e proveito da alma. O fato de Deus ter falado a Jó era o segredo de sua vida consistentemente santa.

Então note, que o que Deus havia falado a ele ele tesouro.

Ele diz no hebraico que havia escondido a palavra de Deus mais do que jamais havia escondido seu alimento necessário. Eles tinham que esconder grão naqueles dias para guardá-lo dos árabes vagabundos. Jó havia sido mais cuidadoso em guardar a palavra de Deus do que em guardar seu trigo e sua cevada; mais ansioso em preservar a memória do que Deus havia falado do que em recolher suas colheitas. Vós tesouro o que Deus tem falado?

Vós estudais a Palavra? Vós a lede? Oh, quanto pouco a procuramos em comparação com o que deveríamos fazer. Vós meditais sobre ela? Vós extrais seus doces secretos? Vós armazenais sua essência como as abelhas reúnem o suco da vida das flores, e entesourais seu mel para alimento do inverno? O estudo bíblico é o metal que faz um cristão; esta é a carne forte com a qual homens santos são nutridos; isto é aquilo que faz o osso e o tendão de homens que guardam o caminho de Deus em desafio a cada adversário. Deus falou a Jó, e Jó tesouro suas palavras.

Aprendemos da nossa versão do texto que Jó vivia da palavra de Deus: ele a contava como sendo melhor para ele do que seu alimento necessário. Ele a comia. Esta é uma arte que alguns não compreendem — comendo a palavra do Senhor.

Alguns olham a superfície das Escrituras, alguns despedaçam as Escrituras sem piedade, alguns cortam o pão celestial em pedaços de dados, e mostram sua engenhosidade, alguns o revolvem à procura de ameixas, como crianças com um bolo; mas bem-aventurado é aquele que o faz sua carne e bebida. Ele toma a palavra de Deus para ser o que é, a saber, uma palavra da boca do Eterno, e diz, "Deus está falando comigo nisto, e satisfarei minha alma com isto; não quero nada melhor do que isto, nada mais verdadeiro do que isto, nada mais seguro do que isto, mas tendo conseguido isto permanecerá em mim, em meu coração, nas próprias entranhas de minha vida, será entremeado com a urdidura e trama de meu ser.

Mas o texto acrescenta que ele a estimava mais do que seu alimento necessário. Não mais do que iguarias somente, pois aquelas são superfluidades, mas mais do que seu alimento necessário, e sabeis que o alimento necessário de um homem é algo que ele estima muito altamente. Ele o deve ter. Que, tirai meu pão? diz ele, como se isto não pudesse ser suportado. Tirar o pão da boca de um homem pobre é olhado como a mais elevada espécie de vilania: mas Jó antes deixaria que tirassem o pão de sua boca do que a palavra de Deus de seu coração. Ele a pensava mais do que de seu alimento necessário, e suponho que era porque carne somente sustentaria seu corpo, mas a palavra de Deus alimenta a alma. O alimento dado pelo pão é logo ido, mas o alimento dado pela palavra de Deus permanece em nós, e nos faz viver para sempre. A vida natural é mais do que carne, mas nossa vida espiritual se alimenta de carne ainda mais nobre do que ela mesma, pois se alimenta do pão do céu, a pessoa do Senhor Jesus. O pão é doce ao homem faminto, mas não estamos sempre com fome, e algumas vezes não temos apetite; mas o melhor da palavra de Deus é que aquele que vive perto de Deus sempre tem apetite por ela, e quanto mais dele come mais pode comer. Confesso que muitas vezes me alimentei da palavra de Deus quando não tinha apetite por ela, até que adquiri um apetite. Cresci faminto em proporção como me sentia satisfeito: meu vazio parecia matar minha fome, mas assim que fui revivido pela palavra tenho desejado mais. Assim está escrito, "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos": e quando são fartos continuarão a gozar da bênção, pois continuarão a ter fome e sede embora cheios de graça.

A palavra de Deus é mais doce ao paladar do que pão a um homem faminto, e sua doçura nunca empalideça, embora permaneça longo tempo no paladar. Vós não podeis estar sempre comendo pão, mas podeis sempre vos alimentar da palavra de Deus. Vós não podeis comer toda a carne que vos é posta diante, vossa capacidade é limitada daquele modo, e ninguém senão um glutão deseja o contrário; mas oh, vós podeis ser vorazes pela palavra de Deus, e devorá-la toda, e contudo não ter excesso. Vós sois como um pequeno rato em um grande queijo, e lhes será permitido comê-lo tudo, embora seja mil vezes maior do que vós mesmos. Embora os pensamentos de Deus sejam maiores do que vossos pensamentos, e seus caminhos maiores do que vossos caminhos, contudo seus caminhos podem estar em vosso coração, e vosso coração em seus caminhos. Vós podeis estar cheios de toda a plenitude de Deus, embora pareça um paradoxo. Sua plenitude é maior do que vós, e toda sua plenitude é infinitamente maior do que vós, contudo vós podeis estar cheios de toda a plenitude de Deus. Assim a palavra de Deus é melhor do que nosso alimento necessário: ela possui qualidades que nosso alimento necessário não possui.

Nada mais, exceto isto: vós não podeis ser santos, meus irmãos, a menos que em segredo viveis da abençoada palavra de Deus, e não vivereis sobre ela a menos que venha a vós como a palavra de sua boca. É muito doce conseguir uma carta de casa quando estais longe: é como um buquê de flores frescas no inverno. Uma carta do querido em casa é como música ouvida sobre as águas; mas meia dúzia de palavras daquela boca querida são melhores do que uma dúzia de páginas de manuscrito, pois há uma doçura sobre o rosto e o tom que o papel não consegue carregar. Agora, quero que consigais a Bíblia para não ser apenas um livro mas uma trombeta falante, através da qual Deus fala de longe para vós, de modo que apanheis os próprios tons de sua voz. Deveis ler a palavra de Deus para este fim, pois é enquanto lede, meditais e estudais, e procurais mergulhar-vos em seu espírito, que subitamente parece mudar de um livro escrito para um livro falante ou fonógrafo; ele vos sussurra ou vos troveja como se Deus se houvesse escondido entre suas folhas e falasse à vossa condição; como se Jesus que se alimenta entre os lírios tivesse feito os capítulos para serem leitos de lírios, e tivesse vindo alimentar-se ali. Pedi a Jesus que cause sua palavra vir fresca de sua própria boca a vossa alma; e se assim for, e viveis em comunhão diária com um Cristo pessoal, meus irmãos, então com vossos pés tomareis posse de seus passos; então guardareis seu caminho, então nunca vos desviareis ou voltareis atrás de seus mandamentos, mas fareis bom progresso em vosso caminho peregrino para a cidade eterna. Que o Espírito Santo diariamente esteja convosco. Que cada um de vós viva sob seu sagrado orvalhamento, e seja frutífero em toda boa palavra e obra. Amém e amém.

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