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SERMÃO 66

"Deus Encarnado, o Fim do Temor"

Lucas 2:10
"O anjo lhes disse: 'Não temais.'" — Lucas 2:10

Logo que o anjo do Senhor apareceu aos pastores, e a glória do Senhor os envolveu de luz, ficaram aterrorizados. Chegara ao ponto em que o homem temia ao seu Deus, e quando Deus enviou Seus amorosos mensageiros com novas de grande alegria, os homens foram tomados de tanto pavor como se o anjo da morte tivesse aparecido com uma espada levantada. O silêncio da noite e a sua sombria obscuridade não causavam qualquer temor nos corações dos pastores, mas o alegre arauto dos céus, vestido com as glórias da graça, os aterrorizou. Não devemos condenar os pastores por isso, como se fossem tímidos ou incultos, pois eles apenas agiam como qualquer outra pessoa daquela época teria feito nas mesmas circunstâncias.

Não foi por serem simples pastores que foram dominados pelo temor; é provável que se fossem profetas bem instruídos teriam demonstrado o mesmo sentimento; pois há muitos casos registrados nas Escrituras nos quais os principais homens de seu tempo tremeram e sentiram o horror de grande trevas quando manifestações especiais de Deus lhes foram dadas. Na verdade, um temor servil de Deus era tão comum que uma tradição havia crescido a partir disso, recebida quase universalmente como verdade absoluta. Era geralmente acreditado que toda manifestação sobrenatural devia ser vista como sinal de morte iminente. "Estamos condenados a morrer! Vimos a Deus!" não era apenas a conclusão de Manoá, mas a de quase todos os homens de seu período.

De fato, havia apenas alguns poucos que tinham mentes serenas como a esposa de Manoá, que podiam raciocinar de forma mais encorajadora, dizendo: "Se o SENHOR quisesse matar-nos, não teria aceitado de nossas mãos o holocausto e a oferta de manjares, nem nos teria mostrado todas estas coisas, nem nos teria anunciado isso." Tornou-se "a convicção estabelecida" de todos os homens, fossem sábios ou incultos, bons ou maus, que uma manifestação de Deus não devia tanto ser motivo de alegria quanto de temor; como disse Jacó: "Que tremendo é este lugar! Este é o lugar da casa de Deus; esta é a porta dos céus." Sem dúvida, o espírito que originou essa tradição foi alimentado pela "dispensação legal," que é mais adequada para servos amedrontados do que para filhos jubilosos.

A solene noite em que sua maior instituição foi ordenada foi uma noite de tremor: a morte estava presente no sacrifício do cordeiro; o sangue era então aspergido sobre uma parte conspícua da casa; o fogo estava ali para assar o cordeiro — todos os emblemas do juízo estavam ali para aterrorizar a mente. Era na temida hora da meia-noite quando a solene assembleia familiar se reunia; a porta estava fechada; os próprios convidados de pé numa atitude inquieta, aterrorizados, pois seus corações e mentes podiam ouvir as asas do anjo destruidor ao passar pela casa. Mais tarde, quando Israel entrou no deserto e a lei foi proclamada, lemos que o povo ficou à distância e que limites foram estabelecidos ao redor do monte, e que se um animal tocasse o monte, deveria ser apedrejado ou morto com espada. Foi um dia de temor e tremor quando Deus lhes falou do meio do fogo. A voz da lei dizia: "Não te aproximes!" O espírito do Sinai é o temor e o tremor.

As cerimônias legais foram criadas para inspirar temor, não para gerar confiança. O adorador no templo via derramamento de sangue do início ao fim do ano; a manhã era inaugurada com o sangue do cordeiro, e a tarde não podia passar sem que sangue fosse novamente derramado sobre o altar. Deus estava no meio do acampamento, mas a coluna de nuvem e fogo era o Seu retiro inacessível. O emblema da Sua glória estava oculto atrás do véu de azul, escarlate e linho fino, atrás do qual apenas uma pessoa tinha permissão de passar, e somente uma vez por ano. Os homens falavam do Deus de Israel com voz contida e tom solene e grave. Não haviam aprendido a dizer "Nosso Pai celestial." Ainda não receberam o espírito de adoção, e não eram capazes de dizer "Aba;" sofriam sob o espírito de escravidão, que os aterrorizava quando a glória da presença do Senhor era exibida entre eles.

Na raiz de todo esse temor servil estava "o pecado." Nunca encontramos Adão temendo a Deus, nem qualquer manifestação da Divindade, enquanto estava no Paraíso como criatura obediente; mas assim que tocou o fruto proibido, descobriu que estava nu e se escondeu quando ouviu a voz do Senhor Deus que andava no jardim na brisa da tarde. Adão teve medo e se escondeu da presença do Senhor Deus entre as árvores do jardim. O pecado faz de todos nós miseráveis covardes. Vede o homem que outrora podia ter deliciosa conversação com seu Criador, agora temendo ouvir a Sua voz e se escondendo furtivamente no jardim como um criminoso que conhece a sua culpa e teme encontrar os oficiais da justiça.

Amados, a fim de remover esse horrível pesadelo do temor servil do coração da humanidade, onde sua influência horrível reprime todas as mais nobres aspirações da alma, nosso Senhor Jesus Cristo veio em carne. Esta é uma das obras do diabo que Jesus veio destruir. Os anjos vieram proclamar as boas novas da vinda do Deus encarnado, e a própria primeira nota de seu cântico foi um antegozo do doce resultado de Sua vinda para todos aqueles que O receberem. O anjo disse: "Não temais!" — como se os tempos do medo houvessem passado e os dias da esperança e da alegria tivessem chegado. "Não temais!" Estas palavras não foram destinadas somente àqueles pastores trementes, mas foram endereçadas a vós e a mim, sim, a todas as nações às quais as boas novas chegariam. "Não temais!" Que Deus não seja mais o objeto do vosso temor servil! Não fiqueis mais à distância d'Ele. O Verbo se fez carne. Deus desceu para viver entre os homens, para que não haja mais parede de fogo que restrinja, nem abismo entre Deus e o homem.

"É meu mais doce consolo, Senhor, e sempre será,
meditar na graciosa verdade de Tua humanidade.
Oh, alegria! Habita em nossa carne, sobre um trono de luz,
Aquele nascido de mãe humana, em perfeita divindade!"

I. O TEMOR

Há uma espécie de temor a Deus do qual não devemos querer nos libertar. Há aquele temor legítimo, necessário, admirável, excelente, que é sempre devido da criatura ao Criador, do súdito ao rei, e mesmo do filho para com o pai. Esse temor santo e respeitoso de Deus, que nos faz detestar o pecado e nos impele a ser obedientes ao Seu mandamento, deve ser cultivado: "Tivemos pais segundo a carne que nos disciplinavam, e os respeitávamos. Quanto mais devemos sujeitar-nos ao Pai dos espíritos e viver!" Este é o "temor do SENHOR [que] é o princípio da sabedoria." Ter um santo temor do nosso Deus santíssimo, justo, reto e terno é um privilégio, não uma escravidão. O temor piedoso não é o "temor [que] encerra em si tormento;" o amor perfeito não lança fora o temor, mas habita com ele em alegre harmonia. Os anjos amam perfeitamente a Deus, e ainda assim com santo temor velam seus rostos com as asas ao se aproximarem d'Ele.

O temor que deve ser evitado é o "temor servil;" o temor que o amor perfeito expulsa, como Sara expulsou a escrava e o seu filho. Esse tremor que nos mantém à distância de Deus, que nos faz pensá-Lo como um Espírito com quem não podemos ter comunhão; como uma pessoa que não Se importa conosco a não ser para nos punir, e pela qual, consequentemente, não temos cuidado a não ser para escapar, se possível, de Sua terrível presença. Esse temor às vezes surge nos corações dos homens por causa de seus "pensamentos que se concentram exclusivamente na grandeza divina." É possível contemplar o vasto abismo do Infinito e não ter medo? Pode a mente se abandonar ao pensamento do Eterno, Autoexistente, Infinito, sem ser primeiramente preenchida de temor reverente e depois de pavor? O que sou eu? Um inseto rastejando numa rosa é uma criatura mais considerável em relação ao mundo dos homens do que eu posso ser em comparação com Deus.

Mas há mais que nos humilha. Temos tido a audácia de sermos desobedientes à vontade deste grande Ser; e agora a bondade e a grandeza de Sua natureza são como uma correnteza impetuosa contra a qual a humanidade pecaminosa luta em vão, pois a torrente irresistível deve seguir seu curso e submergir todo adversário. O que parece o grande Deus àqueles que estão sem Cristo, senão uma enorme rocha ameaçando esmagá-los, ou um mar sem fundo pronto para engoli-los? A contemplação da grandeza divina pode por si mesma encher o homem de horror e lançá-lo em inexprimível miséria!

Cada um dos atributos severos de Deus causará temor. Pensai no Seu poder, pelo qual Ele faz rolar as estrelas, e ponde a mão sobre a boca. Pensai na Sua sabedoria, pela qual Ele numera as nuvens e estabelece as leis físicas do universo. Meditai em qualquer um desses atributos, mas especialmente em Sua justiça e no fogo devorador que arde continuamente contra o pecado, e não é de admirar que a alma se encha de temor. E se ao mesmo tempo "o sentido do pecado," com seu grande chicote de arame, flagelar a consciência, o homem temerá ainda mais o pensamento de Deus.

Onde quer que haja um temor servil da Pessoa Divina, ele aliena completamente o homem do seu Deus. Somos por nossa natureza maligna inimigos de Deus, e a suposição de que Deus é cruel, severo e aterrorizante acrescenta combustível ao fogo do nosso ódio. Não podemos amar aqueles a quem tememos. Não poderíeis fazer vosso filho demonstrar amor se seu pequeno coração estivesse cheio de medo; se ele temesse ouvir vossos passos e ficasse alarmado ao ouvir vossa voz, não poderia amar-vos. É uma das obras-primas de Satanás enganar o homem apresentando à sua mente uma imagem odiosa de Deus. Ele sabe que o homem não pode amar aquilo que o aterroriza, e por isso pinta o Deus da graça como um Ser duro e implacável que não receberá o pecador arrependido nem terá piedade do aflito.

Além de alienar o coração de Deus, esse temor "cria um preconceito contra o evangelho da graça de Deus." Há pessoas nesta congregação que acreditam que se se tornassem cristãs seriam miseráveis. É a convicção estabelecida de alguns que confiar em Jesus e ser obediente a Deus, o que é a essência do verdadeiro cristianismo, seria uma miséria. Que opinião distorcida o homem deve ter de Deus quando acredita que amá-Lo é ser desgraçado! Esse temor em alguns homens "os leva a crer que jamais poderão ser salvos." Eles pensam que Deus é egoísta, mantêm-se à distância d'Ele, e se ouvem às vezes, num sermão, que Deus é Amor e salvará todo aquele que vem a Ele, o desejo de O buscar nunca amadurece na resolução prática de fazer algo. Não dizem: "Levantar-me-ei e irei ao meu Pai," porque não O conhecem como Pai, mas apenas como fogo consumidor.

Esse temor depravado de Deus frequentemente impele homens e mulheres às extremidades do pecado. O homem diz: "Não há esperança para mim; cometi um erro fatal ao tornar-me inimigo de Deus, e estou arruinado permanentemente. Não há esperança de que algum dia serei restaurado à felicidade ou à paz. Então, o que farei? Vou soltar todas as minhas paixões, vou desafiar o destino e arriscar. Se não posso ser reconciliado com o céu, tornar-me-ei servo do inferno." Desta forma, homens e mulheres têm sido vistos correndo de um crime a outro, em rebelde desafio a Deus, como se nunca pudessem estar satisfeitos até acumular mais e mais pecados contra a majestade de Deus, a quem no fundo temiam com um terror satânico misturado de ódio. Se pudessem apenas compreender que Ele ainda está disposto a receber o pecador rebelde, que Seu coração anseia por salvar pecadores; se pudessem apenas crer que Ele é amor e não quer que nenhum pecador se perca para sempre, mas deseja antes que o pecador se arrependa e se submeta a Ele e viva eternamente no céu — com certeza o curso de suas vidas seria mudado.

Amados, esse mal opera de incontáveis maneiras. Desonra a Deus. É notório, é mau fazer parecer que nosso Deus, que é luz e em quem não há treva alguma, é objeto de horror. É infernal; é diabólico ao mais alto grau pintá-Lo como um demônio, a Ele que é o Santo Deus, o Deus do Amor. Que desrespeito por parte do príncipe das trevas, e que loucura do homem em consentir na sugestão de que Deus seja retratado como relutante em perdoar, cruel e duro, quando na verdade Ele é amor — suprema e acima de tudo, amor! E o mal que assim se faz a Deus recai sobre o homem, pois esse "temor traz tormento." Nada é mais atormentador no mundo do que pensar em Deus como nosso inimigo implacável.

II. O REMÉDIO PARA ESSE TEMOR

O remédio está nisto: "Nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor." Eis o remédio — Deus conosco — Deus feito carne. Procuremos demonstrar isso a partir do cântico do anjo.

Segundo o texto, eles não deviam temer, em primeiro lugar, porque "o anjo vinha trazer-lhes boas novas." O que diz? "Anuncio-vos grande alegria." E qual era esse evangelho? Mais adiante nos é dito que o evangelho era o fato de que Cristo havia nascido. Portanto, é boa nova para os homens que Cristo nasceu, que Deus desceu e tomou a humanidade em união consigo mesmo. É realmente boa nova. Aquele que fez os céus dorme numa manjedoura. O que significa isso? Significa que Deus não é necessariamente inimigo do homem, pois aqui está Deus tomando a humanidade em união com a Divindade. Não pode haver ódio permanente, arraigado e inamovível entre as duas naturezas, ou então a natureza divina não poderia ter tomado a natureza humana em união hipostática consigo mesma. Não há consolo nisso? Sois uma pessoa desamparada, miserável e fraca, e o que vos faz temer o Senhor é o medo de que haja ódio entre Deus e o homem; mas não precisa haver tal inimizade, pois vosso Criador tomou de fato a humanidade em união consigo mesmo.

Observai ainda: o anjo lhes disse algo da Sua posição, além do Seu nascimento. "Nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, o `Salvador'." O próprio propósito pelo qual Ele nasceu e veio a este mundo foi para nos libertar do pecado. O que foi então que nos fez temer? Não temíamos a Deus porque sentíamos que estávamos perdidos pelo pecado? Ora, aqui há alegria sobre alegria. Não apenas o Senhor veio a nós como homem, mas foi feito homem a fim de salvar o homem daquilo que o separava de Deus. O anjo não se esqueceu de descrever "a pessoa" deste Salvador — "Ele é Cristo, o Senhor." Ali está Sua humanidade. Como homem, foi ungido. "O Senhor." Ali está Sua divindade. Sim, esta é a verdade sólida sobre a qual plantamos nosso pé. Jesus de Nazaré é Deus; Ele que foi concebido no ventre da virgem e nascido na manjedoura de Belém é agora, e sempre foi, Deus sobre todos, eternamente bendito.

Não há evangelho se Ele não for Deus. Não é boa nova para mim dizer-me que nasceu um grande profeta. Tem havido grandes profetas antes; mas o mundo nunca foi redimido do mal pelo mero testemunho da verdade, e nunca o será. Dizei-me que Deus nasceu, que o próprio Deus tomou a nossa natureza e a uniu a Si mesmo, e então os sinos do meu coração tocam de alegria, pois agora posso ir a Deus, visto que Deus veio a mim.

A essência do que o anjo disse estava nisto: "Nasceu-vos." Nunca tereis verdadeiro consolo no Salvador encarnado até perceber vosso interesse pessoal n'Ele. Cristo como homem foi um homem representativo. Havia apenas dois homens verdadeiramente representativos: o primeiro é Adão — Adão foi desobediente e toda a raça caiu. "Em Adão todos morrem." Ora, o homem Jesus é o segundo grande homem representativo. Ele não representa toda a raça humana; representa tantos quantos o Pai Lhe deu; representa uma companhia escolhida. Ora, tudo o que Cristo fez — se vós pertenceis àqueles que estão n'Ele — Ele fez por vós. Portanto, Cristo crucificado, Cristo morto ou Cristo vivo, Cristo sepultado ou Cristo ressurreto, vós sois participantes de tudo o que Ele fez e de tudo o que Ele é, pois sois considerados um com Ele.

Vede então a alegria e o consolo da encarnação de Cristo. Jesus Cristo, como homem, subiu a humanidade para os céus? Ele me levou para lá. Nosso pai terreno Adão caiu, e eu caí também, pois estava n'ele. O Senhor Jesus Cristo ressurge, e eu ressurjo se estou n'Ele. Vede, amados: quando Jesus Cristo foi pregado na cruz, todos os Seus filhos eleitos foram pregados ali também, e sofreram e morreram n'Ele. Quando foi colocado no sepulcro, todo o Seu povo ali dormitava n'Ele; e quando ressurgiu, eles ressurgiram e receberam o antegozo de sua própria futura ressurreição; porque Ele vive, eles também viverão; e agora que subiu aos céus para reivindicar o trono, reivindicou-o para toda alma que está n'Ele. Oh, isto é alegria de verdade! Então, como posso temer a Deus? Pois hoje, pela fé, eu, um pobre pecador indigno, tendo posto minha confiança em Jesus, posso dizer ousadamente que me sento no próprio trono de Deus. Pois em Cristo cada crente é ressurreto juntamente e feito assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus.

Tenho-me concentrado muitas vezes na espiritualidade do culto cristão e tenho mostrado que os atos e feitos externos no cristianismo, por si mesmos, nada realizam; é o espírito interior que realmente importa. Devo confessar que às vezes me perguntei: "Para que serve o Batismo? Para que serve a Ceia do Senhor?" Essas duas ordenanças externas, quaisquer que sejam seus plenos propósitos, têm sido as duas coisas em torno das quais mais erros se acumularam do que em torno de qualquer outra coisa. Mas ao lutar com essa questão, sempre me consola o texto: "São três os que testificam: o Espírito, a água e o sangue; e estes três concordam." E de que testemunham? Testemunham da missão de Jesus como o Cristo, em outras palavras, da real encarnação de Deus. Testemunham da natureza material de Cristo.

Notastes que quando as pessoas abandonam as duas ordenanças externas, geralmente revelam tendência a abandonar também o fato literal de que "Deus se fez carne"! O fato literal de que Cristo era realmente homem geralmente é posto em dúvida ou em segundo plano quando as duas ordenanças externas são abandonadas, e creio que essas duas ordenanças simbólicas, que são um elo entre o espiritual e o material, foram estabelecidas propositalmente para mostrar que Cristo Jesus, embora gloriosamente espírito, foi também homem revestido de corpo de carne e sangue real como o nosso. Quando penso no Espírito Santo que testifica que Cristo era realmente homem, agradeço-Lhe por esse testemunho; então me volto para a água, e quando leio que Cristo foi publicamente batizado no Jordão, percebo que não podia ter sido um fantasma, pois foi imergido em água, devia ser um homem sólido e substancial. A preservação da ordenança do batismo é um testemunho da realidade do Deus encarnado. Então vem o sangue — Ele não poderia ter derramado sangue no Calvário se fosse apenas uma visão. Não poderia ter havido sangue jorrando de Seu lado quando a lança O feriu se fosse apenas uma aparição espectral; devia ser carne e sangue sólidos como os nossos; e sempre que vimos à Sua mesa e tomamos o cálice e ouvimos dizer: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue," há um terceiro testemunho na terra ao fato de que Jesus apareceu em carne e sangue reais entre os homens.

Portanto, o Espírito, a água e o sangue são os três testemunhos permanentes na igreja de Deus de que Cristo era Deus, e que era também real, sólida e substancialmente homem. Deleitarei ainda mais nas ordenanças por causa disso. Essas duas ordenanças servem para nos lembrar que Cristo era realmente de carne e sangue, e que o cristianismo tem algo a ver com essa nossa carne e sangue. Este mesmo corpo há de ressurgir do túmulo; Jesus veio para libertar esta fraca carne da corrupção; e assim, embora devamos sempre manter o espiritual em primeiro lugar, somos impedidos de descartar o corpo material como se ele fosse do diabo. Cristo purificou tanto o domínio da matéria quanto o domínio do espírito; e em ambos reina triunfante.

III. APLICANDO O REMÉDIO A VÁRIOS CASOS

Filho de Deus, dizeis: "Não ouso ir a Deus hoje, sinto-me tão fraco." Não temais, pois Ele que nasceu em Belém disse: "A cana quebrada não quebrantará, e o pavio que fumega não apagará." "Jamais chegarei ao céu," diz outro; "jamais verei a aceitação no rosto de Deus; estou tão tentado." "Não temais, pois não tendes um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das vossas fraquezas; pelo contrário, tendes um que, como vós, passou por todas as tentações, porém sem pecado." "Mas estou tão solitário no mundo," diz outro, "ninguém se importa comigo." Mesmo assim, há um Homem que se importa; um homem verdadeiro como vós mesmos. Além disso, Ele é vosso semelhante e não esquece o espírito solitário.

Mas ouço um pecador dizer: "Tenho medo de ir a Deus esta manhã e confessar que sou um pecador." Bem, não vades a Deus sozinho, mas ide ao membro da Trindade que é verdadeiramente Deus e que também é homem — o Deus-homem Cristo Jesus. Certamente não podeis ter medo d'Ele. Se apenas conhecêsseis Jesus, irieis a Ele imediatamente; não teríeis medo de Lhe contar vossos pecados, pois saberíeis que Ele diria: "Vai e não peques mais." "Não consigo orar," diz um; "tenho medo de orar." Que, com medo de orar, quando é um homem que vos ouve! Podereis temer o rosto de Deus, mas quando é Deus em carne humana, por que deveríeis alarmar-vos? Ide, pecador fraco, ide a Jesus.

"Sinto-me," diz alguém, "indigno de vir." Podeis ser indigno de vir a Deus, mas não podeis ser indigno de vir a Jesus. Há uma dignidade necessária para estar na presença do Santo Deus, mas não há dignidade necessária para chegar ao Senhor Jesus. Vinde como estais, culpados, perdidos e arruinados. Vinde assim como estais, e Ele vos receberá. "Oh," diz outro, "não consigo confiar." Posso compreender não ser capaz de confiar no grande Deus invisível, mas não podeis confiar naquele Filho do Homem moribundo e sangrento, que é também o Filho de Deus? "Mas não consigo ter esperança," diz outro, "de que Ele ao menos olharia para mim;" e ainda assim Ele costumava olhar para pessoas como vós. Ele recebia pecadores e comia com eles, e nem mesmo as prostitutas eram expulsas de Sua presença.

Oh, não temais, pois Deus tomou o homem em união consigo mesmo! Se falo com alguém que, por causa do pecado, vagou tão longe de Deus que tem até medo de pensar no nome de Deus, ainda assim, visto que Jesus Cristo é chamado "o Amigo dos pecadores," oro para que penseis n'Ele, pobre alma, como vosso amigo. E oh! Que o Espírito de Deus abra os vossos olhos cegos para ver que não há razão para continuardes afastados de Deus, exceto vossos próprios pensamentos equivocados sobre Ele! Que possais crer que Ele é capaz e está disposto a salvar a todos! Que possais compreender o Seu bom e gracioso caráter, a Sua prontidão para perdoar ofensas, iniquidade e pecado! E que as doces influências da graça vos constranjam a vir a Ele esta manhã! Que Deus conceda que Jesus Cristo venha habitar em vós, a esperança da glória; e então cantareis: "Glória a Deus nas alturas, e paz na terra, boa vontade para com os homens." Amém.

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