Esta é a estação do ano em que, queiramos ou não, somos compelidos a pensar no nascimento de Cristo. Considero uma das maiores absurdidades debaixo do céu pensar que há religião em guardar o dia de Natal. Não há qualquer probabilidade de que nosso Salvador Jesus Cristo tenha nascido naquele dia, e a sua observância é de origem puramente papista; sem dúvida os que são católicos têm o direito de santificá-lo, mas não vejo como protestantes consistentes possam considerá-lo de qualquer forma sagrado. Contudo, gostaria que houvesse dez ou doze dias de Natal por ano, pois há trabalho suficiente no mundo, e um pouco mais de descanso não prejudicaria o povo trabalhador. O Natal é realmente um benefício para nós, pois nos permite reunir em torno da lareira em família e reencontrar nossos amigos.
Ainda assim, embora não sigamos exatamente o caminho de outras pessoas, não vejo mal em pensar na encarnação e no nascimento do Senhor Jesus. Não queremos ser classificados com aqueles que com mais cuidado guardam o dia errado do que outros guardam o dia certo. Os antigos puritanos faziam questão de trabalhar no dia de Natal, apenas para mostrar que protestavam contra a sua observância. Mas cremos que eles entraram com esse protesto de forma tão completa que nós, como seus descendentes, estamos dispostos a tomar o bem acidentalmente conferido pelo dia e deixar as suas superstições para os supersticiosos.
Para prosseguir de imediato ao que temos a dizer: notemos, primeiro, quem enviou Cristo. Em segundo lugar, onde ele veio ao tempo de sua encarnação. Em terceiro lugar, para que veio: "para ser o soberano em Israel." E, em quarto lugar, ele havia vindo antes? Sim, havia. "Cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade."
A resposta nos é dada pelas palavras do texto. "De ti me sairá," diz Jeová, falando pela boca de Miquéias; "de ti me sairá o que há de reinar em Israel." É um pensamento doce que Jesus Cristo não veio sem a permissão, a autoridade, o consentimento e a assistência de Seu Pai. Ele foi enviado pelo Pai para ser o Salvador dos homens. Somos, infelizmente! demasiado propensos a esquecer que, embora haja distinções quanto às pessoas na Trindade, não há distinções de honra; e com muita frequência atribuímos a honra de nossa salvação, ou pelo menos as profundezas de sua misericórdia e a extremidade de sua benevolência, mais a Jesus Cristo do que ao Pai. Isto é um grande erro.
E se Jesus veio? Não foi seu Pai quem O enviou? Se foi feito criança, não foi o Espírito Santo quem O gerou? Se falou maravilhosamente, não foi seu Pai quem derramou graça em seus lábios, para que fosse ministro capaz da nova aliança? Se seu Pai O abandonou quando bebeu o amargo cálice, não O amou ainda assim? E não foi Ele, após três dias, que O ressuscitou dos mortos e por fim O recebeu nas alturas, levando cativo o cativeiro? Amados, aquele que conhece o Pai, o Filho e o Espírito Santo como deve conhecê-los, nunca coloca um acima do outro; não é mais grato a um do que ao outro; vê-os em Belém, no Getsêmani e no Calvário, todos igualmente empenhados na obra da salvação.
"Ele me sairá." Cristão, puseste tua confiança no homem Cristo Jesus? Depositastes vossa fé somente n'Ele? E estais unidos a Ele? Então crede que estais unidos ao Deus do céu; pois ao homem Cristo Jesus estais ligados como irmão e com Ele tendes a mais íntima comunhão, e por isso estais ligados ao Deus Eterno, e o "Ancião de Dias" é vosso Pai e vosso amigo. "Ele me sairá." Nunca vistes a profundidade do amor que havia no coração de Jeová, quando Deus o Pai equipou Seu Filho para a grande empresa da misericórdia?
Houvera um dia triste nos céus antes, quando Satanás caiu e arrastou consigo um terço das estrelas do céu, e quando o Filho de Deus, lançando de Sua grande mão direita os trovões Onipotentes, precipitou a tripulação rebelde no abismo da perdição; mas se pudéssemos conceber um luto no céu, aquele teria sido um dia ainda mais triste, quando o Filho do Altíssimo deixou o seio do Pai, onde repousara desde antes de todos os mundos. "Vai," diz o Pai, "e que a bênção de teu Pai descanse sobre tua cabeça!" Então começa o desvestir. Com que ternura os anjos se aglomeram para ver o Filho de Deus tirar Suas vestes! Ele deixou de lado Sua coroa; disse: "Meu Pai, sou Senhor sobre tudo, bendito para sempre, mas deixarei minha coroa de lado e serei como os homens mortais." Despe-se de Seu glorioso manto; "Pai," diz Ele, "vestirei um manto de argila, assim como os homens vestem." Então tira todas as joias com que era glorificado; abandona Seus mantos estrelados e vestes de luz para se vestir com as simples roupas do camponês da Galileia.
Que solene despojamento deve ter sido aquele! E depois, podeis imaginar a despedida? Os anjos acompanham o Salvador pelas ruas dos céus até se aproximarem das portas, quando um anjo clama: "Levantai os vossos portais, ó vós portas, e levantai-vos, ó portas eternas, e deixai passar o Rei da Glória!" Penso que os anjos devem ter chorado quando perderam a companhia de Jesus — quando o Sol do Céu os privou de toda a sua luz. Mas foram após Ele. Desceram com Ele; e quando Seu espírito entrou na carne e Ele se tornou uma criança, foi acompanhado por aquela poderosa hoste de anjos, que, depois de tê-Lo acompanhado até a manjedoura de Belém e visto depositado no colo de Sua mãe, em sua jornada de regresso apareceram aos pastores e lhes disseram que Ele havia nascido rei dos judeus. O Pai O enviou! Contemplai esse tema. Que vossa alma o apreenda, e em todo período de Sua vida pensai que Ele sofreu o que o Pai quis; que cada passo de Sua vida foi marcado com a aprovação do grande EU SOU.
Algumas palavras sobre Belém. Parecia justo e certo que nosso Salvador nascesse em Belém, e isso pela história de Belém, pelo nome de Belém e pela posição de Belém — pequena em Judá.
Belém era querida a todo israelita. Jerusalém poderia ofuscá-la em esplendor; pois ali estava o templo, a glória de toda a terra, e "bela por situação, alegria de toda a terra era o monte Sião;" contudo, em torno de Belém se agrupava uma série de incidentes que sempre a faziam um lugar agradável para todo espírito judeu; e mesmo o cristão não pode deixar de amar Belém. A primeira menção que creio termos de Belém é triste. Ali morreu Raquel. Se vos voltardes ao capítulo 35 do Gênesis, encontrareis no versículo 16: "E partiram de Betel; e havia ainda um trecho de terra para chegar a Efrata, quando Raquel entrou em trabalho de parto e teve um parto difícil... E quando ela estava em grande dor no parto, a parteira disse-lhe: Não temas; também este será um filho. E aconteceu que, saindo-lhe a alma (pois morreu), chamou-lhe Benoni; mas seu pai chamou-lhe Benjamim. Assim Raquel morreu, e foi sepultada no caminho de Efrata, que é Belém."
Um incidente singular esse — quase profético. Maria não poderia ter chamado a seu próprio filho Jesus, o seu Benoni, pois Ele ia ser o filho da Dor? Simeão disse a ela: "E uma espada traspassará a tua própria alma, para que os pensamentos de muitos corações sejam revelados." Mas, enquanto ela poderia tê-Lo chamado Benoni, como o chamou Deus seu Pai? Benjamim, o filho da minha mão direita. Era Benoni como homem; Benjamim quanto à Sua divindade. Este pequeno incidente parece ser quase uma profecia de que Benoni-Benjamim, o Senhor Jesus, deveria nascer em Belém.
Mas outra mulher tornou esse lugar célebre. O nome dessa mulher era Noemi. Em Belém viveu, em dias posteriores, outra mulher chamada Noemi. Ela também era filha da alegria, mas também filha da amargura. Noemi era uma mulher a quem o Senhor amara e abençoara, mas teve que ir para uma terra estranha; e disse: "Não me chameis Noemi (prazerosa), mas chamei-me Mara (amarga), pois o Todo-Poderoso tratou-me muito amargamente." Contudo não estava sozinha em meio a todas as suas perdas, pois se apegou a ela Rute, a moabita, cujo sangue gentio se uniria ao puro fio do judeu, e assim daria origem ao Senhor nosso Salvador, o grande rei tanto dos judeus quanto dos gentios. Aquele belíssimo livro de Rute tem toda a sua cena em Belém. Foi em Belém que Rute saiu para respigar nos campos de Boaz; foi ali que Boaz a viu, e ela se inclinou perante seu senhor; foi ali que seu casamento foi celebrado; e nas ruas de Belém Boaz e Rute receberam uma bênção que os fez frutificar, de modo que Boaz tornou-se pai de Obede, e Obede pai de Jessé, e Jessé pai de Davi.
Esse último fato dora Belém de glória — o fato de que Davi ali nasceu —, o poderoso herói que feriu o gigante filisteu, que conduziu os descontentes de sua terra para longe da tirania de seu monarca, e que depois, com o pleno consentimento de um povo voluntário, foi coroado rei de Israel e Judá. Belém era uma cidade real, porque ali eram gerados os reis. Por pequena que fosse, era muito estimada; pois era como certos principados que temos na Europa, celebrados por nada mais do que por trazer ao mundo os consortes das famílias reais da Inglaterra. Era justo, portanto, pela história, que Belém fosse o lugar de nascimento de Cristo.
"Belém Efrata." A palavra Belém tem duplo significado. Significa "casa do pão" e "casa da guerra." Não devia Jesus Cristo nascer na "casa do pão?" Ele é o Pão do Seu povo, do qual ele se alimenta. Como nossos pais comeram o maná no deserto, assim nos alimentamos de Jesus aqui abaixo. Famintos pelo mundo, não podemos nos alimentar das suas sombras. As suas cascas podem satisfazer o gosto suíno dos mundanos, pois eles são suínos; mas nós precisamos de algo mais substancial, e naquele bendito pão do céu, feito do corpo quebrantado do nosso Senhor Jesus e cozido no forno das suas agonias, encontramos um alimento abençoado. Não há alimento como Jesus para a alma abatida ou para o santo mais forte. Até o mais humilde da família de Deus vai a Belém buscar seu pão; e o homem mais forte, que come alimento sólido, também vai a Belém buscá-lo. Casa do Pão! De onde poderia vir nossa nutrição senão de ti?
E também é chamada "casa da guerra;" porque Cristo é para o homem "casa do pão," ou então "casa da guerra." Enquanto Ele é alimento para o justo, causa guerra ao ímpio, conforme Sua própria palavra: "Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Porque vim causar divisão entre o homem e seu pai, e entre a filha e sua mãe, e entre a nora e a sogra. Os inimigos do homem serão os da sua própria casa." Pecador! Se não conheces Belém como "casa do pão," ela será para ti uma "casa de guerra." Se dos lábios de Jesus nunca bebeste o doce mel, se não és como a abelha que sorve o licor lúcido e saboroso da Rosa de Sarom, então dessa mesma boca sairá contra ti uma espada de dois gumes; e aquela boca da qual os justos recebem seu pão será para ti a boca da destruição e a causa de tua ruína.
E agora quanto à palavra Efrata — esse era o antigo nome do lugar que os judeus conservavam e amavam. O seu significado é "fecundidade" ou "abundância." Com que razão Jesus nasceu na casa da fecundidade! Pois donde vem a minha fecundidade e qualquer fecundidade, meu irmão, senão de Belém? Nossos pobres corações estéreis nunca produziram um fruto ou uma flor, até serem regados com o sangue do Salvador. É a Sua encarnação que fertiliza o solo de nossos corações. Havia espinhos urticantes por toda a terra e venenos mortais, antes que Ele viesse; mas nossa fecundidade vem d'Ele. "Sou como um cipreste verdejante; é de ti que vem o meu fruto." "Todas as minhas fontes estão em ti." Se somos como árvores plantadas junto às correntes de águas, dando fruto no seu tempo, não é porque éramos naturalmente frutíferos, mas por causa das correntes de águas junto às quais fomos plantados. É Jesus que nos torna frutíferos.
Diz-se que Belém é "pequena entre os milhares de Judá." Por quê? Porque Jesus Cristo sempre vai aos pequeninos. Ele nasceu na pequena entre os milhares de Judá. Não no alto monte do Basã, não no monte real de Hebrom, não nos palácios de Jerusalém, mas na humilde, porém ilustre aldeia de Belém. Há uma passagem em Zacarias que nos ensina uma lição: diz-se que o homem sobre o cavalo ruivo ficou entre as murtas. Ora, as murtas crescem ao pé do monte; e o homem sobre o cavalo ruivo sempre cavalga ali. Não cavalga no cume da montanha; cavalga entre os humildes de coração. "Com este habitarei, diz o Senhor, com aquele que tem espírito contrito e humilde e treme diante de minha palavra."
Há alguns pequeninos aqui esta manhã — "pequenos entre os milhares de Judá." Ninguém jamais ouviu o seu nome, ouviu? Se fosses sepultado e tivesses teu nome na lápide, jamais seria notado. Os que passassem diriam: "Não me importa, nunca o conheci." Não sabeis muito de vós mesmos, nem pensais muito em vós mesmos; mal podeis ler, talvez. Ou, se tendes algum talento e capacidade, sois desprezados pelos homens; ou, se não sois desprezados por eles, desprezais a vós mesmos. Sois um dos pequeninos. Ora, Cristo sempre nasce em Belém, entre os pequeninos. Corações grandes nunca têm Cristo em si; Cristo não repousa nos grandes corações, mas nos pequenos. Espíritos poderosos e orgulhosos nunca têm Jesus Cristo, pois Ele entra por portas baixas, não pelas altas. Aquele que tem o coração partido e um espírito humilde terá o Salvador, mas nenhum outro. Que pensamento doce! Ele é o Cristo dos pequeninos.
Não podemos passar adiante sem outro pensamento aqui, o de quão maravilhosamente misteriosa foi aquela providência que trouxe a mãe de Jesus Cristo a Belém exatamente no momento em que ela devia dar à luz! Seus pais residiam em Nazaré; e por que motivo deveriam viajar naquela ocasião? Naturalmente, teriam permanecido em casa; era pouco provável que sua mãe tivesse feito uma jornada a Belém em tão peculiar condição; mas o César Augusto emite um decreto para que sejam recenseados. Muito bem, então que sejam recenseados em Nazaré. Não; agradou ao César que fossem todos à sua cidade. Mas por que deveria o César Augusto pensar nisso exatamente naquele momento em particular? Simplesmente porque, enquanto o homem planeja o seu caminho, o coração do rei está na mão do Senhor. Oh, que mil acasos, como o mundo diria, se juntaram para produzir esse evento! Primeiro de tudo, o César briga com Herodes; um dos Herodes foi deposto; o César diz: "Tributarei a Judeia e torná-la-ei província, em vez de tê-la como reino separado." Bem, que seja feito. Mas quando há de ser feito? Este recenseamento, diz-se, foi primeiro efetuado quando Quirino era governador. Mas por que o censo deveria ser realizado naquele período particular — suponhamos, em dezembro? Por que não em outubro passado? E por que o povo não poderia ser tributado onde residia? O seu dinheiro não valia tanto ali como em qualquer outro lugar? Era capricho do César; mas era decreto de Deus. Oh! Amamos a sublime doutrina da predestinação eterna e absoluta. Tudo é de Deus, e a Ele voltará.
Ele veio para ser "soberano em Israel." É coisa muito singular que se diga que Jesus Cristo foi "nascido rei dos judeus." Pouquíssimos foram "nascidos reis." Os homens nascem príncipes, mas raramente nascem reis. Não creio que poderíeis encontrar na história uma instância em que qualquer criança tivesse nascido rei. Era o Príncipe de Gales, talvez, e tinha de esperar certo número de anos, até que seu pai morresse, e então o transformavam em rei, colocando uma coroa na cabeça; mas não nascia rei. Não recordo nenhum que tivesse nascido rei exceto Jesus; e há ênfase significativa naquele verso que cantamos: "Nascido para libertar o Seu povo; nascido criança, e no entanto rei." No momento em que veio à terra, era rei. Não esperou a maioridade para tomar o seu império; mas logo que seus olhos saudaram a luz do sol, era rei; desde o momento em que suas mãozinhas agarraram qualquer coisa, agarraram um cetro; logo que seu pulso bateu e seu sangue começou a correr, seu coração batia realmente, e seu pulso batia com compasso imperial, e seu sangue corria em corrente régia. Ele nasceu rei.
Veio "para ser soberano em Israel." "Ah!" diz alguém, "então veio em vão, pois pouco exerceu o seu domínio; 'veio aos seus, e os seus não O receberam;' veio a Israel e não foi o seu soberano, mas foi 'desprezado e rejeitado dos homens,' por todos abandonado e por Israel repudiado, a quem veio." Mas "nem todos são israelitas os que descendem de Israel," nem porque são descendência de Abraão serão todos chamados. Ah, não! Ele não é soberano de Israel segundo a carne, mas é o soberano de Israel segundo o espírito. Muitos assim O obedeceram. Os apóstolos não se prostraram diante d'Ele e O reconheceram como seu rei? E agora, não saúda Israel a Ele como seu soberano? Não toda a semente de Abraão segundo o espírito, todos os fiéis — pois Ele é "o pai dos fiéis" —, reconhece que a Cristo pertencem os escudos dos poderosos, pois Ele é o rei de toda a terra?
Meu irmão, submeteste-te ao cetro de Jesus? Ele é soberano em teu coração, ou não? Podemos conhecer Israel por isso: Cristo entrou em seus corações para ser soberano sobre eles. "Oh!" diz um, "faço o que quero, nunca fui escravo de ninguém." Ah! então odeias o domínio de Cristo. "Oh!" diz outro, "submeto-me ao meu ministro, ao meu clérigo, ou ao meu sacerdote, e penso que o que ele me diz é suficiente, pois ele é o meu governante." Assim é? Ah! pobre escravo, não conheces a tua dignidade; pois ninguém é teu governante legítimo exceto o Senhor Jesus Cristo. O bendito Senhor Jesus! Tu és soberano nos corações do Teu povo, e sempre serás; não queremos outro soberano que Tu mesmo, e não nos submeteremos a nenhum outro. Somos livres, porque somos servos de Cristo; estamos em liberdade, porque Ele é o nosso soberano, e não conhecemos nem cativeiro nem escravidão, porque Jesus Cristo é o único monarca de nossos corações.
Ele veio "para ser soberano em Israel;" e notai que essa Sua missão ainda não está completamente cumprida, e não estará até as glórias dos últimos dias. Em breve vereis Cristo voltando, para ser soberano sobre o Seu povo Israel, e soberano sobre eles não apenas como Israel espiritual, mas mesmo como Israel natural; pois os judeus serão restaurados à sua terra, e as tribos de Jacó ainda cantarão nos salões do seu templo; ainda se oferecerão ao Deus cânticos hebreus de louvor, e o coração do incrédulo judeu se derrete-rá aos pés do verdadeiro Messias. Em pouco tempo, Aquele que em Seu nascimento foi saudado como rei dos judeus por homens do Oriente, e em Sua morte foi inscrito como rei dos judeus por um ocidental, será chamado rei dos judeus em todo lugar — sim, rei dos judeus e dos gentios também.
Respondemos: sim, pois nosso texto diz: "Cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade." Primeiro, Cristo teve as suas saídas em Sua divindade. "Desde a eternidade." Ele não foi uma pessoa secreta e silenciosa até este momento. Aquela criança recém-nascida já tinha realizado maravilhas há muito tempo; aquele infante que dormia nos braços de sua mãe é o infante de hoje, mas é o ancião da eternidade. Essa criança não fez ainda sua aparição no palco deste mundo; seu nome ainda não está escrito no calendário dos circuncidados; mas ainda assim, embora não o saibais, "suas saídas foram de tempos antigos, desde a eternidade."
De tempos antigos, Ele saiu como nosso Cabeça da aliança na eleição: "como nos escolheu nele antes da fundação do mundo." Ele teve saídas para o Seu povo como seu representante diante do trono, antes mesmo de eles serem gerados no mundo. Foi desde a eternidade que Seus poderosos dedos agarraram a pena das eras e escreveram Seu próprio nome, o nome do eterno Filho de Deus; foi desde a eternidade que assinou o pacto com Seu Pai, de que pagaria sangue por sangue, ferida por ferida, sofrimento por sofrimento, agonia por agonia e morte por morte em favor do Seu povo; foi desde a eternidade que Se entregou, sem uma palavra de murmúrio, para que da coroa de Sua cabeça à planta de Seus pés suasse sangue, que fosse cuspido, trespassado, zombado, dilacerado, sofrendo a dor da morte e as agonias da cruz. Suas saídas como nosso Fiador foram desde a eternidade.
Detende-vos, minha alma, e maravilhai-vos! Tivestes saídas na pessoa de Jesus desde a eternidade. Não apenas quando nascestes neste mundo Cristo vos amou, mas os Seus deleites estavam com os filhos dos homens antes que houvesse filhos dos homens. Quantas vezes pensou neles; desde a eternidade até a eternidade estabeleceu o Seu afeto sobre eles. Que? Crente, Ele tem há tanto tempo lidado com a tua salvação, e não a completará? Ele tem desde a eternidade saído para me salvar, e me perderá agora? Que! Ele me teve em Sua mão, como a Sua joia preciosa, e agora me deixará escorregar entre Seus preciosos dedos? Ele me escolheu antes que os montes fossem trazidos à existência, ou os canais do abismo fossem abertos, e me perderá agora? Impossível!
Creio também que Cristo veio de tempos antigos, mesmo aos homens, de modo que os homens O contemplaram. Aponto para quatro ocasiões em que o Senhor Jesus Cristo apareceu na terra como homem, antes de Sua grande encarnação para nossa salvação. Primeiro, refiro-vos ao capítulo 18 do Gênesis, onde Jesus Cristo apareceu a Abraão, do qual lemos: "E o SENHOR lhe apareceu nos planaltos de Manre; e ele estava assentado à entrada da tenda no calor do dia; e levantou os olhos e olhou, e eis que três homens estavam diante dele." Mas a quem se inclinou ele? Disse "Meu Senhor" somente a um deles. Havia um homem entre os outros dois, o mais conspícuo em Sua glória, pois era o Deus-homem Cristo; os outros dois eram anjos criados, que por um tempo haviam assumido a aparência de homens. Mas este era o homem Cristo Jesus. "E disse: Senhor meu, se achei graça aos teus olhos, rogo-te que não passes adiante do teu servo: que se traga um pouco de água, e lavai os pés, e repousai debaixo desta árvore." Notareis que este Homem majestoso, esta Pessoa gloriosa, ficou para trás a falar com Abraão. No versículo 22 está escrito: "E os homens se partiram dali e foram na direção de Sodoma" — isto é, dois deles, como vereis no capítulo seguinte — "mas Abraão ainda estava de pé diante do SENHOR." Notareis que este Homem, o Senhor, manteve doce comunhão com Abraão, e permitiu que Abraão intercedesse pela cidade que estava prestes a destruir.
Ele estava na forma positiva de homem; de modo que quando andou pelas ruas da Judeia não era a primeira vez que era homem; já o fora antes, "nos planaltos de Manre, no calor do dia." Há outra instância — Sua aparição a Jacó, registrada no capítulo 32 do Gênesis, versículo 24. Toda a sua família havia partido, "e Jacó ficou sozinho; e lutou com ele um Homem até o romper do dia. E, vendo ele que não prevalecia contra ele, tocou na articulação da coxa de Jacó; e a coxa de Jacó se deslocou enquanto ele lutava com ele. E disse: Deixa-me ir, porque já raiou o dia."
E disse Jacó: "Não te deixarei ir, senão quando me abençoares." E ele lhe disse: "Como é o teu nome?" E ele disse: "Jacó." E disse: "O teu nome não se chamará mais Jacó, mas Israel; pois como príncipe tens poder com Deus." Este era um homem, e contudo Deus.
"Pois como príncipe tens poder com Deus e com os homens, e prevaleceste." E Jacó sabia que este Homem era Deus, pois diz no versículo 30: "Vi a Deus face a face, e a minha vida foi preservada." Outra instância encontrareis no livro de Josué. Quando Josué havia cruzado o Jordão e entrado na Terra Prometida, e estava prestes a expulsar os cananeus, eis que este poderoso Homem-Deus apareceu a Josué. No capítulo 5, versículo 13, lemos: "E aconteceu que, estando Josué junto a Jericó, levantou os olhos e olhou, e eis que estava diante dele um Homem com a espada desembainhada na sua mão; e Josué foi a ele e disse-lhe — como o bravo guerreiro que era: 'Pela nossa parte és tu, ou pela parte dos nossos adversários?'" "E ele disse: Não; mas como Príncipe do exército do SENHOR venho agora.'" E Josué viu imediatamente que havia divindade nele, pois se prostrou com o rosto em terra e o adorou, e disse-lhe: "Que diz meu Senhor ao seu servo?" Ora, se tivesse sido um anjo criado, teria reprovado Josué dizendo: "Sou um dos vossos conservos." Mas não; "o Príncipe do exército do SENHOR disse a Josué: Tira o teu calçado do teu pé, porque o lugar em que estás é santo."
"E Josué assim o fez." Outra instância notável é a registrada no terceiro capítulo do livro de Daniel, onde lemos a história de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego sendo lançados na fornalha ardente, tão acesa que matou os homens que os lançaram. De repente, o rei disse aos seus conselheiros: "Não lançamos nós três homens atados no meio do fogo?" Eles responderam ao rei: "É verdade, ó rei." Ele respondeu e disse: "Eis que eu vejo quatro homens soltos, andando no meio do fogo, sem nenhum dano; e o aspecto do quarto é semelhante ao de um filho dos deuses." Como saberia Nabucodonosor disso?
Apenas porque havia algo tão nobre e majestoso no modo como aquele admirável Homem Se comportava, e uma influência tão solene ao redor daquele que tão maravilhosamente quebrou os dentes consumidores daquela chama devoradora, de modo que não pôde sequer chamuscar os filhos de Deus. Nabucodonosor reconheceu a Sua humanidade. Não disse: "Vejo três homens e um anjo," mas disse: "Vejo quatro homens positivos, e o aspecto do quarto é semelhante ao de um filho dos deuses." Vedes, pois, o que significa dizer que "suas saídas são de tempos antigos, de sempre." Observai por um momento que cada uma dessas quatro grandes ocorrências aconteceu aos santos quando estavam empenhados em deveres muito elevados, ou quando estavam prestes a empenhar-se neles. Jesus Cristo não aparece aos Seus santos todos os dias.
Não veio ver Jacó até que ele estava na aflição; não visitou Josué antes de ele se engajar numa guerra justa. É apenas em ocasiões extraordinárias que Cristo assim Se manifesta ao Seu povo. Quando Abraão intercedeu por Sodoma, Jesus estava com ele, pois um dos mais elevados e nobres ministérios de um cristão é o da intercessão, e é quando está assim empenhado que é mais provável que obtenha uma visão de Cristo. Jacó estava empenhado em lutar, e esse é um aspecto do dever de um cristão ao qual alguns de vós nunca chegastes; consequentemente, não tendes muitas visitas de Jesus.
Foi quando Josué exercia bravura que o Senhor o encontrou. O mesmo com Sadraque, Mesaque e Abede-Nego: estavam nos lugares elevados da perseguição, em razão de sua fidelidade ao dever, quando Ele veio a eles e disse: "Estarei convosco, passando pelo fogo." Há certos lugares peculiares que devemos entrar para encontrarmos o Senhor. Devemos estar em grande tribulação, como Jacó; devemos estar em grande labor, como Josué; devemos ter grande fé intercessória, como Abraão; devemos ser firmes no cumprimento do dever, como Sadraque, Mesaque e Abede-Nego; ou então não conheceremos Aquele "cujas saídas são de tempos antigos, de sempre"; ou, se O conhecermos, não seremos capazes de "compreender com todos os santos qual é a altitude, a profundidade, o comprimento e a largura do amor de Cristo, que excede todo o conhecimento." Doce Senhor Jesus! Tu, cujas saídas são de tempos antigos, mesmo de sempre, não cessaste ainda as Tuas saídas. Oh! que Tu saísses hoje, para animar os fracos, auxiliar os cansados, curar as nossas feridas, consolar as nossas angústias!
Sai, rogamo-Lo, para conquistar pecadores, para subjugar corações endurecidos — para arrombar os portões de ferro das concupiscências dos pecadores e despedaçar as barras de ferro dos seus pecados! Oh, Jesus! sai; e quando saíres, vem a mim! Sou um pecador endurecido? Vem Tu a mim; preciso de Ti: "Oh! que a Tua graça subjugue meu coração; quero também ser conduzido em triunfo; Escravo voluntário do meu Senhor, Para cantar as honras da Tua palavra." Pobre pecador! Cristo ainda não deixou de sair.
E quando sai, recordai-vos de que vai a Belém. Tendes um Belém no coração? Sois pequenino? Ainda sairá para vós. Ide para casa e buscai-O com fervorosa oração.
Se fostes levados a chorar por causa do pecado, e vos considerais demasiado pequenos para ser notados, ide para casa, pequenino! Jesus vem aos pequeninos; Suas saídas são de tempos antigos, e Ele está saindo agora. Virá à vossa pobre e humilde casa; virá ao vosso pobre e miserável coração; virá, embora estejais na pobreza e cobertos de andrajos, embora estejais desamparados, atormentados e aflitos; virá, pois Suas saídas são de tempos antigos, de sempre. Confiai n'Ele, confiai n'Ele, confiai n'Ele; e Ele sairá para habitar no vosso coração para sempre. Amém.