Em outras ocasiões tenho explicado a parte principal deste versículo — "o governo estará sobre os seus ombros. E será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz." Mas esta manhã a parte sobre a qual concentraremos nossa atenção é esta: "Para nós um menino nasceu, para nós um Filho nos foi dado." Esta é uma sentença dupla, mas não tem redundância. O leitor cuidadoso logo descobrirá uma distinção; e não é uma distinção sem diferença. "Para nós um menino nasceu, para nós um Filho nos foi dado." Jesus Cristo era um menino em Sua natureza humana.
Ele nasceu, concebido pelo Espírito Santo, e nascido da Virgem Maria. Verdadeiramente nasceu e era certamente uma criança real, tão real quanto qualquer outra criança que já viveu sobre a face da terra. Assim, em Sua humanidade, nasceu como um menino. Mas como Filho de Deus, Jesus Cristo nunca nasceu, pois existiu eternamente; é simplesmente um dom do Pai, dado antes do princípio do mundo — dado, não feito, sendo da mesma essência do Pai.
A doutrina da união eterna de Cristo na Trindade deve ser recebida como uma verdade indubitável de nossa santa Cristandade. Ninguém deve sequer tentar explicá-la, pois permanece entre as coisas profundas de Deus — um daqueles solenes mistérios para os quais os anjos não ousam olhar, nem desejam investigar — um mistério que não devemos tentar sondar, pois está completamente além da compreensão de qualquer ser finito. Seria como um mosquito tentando beber o oceano, como uma criatura finita tentando compreender o Deus eterno. Um Deus que pudéssemos compreender plenamente não seria Deus.
Esta manhã, contudo, o principal objetivo do meu discurso é ressaltar a força dessas duas pequenas palavras: "para nós." As divisões do meu sermão são bem simples: I. "É verdade?" II. "Se é verdade, então o quê?" III. "Se não é verdade, então o quê?"
É verdade que "para nós" um menino nasceu, "para nós" um Filho nos foi dado? É um fato que um menino nasceu. Sobre isso não tenho argumento. Recebemos como um fato, mais plenamente estabelecido do que qualquer outro fato na história, que o Filho de Deus tornou-se homem, nasceu em Belém, foi envolvido em panos e posto numa manjedoura. Também é um fato que um Filho nos foi dado. Sobre isso não temos dúvida. O ateu pode disputar, mas nós, que professamos ser crentes na Escritura, recebemos como uma verdade inegável que Deus deu Seu Filho unigênito para ser o Salvador dos homens. Mas a questão é esta: este menino nasceu para nós? Ele nos foi dado?
Esta é a questão mais importante. Temos um interesse pessoal no menino que nasceu em Belém? Sabemos que Ele é o nosso Salvador? Que nos trouxe boas novas a nós? Que nos pertence? E que pertencemos a Ele? Declaro que esta é uma questão que requer investigação muito séria e intensa.
É um fato muito óbvio que os melhores dos cristãos são às vezes perturbados com questões relativas ao seu próprio relacionamento com Cristo, enquanto os que nunca são perturbados com isso são muitas vezes simplesmente presunçosos enganadores que nunca conheceram Cristo nem a Sua salvação. Frequentemente observei que algumas das pessoas das quais me sentia mais certo de sua salvação eram exatamente as pessoas que eram menos certas delas mesmas.
Isso me lembra a história de um homem piedoso chamado Simão Browne, um ministro dos tempos antigos na Cidade de Londres. Ficou extremamente triste em seu coração, tão deprimido em seu espírito, que por fim concebeu a ideia de que sua alma tinha sido destruída. Era inútil falar com o bom homem, não se conseguia persuadi-lo de que tinha uma alma; mas enquanto isso ele pregava, orava e trabalhava, mais como um homem que tinha duas almas do que nenhuma.
Assim acontece com muitos cristãos. Parecem ser o próprio retrato da piedade; sua vida é louvável e sua conversa celestial, mas estão sempre clamando: "Esta é uma questão que há muito quero saber, e que frequentemente causa pensamentos ansiosos. Amo o Senhor, ou não? Sou dEle ou não?" Portanto acontece que os melhores dos homens questionarão enquanto os piores presumirão.
Ajudando-vos agora a responder à questão, direi que se este menino que está diante dos olhos de vossa fé, envolvido em panos na manjedoura de Belém, nasceu "para vós," então "vós nascestes de novo!" Pois este menino não nasceu para vós a menos que vós tenhais nascido para este menino. Todos os que pertencem a Cristo são, no dia do favor de Deus, convertidos pela graça, despertados em seu espírito e feitos novas criaturas.
Se alguém me diz que Cristo é o seu Redentor, embora nunca tenha experimentado a regeneração, esse homem não sabe do que está falando; o seu Cristianismo é inútil e a sua esperança uma ilusão. Somente os que nasceram de novo podem reivindicar o bebê de Belém como sendo deles. "Mas," diz alguém, "como sei se nasci de novo ou não?" A resposta a esta questão é uma série de perguntas:
Houve uma mudança em vossa vida pela graça divina "em vós?" As coisas que amais na vida são o exato oposto do que eram? Odiamos agora as coisas vãs que outrora admirávamos, e buscamos aquela pérola preciosa que antes desprezávamos? O vosso coração está completamente mudado por dentro? Podeis dizer que o impulso de vosso desejo está mudado? O vosso rosto está voltado para o céu e os vossos pés colocados no caminho da graça? O vosso coração que outrora ansiava por fundas dosagens de pecado, agora anseia por ser santo?
Recordai-vos, meus ouvintes, o novo nascimento não consiste em lavar o exterior do cálice, mas em purificar o homem interior. É em vão lavar o exterior de um sepulcro, torná-lo branco e enfeitá-lo com flores frescas; o próprio sepulcro deve ser limpo. O homem deve ser feito vivo. O coração não deve ser mais um túmulo de morte, mas um templo de vida.
Afirmarei outra questão. Embora a questão principal da regeneração esteja dentro, ela se manifesta por fora. Pensas que os outros que te observam seriam compelidos a dizer: esta pessoa não é o que costumava ser? Os teus amigos percebem uma mudança em ti? Riram de ti pelo que pensam ser o teu fanatismo, a tua rigidez e firmeza?
Se fostes nascidos de novo, há ainda outra maneira de testar a vossa salvação. Não apenas o vosso eu interior está alterado, e o vosso eu exterior também, mas o próprio alicerce e princípio de vossa vida deve tornar-se totalmente novo. Quando estamos no pecado vivemos para agradar a nós mesmos; mas quando somos renovados por meio de Cristo vivemos para agradar a Deus. Mudai os princípios de um homem, e mudareis seus sentimentos, e mudareis suas ações. Ora, a graça muda os princípios de um homem. Ela lança o machado na raiz da árvore.
Se é verdade, por que estou hoje em dúvida? Por que está meu espírito questionando? Por que não percebo o fato? Meu amigo, se o Filho vos foi dado, como é que hoje estais perguntando se sois de Cristo ou não? Por que trabalhais para tornar firme o vosso chamado e eleição? Por que permanecer nas planícies da dúvida? Levantai-vos, levantai-vos às altas montanhas de confiança, e nunca descanseis até poderdes dizer sem medo de errar: "Sei que o meu Redentor vive. Estou convencido de que Ele é poderoso para guardar o que lhe confiei."
Suponhamos que visseis no jornal de amanhã — dia de Natal — um anúncio de que algum homem rico vos deixara uma imensa herança. Suponhamos que, ao lê-lo, soubésseis bem que a pessoa mencionada era um parente vosso e que provavelmente era verdade. Imagino que preferiríeis perder o jantar de Natal para ir verificar se o fato era realmente verdadeiro. Há um anúncio feito hoje, e é absolutamente verdadeiro, que Jesus Cristo veio ao mundo para salvar pecadores. A questão para vós é se Ele vos salvou, e se sois intitulados a participar de Sua oferta de salvação. Suplico que não vos permitais descansar até terdes lido a proclamação da salvação para ver se vos foi dado um título claro a um lar permanente no céu.
Novamente, se é verdade, deixai-me fazer outra pergunta. "Por que estão nossos corações tão frios?" E por que fazemos tão pouco por Aquele que tanto fez por nós? Jesus, és Tu meu? Estou salvo? Como é que Te amo tão pouco? Por que quando prego não sou mais apaixonado, e quando oro por que não sou mais fervoroso? Como é que damos tão pouco a Cristo que Se deu por nós? Como é que O servimos de modo tão medíocre quando Ele nos serve tão perfeitamente?
Ó amados irmãos, rendei-vos esta manhã. O que tendes neste mundo? "Oh," diz alguém, "não tenho nada; sou pobre e sem recursos." Dai-vos a Cristo. Já ouvistes a história dos alunos de um filósofo grego. Em certo dia era costume dar ao filósofo um presente. Um veio e lhe deu ouro. Outro não podia trazer ouro mas trouxe prata. Um trouxe uma veste, e outro alguma iguaria de comida. Mas um deles se aproximou e disse: "Oh, senhor, sou pobre, não tenho nada para lhe dar, mas ainda assim lhe darei algo melhor do que todos esses deram; dou-me a vós mesmo." Agora, se tendes ouro e prata, se tendes bastante da riqueza do mundo, então dai a Cristo na proporção do que recebestes; mas acima de tudo tomai cuidado para dardes a vós mesmos a Ele.
Bem, agora estou quase no fim, mas peço a vossa atenção solene enquanto faço meu último ponto. Se Cristo não é vosso, então o quê? Caro ouvinte, não posso dizer onde vós estais — mas onde quer que estejais neste edifício, os olhos do meu coração estão vos procurando, para que quando vos encontrem possam chorar sobre vós — miserável, sem esperança, sem Cristo, sem Deus. Para vós não há alegria natalina; para vós nenhum menino nasceu; para vós nenhum Filho foi dado.
O que direi a vós esta manhã? Ó Mestre, ajudai-me a dizer as palavras certas para esta ocasião. Imploro-vos, meus amigos, que se Cristo não é vosso esta manhã, que Deus o Espírito vos ajude a fazer o que agora vos ordeno.
Em primeiro lugar, confessai os vossos pecados; não ao meu ouvido, nem ao ouvido de qualquer homem vivo. Ide ao vosso quarto e confessai que sois uma pessoa vil. Dizei a Jesus que sois um pecador condenado sem Sua graça soberana. Mas não penseis que há algum mérito na confissão. Não há. Todas as vossas confissões não podem ganhar o perdão, embora Deus tenha prometido perdoar a pessoa que confessa o seu pecado e o abandona.
Em segundo lugar, renunciai a vós mesmos. Talvez tenhais estado repousando em alguma esperança de que poderíeis melhorar a vós mesmos e assim salvar-vos. Abandonai essa fantasia equivocada. Vistes o bicho-da-seda: fila, fia e fia, e então morre onde fiou uma mortalha para si mesmo. E todas as vossas boas obras são apenas uma fiação de um manto para a vossa alma morta.
Por fim, peço que Deus vos ajude a ouvir, meus caros amigos: quando tiverdes confessado o vosso pecado e abandonado toda esperança de salvação, ide em meditação ao Calvário. Ali Ele pende. É a cruz do meio das três. Vejo Seu rosto macilento e Seu rosto mais desfigurado do que o de qualquer outro homem. Vejo as gotas de sangue ainda de pé ao redor de Suas têmporas perfuradas — marcas daquela coroa de espinhos ásperos. Ouvi! A terra está estremecida! Ele grita em voz alta: "Eloi, Eloi, lamá sabactâni?" — que quer dizer: "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?" Por fim ouvi-O, pecador, pois aqui está a vossa esperança. Vejo-O inclinar Sua cabeça ferida que goteja com sangue. O Rei do céu morre.
Ouvi-O! Ele grita: "Está consumado!" E entrega o espírito. A expiação está terminada, o preço foi pago. "Está consumado!" Pecador, crede em Cristo. Lançai-vos a Seus pés. Tomai-O para ser o vosso tudo em tudo — submetei a vossa vontade à dEle. Ele é o vosso Rei! Que a graça do nosso Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam convosco todos, para sempre e sempre. Amém e Amém.