Não temos nenhum respeito supersticioso por épocas e estações. Certamente não cremos no atual arranjo eclesiástico chamado Natal: primeiro, porque não cremos de modo algum na missa, antes a abominamos, quer seja dita ou cantada em latim ou em inglês; e, segundo, porque não encontramos qualquer autorização escriturística para observar algum dia como o aniversário do Salvador; e, consequentemente, sua observância é uma superstição, porque não tem autoridade divina. A superstição fixou com toda a positividade o dia do nascimento do nosso Salvador, embora não haja possibilidade de descobrir quando ocorreu. Um catálogo de 136 diferentes opiniões eruditas sobre o assunto é dado por Fabricius; e vários teólogos inventam argumentos ponderosos para defender uma data em cada mês do ano. Não foi senão no meio do terceiro século que alguma parte da Igreja celebrou a natividade de nosso Senhor; e só muito depois de a Igreja ocidental ter dado o exemplo, a oriental a adotou.
Porque o dia não é conhecido, a superstição o fixou; ao passo que, podendo o dia da morte do nosso Salvador ser determinado com muito mais certeza, a superstição muda a data de sua observância cada ano. Onde está o método na loucura dos supersticiosos? Provavelmente o fato é que os dias santos foram arranjados para se encaixar com os festivais pagãos. Ousamos afirmar que, se há algum dia no ano do qual podemos estar bastante certos de que não foi o dia em que o Salvador nasceu, é o vinte e cinco de dezembro. No entanto, como a corrente dos pensamentos dos homens é dirigida desta maneira agora, e não vejo nenhum mal na corrente em si mesma, lançarei o barco do nosso discurso sobre essa corrente, e farei uso do fato, que nem justificarei nem condenarei, esforçando-me para dirigir os vossos pensamentos na mesma direção. Pois já que é lícito, e mesmo louvável, meditar sobre a encarnação do Senhor em qualquer dia do ano, não pode estar no poder das superstições alheias tornar tal meditação imprópria para hoje. Não considerando o dia, ainda assim demos graças a Deus pelo dom do Seu querido Filho.
Em nosso texto temos diante de nós o sermão do primeiro evangelista sob a dispensação do evangelho. O pregador era um anjo, e era conveniente que assim fosse, pois o mais grandioso e último de todos os evangelhos será proclamado por um anjo quando ele soar a trombeta da ressurreição, e os filhos da regeneração subirão para a plenitude de sua alegria. A nota fundamental deste evangelho angélico é a alegria — "Eis aqui vos trago novas de grande alegria." A natureza teme na presença de Deus — os pastores ficaram com muito medo. A própria lei servia para aprofundar esse sentimento natural de consternação; visto que os homens eram pecadores, e a lei veio ao mundo para revelar o pecado, sua tendência era fazer os homens temerem e tremessem diante de qualquer revelação divina. Os judeus acreditavam unanimemente que, se algum homem contemplasse manifestações sobrenaturais, com certeza morreria; de modo que o que a natureza ditava, a lei e as crenças gerais dos que estavam sob ela também corroboravam.
Mas a primeira palavra do evangelho pôs fim a tudo isso, pois o evangelista angélico disse: "Não temais, porque eis aqui vos trago novas." Daí em diante não deve ser coisa terrível para o homem aproximar-se do seu Criador; o homem redimido não deve temer quando Deus desvela o esplendor de Sua majestade, pois não aparece mais como juiz em Seu trono de terror, mas como Pai que Se inclina na familiar santidade diante de Seus próprios amados filhos. A alegria de que falou esse primeiro pregador do evangelho não era pequena, pois disse: "Eis aqui vos trago boas novas" — só isso já seria alegria; e não boas novas de alegria somente, mas "boas novas de grande alegria." Cada palavra é enfática, como que para mostrar que o evangelho é destinado, acima de tudo, a promover e criará da forma mais abundante a maior alegria possível no coração humano onde quer que seja recebido. O homem é como uma harpa desafinada, e a música de suas cordas vitais está discordante; todo o seu ser geme com tristeza; mas o filho de Davi, aquele poderoso arpista, veio restaurar a harmonia da humanidade, e onde os seus dedos graciosos tocam as cordas, o toque dos dedos de um Deus encarnado produz uma música doce como a das esferas, e uma melodia rica como o cântico de um serafim. Quem dera que todos os homens sentissem essa mão divina.
Ao tentar expor este discurso angélico esta manhã, observaremos três coisas: a alegria de que se fala; em seguida, as pessoas a quem esta alegria vem; e então, em terceiro lugar, o sinal que para nós é tão sinal como foi para esses pastores — um sinal do nascimento e da fonte da alegria.
De onde vem ela, e o que é? Já dissemos que é uma "grande alegria" — "boas novas de grande alegria." A alegria da terra é pequena, sua alegria é trivial, mas o céu nos enviou alegria imensurável, digna de mentes imortais. Visto que não há nota de tempo acrescentada e nenhuma indicação é dada de que a mensagem será algum dia revertida, podemos dizer que é uma alegria duradoura, uma alegria que soará por todas as eras, cujos ecos serão ouvidos até que a trombeta traga a ressurreição; sim, e daí por diante para sempre e sempre. Pois quando Deus enviou o anjo em seu brilho para dizer: "Eis aqui vos trago boas novas de grande alegria, que será para todo o povo," foi como se dissesse: "Daqui em diante haverá alegria para os filhos dos homens; haverá paz para a raça humana e boa vontade para com os homens para sempre e sempre, enquanto houver glória a Deus nas alturas." Oh! pensamento bendito! A Estrela de Belém nunca se porá. Jesus, o mais formoso entre os dez mil, o mais amável entre os belos, é alegria para sempre.
Visto que esta alegria está expressamente associada à glória de Deus pelas palavras "Glória a Deus nas alturas," podemos estar plenamente certos de que é uma alegria pura e santa. Nenhuma outra um anjo teria proclamado, e, de fato, nenhuma outra alegria é alegria. O vinho esprimido das uvas de Sodoma pode cintilar e espumar, mas é amargura no fim, e as suas borras são morte; somente o que vem dos cachos de Escol é o verdadeiro vinho do reino, que alegra o coração de Deus e do homem. A alegria santa é a alegria do céu, e essa, podeis estar certos, é a própria nata da alegria. A alegria do pecado é uma fonte de fogo, tendo sua origem no solo ardente do inferno, enlouquecendo e consumindo os que bebem da sua água ardente; de tais deleites não desejamos beber. Seria pior do que ser amaldiçoado ser feliz no pecado, pois é o começo da graça ser miserável no pecado, e o aperfeiçoamento da graça é escapar completamente do pecado e estremecer mesmo ao pensamento dele.
Devemos, portanto, sempre crer, a respeito da religião cristã, que ela tem a sua alegria em si mesma, e guarda as suas festas dentro dos seus próprios puros recintos — uma festa cujos mantimentos crescem todos em terreno santo. Há os que, amanhã, fingirão exibir alegria em memória do nascimento do Salvador, mas não buscarão o prazer no Salvador: precisarão de muitos acréscimos à festa antes de ficarem satisfeitos. A alegria em Emanuel seria para eles uma espécie pobre de divertimento. Neste país, com demasiada frequência, se alguém não soubesse o nome, poderia acreditar que o festival de Natal é uma festa de Baco, ou de Ceres — certamente não uma comemoração do Nascimento Divino. Contudo há razão suficiente para alegria santa no próprio Senhor, e motivos para êxtase no Seu nascimento entre os homens.
Que a nossa alegria seja água viva daqueles poços sagrados que o próprio Senhor cavou; que a Sua alegria permaneça em nós, para que a nossa alegria seja plena. Da alegria de Cristo não podemos ter demais; não há perigo de ir ao excesso quando o Seu amor é o vinho que bebemos. Oh! que fôssemos imersos neste puro ribeiro dos deleites espirituais!
Mas por que é que a vinda de Cristo ao mundo é ocasião de alegria? A resposta é a seguinte: Primeiro, porque é sempre motivo de alegria que Deus esteja em aliança com o homem, especialmente quando a aliança é tão estreita que Deus efetivamente tomou a nossa humanidade em união com a Sua divindade; de modo que Deus e o homem constituem uma só pessoa divina e misteriosa. O pecado separara Deus do homem; mas a encarnação faz a ponte sobre a separação: é um prelúdio ao sacrifício expiatório, mas um prelúdio cheio da mais rica esperança. Daqui por diante, quando Deus olhar para o homem, lembrará que o Seu próprio Filho é homem. Desde este dia, quando contemplar o pecador, se a Sua ira arder, lembrará que o Seu próprio Filho, como homem, ficou no lugar do pecador e suportou a condenação do pecador. Como no caso da guerra, o conflito termina quando as partes opostas se casam entre si, assim não há mais guerra entre Deus e o homem, porque Deus tomou o homem em íntima união consigo mesmo. Nisso havia, portanto, motivo para alegria.
Mas havia mais do que isso, pois os pastores sabiam que havia promessas feitas desde tempos antigos, que haviam sido a esperança e o conforto dos crentes em todas as eras, e estas iam agora ser cumpridas. Havia aquela promessa antiga feita no limiar do Éden para os primeiros pecadores da nossa raça, de que a semente da mulher esmagaria a cabeça da serpente; outra promessa feita ao Pai dos fiéis de que em sua semente seriam abençoadas todas as nações da terra, e promessas proferidas pelas bocas de profetas e de santos desde que o mundo foi criado. Ora, o anúncio do anjo do Senhor aos pastores era uma declaração de que a aliança estava cumprida, de que agora, na plenitude do tempo, Deus honraria a Sua palavra, e o Messias, que devia ser a glória de Israel e a esperança do mundo, tinha realmente chegado. Alegrai-vos, ó céus, e exultai, ó terra, pois o Senhor o fez; com misericórdia visitou o Seu povo. O Senhor não permitiu que a Sua palavra falhasse, mas cumpriu para o Seu povo as Suas promessas. O tempo de favorecer a Sião, sim, o tempo marcado, chegou.
Mas o cântico do anjo tinha nele razão ainda mais plena para alegria; pois o nosso Senhor que nasceu em Belém veio como Salvador. "Nasceu-vos hoje o Salvador." Deus havia vindo à terra antes, mas não como Salvador. Lembrai aquela terrível vinda quando três anjos entraram em Sodoma ao anoitecer, pois o Senhor disse: "Descerei agora e verei se procedem de acordo com o clamor que chegou até mim." Viera como espião para testemunhar o pecado humano, e como vingador para levantar a mão ao céu e ordenar que o fogo vermelho descesse e queimasse as malditas cidades da planície. Mas agora, não como anjo de vingança, mas como homem na misericórdia, Deus veio; não para espionar o nosso pecado, mas para removê-lo; não para punir a culpa, mas para perdoá-la.
Alegrai-vos, vós que sentis que estais perdidos; o vosso Salvador vem para vos buscar e salvar. Tende bom ânimo, vós que estais no cárcere, pois Ele vem para vos libertar. Vós que estais famintos e prestes a morrer, alegrai-vos de que Ele consagrou para vós uma Belém, uma casa do pão, e veio ser o pão da vida para as vossas almas. Alegrai-vos, ó pecadores, por toda parte, pois o Restaurador dos desterrados, o Salvador dos caídos, nasceu. Uni-vos à alegria, santos, pois Ele é o Preservador dos salvos, livrando-os de inúmeros perigos, e é o seguro Aperfeiçoador dos que Ele preserva. Jesus não é um Salvador parcial, que começa uma obra e não a conclui; mas, restaurando e sustentando, também aperfeiçoa e apresenta os salvos sem mancha nem ruga, nem coisa alguma semelhante, diante do trono de Seu Pai. Alegrai-vos em voz alta, todos os povos; que os vossos montes e vales reajam de alegria, pois um Salvador que é poderoso para salvar nasceu entre vós.
Mas isso não era tudo; pois a palavra seguinte também tem nela uma plenitude de alegria: "um Salvador, que é Cristo," ou o Ungido. Nosso Senhor não era um Salvador amador que desceu do céu numa missão não autorizada; mas foi escolhido, ordenado e ungido por Deus; podia dizer verdadeiramente: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu." Aqui está grande conforto para todos os que precisam de um Salvador; não é pequena consolação para eles que o próprio Deus tenha autorizado a Cristo para salvar. Não pode haver medo de conflito entre o mediador e o juiz, nem perigo de não-aceitação da obra do nosso Salvador; porque Deus comissionou a Cristo para fazer o que fez, e em salvar pecadores Ele está apenas executando a própria vontade do Seu Pai. Cristo é chamado aqui de "o ungido." Todos os Seus filhos são ungidos, e havia sacerdotes da ordem de Arão que eram ungidos; mas Ele é o ungido, "ungido com o óleo de alegria acima dos seus companheiros;" tão abundantemente ungido que, como a unção sobre a cabeça de Arão, a sagrada unção da Cabeça da Igreja se derrama em copiosas correntes, até que nós, que somos como as bordas das Suas vestes, ficamos impregnados do rico perfume.
Ele é "o ungido" em sentido tríplice: como profeta, para pregar o evangelho com poder; como sacerdote, para oferecer sacrifício; como rei, para governar e reinar. Em cada um desses cargos é preeminente; é tal mestre, sacerdote e governante como nunca se viu antes. Nele há uma rara conjunção de gloriosos ofícios, pois nunca antes profeta, sacerdote e rei se encontraram numa só pessoa entre os filhos dos homens, nem assim será novamente. Tríplice é a unção daquele que é sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, profeta semelhante a Moisés e rei cujo domínio não tem fim.
Uma nota mais, e esta a mais forte — "que é Cristo, o Senhor." Ora, a palavra Senhor aqui usada equivale a Jeová. Não podemos duvidar disso, porque é a mesma palavra usada duas vezes no nono versículo, e no nono versículo ninguém pode questionar que significa Jeová. Ouvi: "E eis que um anjo do Senhor os cercou de resplendor." Nosso Salvador é Cristo, Deus, Jeová. Nenhum testemunho da Sua divindade poderia ser mais claro; é indiscutível. E que alegria há nisso! Pois suponhamos que um anjo fosse o nosso Salvador — ele não seria capaz de carregar o fardo dos meus pecados ou dos vossos; ou se qualquer coisa menos do que Deus tivesse sido estabelecida como o fundamento da nossa salvação, poderia ter resultado muito frágil. Mas se Aquele que Se encarrega de salvar não é senão o Infinito e o Todo-Poderoso, então o fardo da nossa culpa pode ser carregado sobre tais ombros, o trabalho estupendo da nossa salvação pode ser realizado por tal Trabalhador, e isso com facilidade; pois todas as coisas são possíveis a Deus, e Ele é capaz de salvar totalmente os que por Ele se chegam a Deus.
Filhos dos homens, percebeis aqui o objeto da vossa alegria? O Deus que vos fez, e contra quem ofendestes, desceu dos céus e tomou sobre Si a vossa natureza para poder salvar-vos. Veio com a plenitude de Sua glória e a infinidade de Sua misericórdia para vos resgatar. Não acolheis essas novas? Que! Não ficarão os vossos corações gratos por isso? Esse amor incomparável não desperta gratidão alguma? Não fosse esse divino Salvador, a vossa vida aqui teria sido miséria, e a vossa existência futura seria angústia sem fim. Oh! oro para que adoreis o Deus encarnado e nEle confieis. Então abençoareis o Senhor por vos livrar da ira que há de vir, e ao colocardes a mão em Jesus e encontrardes salvação em Seu nome, afinareis os vossos cânticos ao Seu louvor e exultareis com alegria sagrada.
Observai como o anjo começa: "Eis aqui vos trago boas novas de grande alegria, porque nasceu-vos hoje." Assim, a alegria começou com os primeiros que a ouviram — os pastores. "A vós," diz ele; "pois que hoje vos nasceu." Amado ouvinte, começará a alegria convosco hoje? — pois de pouco vos vale que Cristo tenha nascido, ou que Cristo tenha morrido, a menos que a vós uma criança tenha nascido e por vós Jesus tenha sangrado. O interesse pessoal é o ponto principal. "Mas sou pobre," diz alguém. Também o eram os pastores. Oh! vós pobres, a vós nasceu esta misteriosa criança. "A vós foi pregado o evangelho." "Mas sou obscuro e desconhecido," diz alguém. Também o eram os que velavam na planície de meia-noite. Vós, desconhecidos dos homens, sois conhecidos de Deus: não será dito que "a vós nasceu uma criança?" O Senhor não considera a grandeza dos homens, mas tem apreço pelos humildes.
"Mas sois iletrado," dizeis, "não podeis entender muito." Seja assim, mas aos pastores Cristo nasceu, e a sua simplicidade não os impediu de recebê-Lo, mas antes os ajudou. Seja assim também convosco: recebei com alegria a simples verdade como ela está em Jesus. Não há Cristo aristocrata que vos pregue, mas o Salvador do povo, o amigo dos publicanos e pecadores. Jesus é o verdadeiro "amigo dos pobres;" Ele é "uma aliança para o povo," dado para ser "um líder e comandante ao povo." A vós é dado Jesus.
Depois de dizer "a vós," o anjo prosseguiu dizendo que seria "para todo o povo." Mas a nossa tradução não é exata; o grego é "para todo o povo." Isso se refere com toda certeza à nação judaica; nenhum que olhe para o original encontrará uma expressão tão ampla como a que nossos tradutores deram. Deveria ser traduzida como "para todo o povo." E aqui deixem-nos dizer uma palavra em favor dos judeus. Por quanto tempo e quão pecaminosamente a Igreja cristã desprezou os mais honrados entre as nações! Quão barbaramente Israel tem sido tratado pela chamada Igreja! Senti meu espírito arder indignado em Roma quando fiquei no bairro judeu e soube das cruéis indignidades que o Papismo amontoou sobre os judeus, mesmo até recentemente.
Que a verdadeira Igreja cristã pense com amor no judeu e com respeitosa seriedade lhe diga o verdadeiro evangelho; que ela varra a superstição e lhe apresente o único gracioso Deus na Trindade de Sua unidade divina; e ainda chegará o dia em que os judeus, que foram os primeiros apóstolos dos gentios, os primeiros missionários que foram a nós que estávamos longe, serão reunidos novamente. Até que isso aconteça, a plenitude da glória da Igreja nunca chegará. Benefícios incomparáveis para o mundo estão ligados à restauração de Israel; a sua reunião será como vida dentre os mortos. Jesus, o Salvador, é a alegria de todas as nações, mas que a raça escolhida não seja privada da sua parcela peculiar de qualquer promessa que a Santa Escritura registrou com visão especial para eles.
A vinda de Cristo é alegria para todo o povo. É assim, pois a alegria traz benefícios mesmo aos que não são cristãos. Cristo não os abençoa no sentido mais elevado e verdadeiro, mas a influência de Seu ensino confere benefícios de ordem inferior, como os que são capazes de receber; pois onde o evangelho é proclamado, não é pequena bênção para toda a população. Notai este fato: não há terra debaixo do sol onde haja uma Bíblia aberta e um evangelho pregado, onde um tirano possa permanecer por muito tempo em seu lugar. Não importa quem ele seja, seja papa ou rei; deixai o púlpito ser devidamente usado para a pregação de Cristo crucificado, deixai a Bíblia ser aberta para ser lida por todos os homens, e nenhum tirano poderá governar por muito tempo em paz. A Inglaterra deve sua liberdade à Bíblia; e a França nunca possuirá liberdade duradoura e bem estabelecida até que venha a reverenciar o evangelho, que por muito tempo rejeitou. Há alegria para toda a humanidade onde Cristo vem.
Se os homens receberem Cristo, não haverá mais opressão: o verdadeiro cristão faz ao outro o que quer que o outro lhe faça, e não haverá mais contenda de classes, nem esmagamento da face dos pobres. A escravidão deve cair onde o Cristianismo governa, e notai: se o Romanismo for destruído uma vez, e o Cristianismo puro governar todas as nações, a própria guerra deve chegar ao fim; pois se há alguma coisa que este livro denuncia e que considera o maior de todos os crimes, é o crime da guerra. Que Cristo governe, e os homens quebrarão o arco e cortarão a lança em pedaços e queimarão o carro no fogo. É alegria para todas as nações que Cristo nasceu, o Príncipe da Paz, o Rei que governa em retidão.
Mas, amados, a maior alegria é para os que conhecem a Cristo como Salvador. Aqui o cântico se eleva a uma nota mais alta e mais sublime. A nós de fato uma criança nasceu, se podemos dizer que Ele é o nosso "Salvador, que é Cristo, o Senhor." Permitam-me fazer-vos algumas perguntas pessoais. Os vossos pecados foram perdoados em Seu nome? A cabeça da serpente foi esmagada em vossa alma? A semente da mulher reina em poder santificador sobre a vossa natureza?
Oh, então tendes a alegria que é para todo o povo em sua forma mais verdadeira; e, caro irmão, cara irmã, quanto mais completamente vos submeterdes a Cristo o Senhor, quanto mais plenamente O conhecerdes e vos tornardes semelhantes a Ele, mais plena será a vossa felicidade. A alegria superficial é para os que vivem onde o Salvador é pregado; mas as grandes profundezas, os imensos abismos insondáveis de alegria solene que brilham e fulguram de prazer, são para os que conhecem o Salvador, obedecem ao Ungido e têm comunhão com o próprio Senhor. O homem mais alegre é o mais semelhante a Cristo. Desejaria que alguns cristãos fossem mais verdadeiramente cristãos: são cristãos e outra coisa; seria muito melhor que fossem inteiramente cristãos.
Talvez conheceis a lenda, ou quem sabe verdadeira história, do despertar de Santo Agostinho. Ele sonhou que morreu e foi às portas do céu, e o guardião das portas lhe disse: "Quem és tu?" E ele respondeu: "Christianus sum" — sou cristão. Mas o porteiro respondeu: "Não, não és cristão, és ciceroniano, pois teus pensamentos e estudos foram principalmente dirigidos às obras de Cícero e aos clássicos, e negligençastes o ensino de Jesus.
Julgamos os homens aqui pelo que mais ocupou seus pensamentos, e és julgado não como cristão, mas como ciceroniano." Quando Agostinho acordou, pôs de lado os clássicos que havia estudado e a eloquência a que havia aspirado, e disse: "Serei cristão e teólogo;" e a partir desse momento dedicou seus pensamentos à palavra de Deus, e sua pena e sua língua à instrução dos outros na verdade. Oh, não gostaria que se dissesse de nenhum de vós: "Bem, ele pode ser um pouco cristão, mas é muito mais um comerciante ávido por lucro." Não gostaria que se dissesse: "Bem, pode ser crente em Cristo, mas é bem mais um político." Talvez seja cristão, mas se sente mais em casa quando fala de ciência, agricultura, engenharia, cavalos, mineração, navegação ou lazer. Não, não: jamais conhecereis a plenitude da alegria que Jesus traz à alma, a menos que, sob o poder do Espírito Santo, tomardes o Senhor vosso Mestre como vosso Tudo em tudo, e o tornardes a fonte do vosso mais intenso prazer. "Ele é o meu Salvador, o meu Cristo, o meu Senhor," seja este o vosso orgulho mais elevado.
Então conhecereis a alegria que o cântico do anjo prediz para os homens. III. Mas devo prosseguir. A última coisa no texto é O SINAL.
Os pastores não pediram um sinal, mas um lhes foi graciosamente dado. Às vezes é pecaminoso da nossa parte exigir como evidência o que a ternura de Deus pode todavia conceder como auxílio à fé. A incredulidade voluntária não terá sinal, mas a fé fraca terá auxílio compassivo. O sinal de que havia chegado a alegria do mundo era este: deveriam ir à manjedoura e lá encontrariam o Cristo, e Ele próprio seria o sinal.
Cada circunstância é portanto instrutiva. O bebê foi encontrado "envolto em panos." Ora, observai, ao contemplar este infante, que não há a menor aparência de poder temporal aqui. Notai os dois pequenos braços frágeis de um bebezinho que precisa ser carregado se quiser mover-se. Ai de mim, as nações da terra buscam a alegria no poder militar.
Por que meios podemos fazer uma nação de soldados? O método prussiano é admirável; devemos ter milhares e mais milhares de homens armados e grandes canhões e navios encouraçados para matar e destruir em massa. Não é o orgulho de uma nação ser gigantesca em armas? Que orgulho cobre o rosto do patriota quando se lembra de que sua nação pode matar mais rápido do que qualquer outro povo.
Ah, geração insensata, que vasculhais as chamas do inferno para encontrar o vosso paraíso, que buscais entre sangue e ossos aquela coisa imunda que chamais de glória. A alegria de uma nação jamais pode residir na miséria de outras. Matar não é o caminho para a prosperidade; enormes armamentos são uma maldição para a própria nação, bem como para os seus vizinhos. A alegria de uma nação é uma areia dourada por sobre a qual nenhum rio de sangue jamais correu.
Só se encontra naquele rio cujas correntes alegram a cidade de Deus. A fraqueza da mansidão submissa é o verdadeiro poder. Jesus funda o Seu eterno império não na força, mas no amor. Aqui, ó povos, vede a vossa esperança; o príncipe manso e pacífico, cuja glória é o seu sacrifício próprio, é o nosso verdadeiro benfeitor.
Mas olhai de novo, e não vereis pompa alguma que vos deslumbre. O menino está envolto em púrpura e linho fino? Ah, não. Dorme em um berço de ouro?
A manjedoura é o seu único abrigo. Nenhuma coroa cinge a cabeça do bebê, nem um diadema envolve a fronte da mãe. Uma simples donzela da Galileia e uma criancinha em panos ordinários — é tudo o que vedes. "Não te aqueças em nobre alcácer, Nem em sala de poder iluminada pelo sol, Passa depressa por Babel, e busca a terra santa. Das vestes de púrpura de Tiro, Volta com olhos não ofuscados Para o campo de Belém, e fica junto à manjedoura."
Ai de mim, as nações são deslumbradas por uma aparência vã. O fausto dos impérios, as pompas dos reis são o seu deleite. Como podem admirar essas cortes vistosas, em que tantas vezes vestuário glorioso, condecorações e títulos substituem a virtude, a castidade e a verdade. Quando cessará o povo de ser criança?
Terão de aspirar para sempre à música marcial que estimula para a violência, e ao fausto excessivo que os sobrecarrega de impostos? Essas coisas não tornam uma nação grande nem feliz. Bah! como a bolha estourou do outro lado daquele mar estreito. Um império de bolha desmoronou.
Dez mil baionetas e milhões em ouro não passaram de areia movediça como alicerce de um trono de Babel. Vãos são os homens que buscam a alegria no fausto; ela reside na verdade e na justiça, na paz e na salvação, das quais aquele jovem príncipe nascido nas vestes de uma criança camponesa é o verdadeiro símbolo. Tampouco havia riqueza a ser vista em Belém. Aqui nesta ilha tranquila, a maioria dos homens busca confortavelmente ganhar os seus milhares pelo comércio e pela indústria.
Somos o povo sensato que segue a vantagem principal, e não nos deixamos iludir por ideias de glória; estamos acumulando todo o dinheiro que podemos, e nos admiramos que outras nações desperdicem tanto em guerras. O principal sustentáculo e pilar da alegria da Inglaterra seria encontrado, como alguns nos dizem, nos Três por Cento, na posse de colônias, no progresso da maquinaria, no aumento constante do capital. Não é Mamom uma divindade sorridente? Mas aqui, no berço da esperança do mundo em Belém, vejo muito mais pobreza do que riqueza;
não percebo nenhum brilho de ouro, nenhuma faísca de prata. Percebo apenas um pobre bebê, tão pobre, tão muito pobre, que está deitado numa manjedoura; e sua mãe é esposa de um artesão, uma mulher que não usa seda nem joia. Não no vosso ouro, ó britânicos, jamais residirá a vossa alegria, mas no evangelho desfrutado por todas as classes, o evangelho livremente pregado e alegremente recebido. Jesus, ao nos elevar à riqueza espiritual, nos redime das cadeias de Mamom, e nessa liberdade nos dá alegria.
E aqui, também, não vejo superstição. Sei que o artista pinta anjos no céu e envolve a cena de uma luz misteriosa, da qual a língua mentirosa da tradição tem dito que tornava a meia-noite tão clara quanto o meio-dia. Isso é pura ficção; não havia lá nada mais do que o estábulo, a palha que os bois comiam, e talvez os próprios animais, e a criança da maneira mais simples e singela, enrolada como são as outras crianças; os querubins eram invisíveis e não havia halo algum. Em torno desse nascimento de alegria não havia sinal de superstição: aquele demônio não se atreveu a introduzir seus truques e afetações no espetáculo sublime: teria estado ali tão fora de lugar quanto um arlequim no santo dos santos.
Um evangelho simples, um evangelho simples, tão simples quanto aquele bebê envolto nas roupas mais comuns, é neste dia a única esperança para os homens. Sede sábios e crede em Jesus, e aborrecei todas as mentiras de Roma e as invenções daqueles que imitam as suas detestáveis abominações. Tampouco a alegria do mundo reside na filosofia. Não podeis ter feito do berço de Belém um enigma escolástico ainda que tivésseis tentado; era simplesmente uma criança na manjedoura e uma mulher judia olhando e amamentando-a, e um carpinteiro ao lado.
Ali não havia nenhuma dificuldade metafísica da qual se pudesse dizer: "É necessário um doutor em teologia para explicá-la, e uma assembleia de teólogos para expô-la." É verdade que os Magos foram lá, mas foi somente para adorar e oferecer presentes; tomara que todos os sábios fossem tão sábios quanto eles. Ai de mim, a sutileza humana disputou sobre a manjedoura, e a lógica obscureceu o conselho com suas palavras. Mas essa é uma das muitas invenções do homem; a obra de Deus foi sublimemente simples.
Aqui estava "o Verbo feito carne" para habitar entre nós, um mistério para a fé, mas não uma bola de futebol para argumentos. Misterioso, e contudo a maior simplicidade que jamais foi falada a ouvidos humanos e vista por olhos mortais. E tal é o evangelho, na pregação do qual o nosso apóstolo disse: "usamos de muita franqueza no falar." Longe, longe, longe os vossos sermões eruditos, e o vosso belo discurso, e as vossas pretensas filosofias; nunca criaram nem um pingo de felicidade neste mundo. Teorias sutilmente fiadas são belas de contemplar e desconcertam os tolos, mas são inúteis para os homens práticos; não consolam os filhos do trabalho, nem animam as filhas da tristeza.
O homem de bom senso, que sente o desgaste diário e o atrito deste pobre mundo, precisa de uma consolação mais rica do que as vossas novas teologias, ou neologias, podem lhe dar. Num Cristo simples, e numa fé simples nesse Cristo, há uma paz profunda e duradoura; num evangelho simples, evangelho de homem pobre, há uma alegria e uma bem-aventurança indizível, da qual milhares podem falar, e falar com confiança, pois declaram o que conhecem de fato, e testificam o que viram. Digo, pois, a vós que desejais conhecer a única paz verdadeira e alegria duradoura: vinde ao menino de Belém, nos dias posteriores o Varão de Dores, o sacrifício substitutivo pelos pecadores. Vinde, crianças pequenas, vós rapazes e moças, vinde; pois Ele também foi menino.
"O santo menino Jesus" é o Salvador das crianças, e ainda diz: "Deixai as crianças virem a mim, e não as impediais." Vinde aqui, vós donzelas, vós que ainda estais na manhã da vossa beleza, e como Maria, regozijai-vos em Deus vosso Salvador. A virgem O trouxe em seu seio, assim vinde vós e O trazei em vossos corações, dizendo: "A nós uma criança nasceu, a nós um filho é dado." E vós, homens na plenitude da vossa força, lembrai-vos de como José cuidou d'Ele, e com solícita reverência velou pelos Seus tenros anos; sede vós para a Sua causa como pai e auxiliador; consagrai a vossa força ao Seu serviço. E vós, mulheres de anos avançados, matronas e viúvas, vinde como Ana e bendizei ao Senhor por haverdes visto a salvação de Israel, e vós de cabelos brancos, que como Simeão estais prontos para partir, vinde e tomai o Salvador em vossos braços, adorando-O como o vosso Salvador e o vosso Tudo.
Vós pastores, vós de coração simples, vós que trabalhaís pelo pão de cada dia, vinde e adorai o Salvador; e não vos afasteis, vós homens sábios, vós que conheceis pela experiência e que por meditação penetrais nas verdades profundas, vinde vós e, como os sábios do Oriente, inclinai-vos profundamente diante da Sua presença, e fazei uma honra para vós honrar a Cristo o Senhor. Quanto a mim, o Deus encarnado é toda a minha esperança e confiança. Vi a religião do mundo em sua fonte, e o meu coração se encheu de náusea; volto a pregar, com a ajuda de Deus, ainda mais fervorosamente o evangelho, o simples evangelho do Filho do Homem.
Jesus, Mestre, tomo-Te para ser meu para sempre! Que todos nesta casa, pela rica graça de Deus, sejam levados a fazer o mesmo, e que todos sejam Teus, grande Filho de Deus, no dia da Tua aparição, por amor do Teu amor. Amém.