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SERMÃO 62

"O Primeiro Cântico de Natal"

Lucas 2:14
"Glória a Deus nas alturas, e paz na terra entre os homens de boa vontade." — Lucas 2:14

É errado adorar os anjos; mas é apropriado amá-los. Embora fosse um grande pecado, e um crime contra o Supremo Tribunal do Céu dar a menor adoração ao mais poderoso anjo, seria também descortês e inapropriado se não déssemos aos santos anjos um lugar no amor mais caloroso de nosso coração. De fato, aquele que estuda o caráter dos anjos e observa seus muitos atos de compaixão para com os homens, e de bondade para com eles, não pode resistir ao impulso de sua natureza — o impulso de amá-los. O único incidente na história angélica a que nosso texto se refere é suficiente para ligar nossos corações a eles para sempre.

Quão livres de inveja eram os anjos! Cristo não desceu do céu para salvar os anjos quando caíram. Quando Satanás, o poderoso anjo, arrastou consigo um terço das estrelas do céu, Cristo não se inclinou de seu trono para morrer por eles; mas os deixou reservados em correntes e trevas até o grande e último dia do juízo. Contudo os anjos não invejaram os homens. Embora se lembrassem de que Ele não salvou os anjos, não murmuraram quando Ele decidiu resgatar a semente de Abraão; e embora o bendito Mestre nunca tivesse se dignado a assumir a forma de anjo, não pensaram ser inferior a eles expressar sua alegria quando o encontraram revestido no corpo de um bebê.

Quão livres também estavam do orgulho! Não se envergonharam de vir contar as novidades a humildes pastores. Penso que tinham tanto gozo em derramar seus cânticos naquela noite diante dos pastores que vigiavam seus rebanhos, quanto teriam se fossem comandados por seu Mestre a cantar seu hino nos salões de César. Meros homens — homens possuídos de orgulho — pensam ser uma coisa excelente pregar diante de reis e príncipes, e acham ser grande condescendência ter de ministrar às vezes à humilde multidão. Não assim os anjos. Estenderam suas asas dispostas e alegremente partiram de seus brilhantes lugares acima para contar aos pastores na encosta da colina à noite a maravilhosa história de um Deus Encarnado.

E notai como contaram bem a história, e certamente os amareis! Não com a língua gaguejante daquele que conta uma história pela qual não tem interesse; nem mesmo com o interesse fingido de um homem que quer mover as paixões dos outros sem sentir emoção alguma; mas com alegria e regozijo, tal como somente os anjos podem conhecer. Cantaram a história, pois não podiam ficar para contá-la em linguagem ordinária. Cantaram: "Glória a Deus nas alturas, e paz na terra entre os homens de boa vontade." Penso que cantaram com alegria nos olhos; com seus corações ardendo de amor e gozo, como se as boas novas para o homem fossem boas para eles mesmos. E verdadeiramente eram boas novas para eles, pois o coração de compaixão faz das boas novas de outros, boas novas para si mesmo.

Não amais os anjos? Não vos curvares diante deles, e isso está certo; mas não os amareis? Não faz parte de vossa antecipação do céu o fato de que no céu vivereis com os santos anjos, assim como com os crentes redimidos de todas as eras? Oh, quão doce pensar que estes seres santos e adoráveis nos guardam a cada hora!

Voltemos, tendo pensado nos anjos por um momento, para pensar neste cântico, mais do que nos próprios anjos. O cântico deles era breve, mas como alguém observou, era "digno dos anjos, expressando as maiores e mais benditas verdades em tão poucas palavras" — "Glória a Deus nas alturas, e paz na terra entre os homens de boa vontade." Analisaremos estas palavras dos anjos de quatro maneiras: 1. Pensamentos instrutivos. 2. Pensamentos emocionais. 3. Pensamentos proféticos. 4. Pensamentos práticos.

I. PENSAMENTOS INSTRUTIVOS

Os anjos cantaram algo que os homens podiam entender — algo que os homens deveriam entender — algo que tornará os homens muito melhores se o entenderem. Os anjos cantavam sobre Jesus que nasceu na manjedoura. Devemos considerar o seu cântico como edificado sobre este fundamento. Cantaram de Cristo e da salvação que Ele veio realizar neste mundo.

E o que disseram desta salvação foi isto: disseram, primeiro, que ela dava glória a Deus; segundo, que dava paz ao homem; e terceiro, que era um sinal da boa vontade de Deus para com a raça humana.

Primeiro, disseram que esta salvação dava glória a Deus. Tinham estado presentes em muitas ocasiões gloriosas antes, e tinham participado de muitos um solene coro em louvor ao seu Todo-Poderoso Criador. Estavam presentes na criação: "As estrelas da manhã cantaram juntas, e todos os filhos de Deus gritaram de alegria." Haviam visto muitos planetas formados nas palmas do SENHOR, e girados pelas Suas eternas mãos pelo infinito espaço.

Desta vez, porém, quando viram Deus inclinar-Se de Seu trono e tornar-Se um bebê, amamentado no seio de uma mulher, elevaram suas notas ainda mais; e chegando ao mais extremo alcance da música angélica, atingiram as notas mais altas da escala divina de louvor, e cantaram: "Glória a Deus nas alturas," pois sentiram que a bondade de Deus não poderia ir mais alto. Assim lhe deram o louvor mais elevado pelo ato mais elevado de Sua divindade.

Que lição devemos aprender com esta primeira parte do cântico dos anjos? É que a salvação é a glória mais elevada de Deus. Ele é glorificado em cada gota de orvalho que brilha ao sol da manhã. É magnificado em cada flor que desabrocha na floresta profunda. Deus é glorificado em cada pássaro que canta no galho; em cada cordeiro que salta no prado. Mas cantai, cantai, ó universo, até vos exaurirdes, e ainda assim não produzireis um cântico tão doce quanto o cântico da Encarnação. Há mais na Encarnação do que na criação, mais melodia em Jesus na manjedoura do que em mundos sobre mundos girando sua grandiosidade ao redor do trono do Altíssimo.

Olhai! que sabedoria está aqui! Deus torna-se homem para que Deus possa ser justo e o justificador do ímpio. Olhai! que poder, pois onde há poder tão grande quanto quando ele oculta o poder? O que é o amor revelado a nós quando Jesus torna-Se homem! Que fidelidade! Quantas promessas são cumpridas neste glorioso dia! Não há um único atributo de Deus que não seja manifesto em Jesus; e embora parte do nome de Deus esteja escrita em todo o universo, aqui se lê melhor — nAquele que era o Filho do Homem, e ainda assim o Filho de Deus.

Mas devemos aprender disto: se a salvação glorifica a Deus, glorifica-o no mais alto grau, e faz com que as mais elevadas criaturas O louvem, então esta reflexão deve ser acrescentada — qualquer doutrina que glorifica o homem na salvação não pode ser o evangelho. Pois a salvação glorifica a Deus. Os anjos não eram arminianos; cantaram: "Glória a Deus nas alturas." Não creem em nenhuma doutrina que destrone Cristo e coloque a coroa na cabeça dos mortais.

II. PENSAMENTOS EMOCIONAIS

Amigos, este versículo, este cântico dos anjos, não mexe com vossos corações de alegria? Quando li aquilo e vi os anjos cantando, pensei comigo mesmo: "Se os anjos introduziram com cânticos o grande Salvador do evangelho, não deveria eu pregar com cânticos? E não deveriam os meus ouvintes viver com cânticos? Não deveriam seus corações estar alegres e seus espíritos se regozijar?"

Bem, pensei que há algumas pessoas "religiosas" sombrias que nasceram numa noite escura de dezembro, que pensam que um sorriso no rosto é algo mau, e acreditam que para um cristão ser alegre e se regozijar é ser inconsistente. Desejaria que esses senhores tivessem visto os anjos quando cantavam sobre Cristo; pois se os anjos cantaram sobre o Seu nascimento, embora não fosse assunto deles, certamente os homens deveriam cantar sobre isso enquanto vivem, cantar quando morrem, e cantar quando vivem para sempre no céu.

Anseio ver em nossas igrejas um Cristianismo mais cantante. Os últimos anos têm gerado em nosso meio um Cristianismo gemedor e descrente. Não duvido de sua sinceridade, mas duvido de seu caráter saudável. Como foi bem dito: "A religião nunca foi projetada para diminuir nossos prazeres." Foi projetada para afastar alguns de nossos prazeres, mas dá-nos muitos mais em troca; de modo que não os diminui. Ó vós que vedes em Cristo nada mais que um assunto para estimular vossas dúvidas e fazer as lágrimas correrem pelo rosto! Vinde aqui e vede os anjos. Contam sua história com gemidos e soluços e suspiros? Não; gritam em voz alta: "Glória a Deus nas alturas."

Outra emoção é a de "confiança." Os anjos não teriam deixado qualquer lugar para a dúvida sobre a verdade do que diziam, porque era muito certo que os anjos acreditavam nisto; contaram-no como se acreditassem, pois o contaram com cântico, com alegria e regozijo. Se algum amigo, tendo ouvido que uma herança lhe foi deixada, viesse até vós com um rosto sério, como se acabasse de regressar de um funeral, dizendo: "Sabe que fulano lhe deixou uma grande fortuna?" Bem, diríeis: "Sim, pode ser," e riríeis em seu rosto. Mas se vosso irmão irrompe repentinamente em vosso quarto e exclama: "Tenho as notícias mais incríveis! Sois rico; fulano lhe deixou uma grande herança!" Então diríeis: "Acho muito provável que seja verdade, pois ele está tão feliz com isso."

III. PENSAMENTOS PROFÉTICOS

Os anjos cantaram: "Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens." Mas olho ao redor, e o que vejo no mundo imenso? Não vejo Deus honrado. Vejo os pagãos inclinando-se diante de seus ídolos; vejo a ambição cavalgando sobre a terra, Deus esquecido, Seu nome desonrado.

Mas dias mais brilhantes se aproximam. Cantaram: "Paz na terra." Mas ainda ouço o som claro da trombeta de guerra; e o horrível rugido do canhão. Ainda impera a guerra. Será que é tudo o que os anjos esperavam? Não, irmãos; o cântico dos anjos está carregado de profecia. Mais alguns anos, e ele que os viver verá por que os anjos cantaram; mais alguns anos, e Aquele que há de vir, virá, e não tardará. Cristo o Senhor virá novamente, e quando vier lançará os ídolos de seus tronos; reinará sobre toda a terra com autoridade ilimitada.

A hora se aproxima em que os templos dos falsos deuses serão encerrados para sempre e todas as religiões falsas totalmente destruídas. O dia vem quando o lobo e o cordeiro se alimentarão juntos, e o leão comerá palha como o boi. Vem, bravo como o trovão de poderosos, ou a plenitude do mar quando se rompe sobre a praia: "Cristo o Senhor Deus Onipotente reinará."

IV. PENSAMENTOS PRÁTICOS

Desejo que todos os que celebrem o Natal este ano o façam como os anjos o celebraram. Há muitas pessoas que, ao falar de celebrar o Natal, entendem com isso que jamais se esqueceriam de ir à igreja na véspera ou na manhã de Natal, mas a forma como celebram o resto do dia é muito notável; pois seria com glutonaria e embriaguez. Mas nós, sendo verdadeiros seguidores de Cristo, procuraremos dar um exemplo para os outros, mostrando-lhes como se comportar naquele dia; e especialmente como os anjos deram glória a Deus, façamos o mesmo.

Uma vez mais, os anjos disseram: "Paz aos homens," portanto, esforcemo-nos para fazer as pazes neste dia de Natal que se aproxima. Agora, vós pais que podeis ter filhos rebeldes — podeis não tê-los recebido em vossas casas porque eles vos ofenderam. Ide atrás deles neste Natal. "Paz na terra;" sabeis que esse é um cântico de Natal. Fazei as pazes em vossa família. Agora, irmão, fizestes um voto de que nunca mais falaríeis com o vosso irmão. Ide atrás dele e dizei: "Ó, meu caro amigo, não deixemos o sol se pôr sobre a nossa ira." Ide atrás dele e dai-lhe a mão de confraternização.

E oh, se tendes algo em vossa consciência, algo que vos impede de ter paz de espírito, então celebrai o Natal em vosso quarto, orando a Deus para que vos dê paz; paz na terra, paz em vós mesmos, paz com os vossos semelhantes e paz com o vosso Deus. E não penseis ter celebrado devidamente aquele dia até poderdes dizer: "Ó Deus, com o mundo, comigo mesmo e Contigo, não ouso dormir até que a paz seja feita completamente."

E quando o Senhor Jesus tiver se tornado a vossa paz, lembrai-vos de que há outra coisa: "boa vontade" para com os homens. Não tenteis celebrar o Natal sem manter a boa vontade para com os homens. Sois um homem de posição e podeis até ter serventes. Bem, tentai aquecer suas casas e corações com uma grande porção de comida festiva somente para eles, e se sois homens de riqueza, lembrai-vos de que tendes pessoas pobres em vossa vizinhança — vesti os nus e alimentai os famintos e alegriai os que choram. Lembrai-vos, é boa vontade para com os homens.

Jovens, vós que voltareis para casa junto ao pai e à mãe; outros de vós que regressarão de seus locais de trabalho para suas casas — lembrai-vos do que preguei na última época de Natal. Ide para casa junto de vossos amigos e contai-lhes o que o Senhor fez pela vossa alma, e isso fará uma roda abençoada de histórias ao redor do fogo de Natal. Oh, que Natal feliz isso fará! Que mais direi? Que Deus vos dê paz convosco mesmos; que Ele vos dê boa vontade para com todos os vossos amigos, inimigos e vizinhos; e que Ele vos dê graça para dar glória a Deus nas alturas.

Não direi mais, exceto ao encerrar este sermão, para desejar a cada um de vós o mais feliz Natal que jamais tivestes em vossas vidas. Amém.

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