Chamarei a vossa atenção para a vizinhança próxima destas duas frases: "Não pelas obras" e "Criados em Cristo Jesus para as boas obras." O texto soa de modo singular; pois parece estranho ao ouvido que as boas obras sejam negadas como causa da salvação, e depois mencionadas como seu grande fim. Podeis classificá-lo entre o que os puritanos chamavam de "Paradoxos Ortodoxos", se quiserdes; embora não seja assunto tão difícil a ponto de merecer tal nome. Não faz muito tempo, procurei tratar o ponto de diferença suposta entre a doutrina da fé — "Crê, e serás salvo" — e a doutrina do novo nascimento e sua necessidade — "Necessário é que nasças de novo." Meu método foi este: não expliquei as dificuldades que aparecem para o lógico e o doutor em metafísica; mas procurei mostrar que, praticamente, não havia nenhuma.
Se tratarmos apenas das dificuldades que bloqueiam o caminho para a salvação, não há nenhuma. Quanto às questões que não envolvem nenhum obstáculo real, deixo-as onde estão. Uma rocha que não está no caminho de ninguém pode ficar onde está. Aquele que crê em Jesus já nasceu de novo.
Estas duas coisas são igualmente verdadeiras: deve haver uma obra do Espírito por dentro, mas aquele que crê no Senhor Jesus tem a vida eterna. Há uma contenda que sempre ocorre sobre a doutrina das boas obras; e em vez de tomar um lado ou outro, procuraremos ver se há realmente algo pelo que brigar, se permanecermos nas Escrituras. Insistimos, com toda a nossa força, que a salvação é "não pelas obras, para que ninguém se glorie." Porém, por outro lado, admitimos livremente, e ensinamos zelosamente, que "sem santidade ninguém verá o Senhor." Onde não há boas obras, não há habitação do Espírito de Deus. A fé que não produz boas obras não é fé salvadora; não é a fé dos eleitos de Deus; não é fé alguma no sentido bíblico.
Apenas tomei estes dois pontos para apresentá-los como ajuda e consolo para os principiantes. Não procuro instruir a vós que já sois bem ensinados; mas meu propósito neste momento é instruir os principiantes neste importante assunto. A salvação não é pelas obras; mas, ao mesmo tempo, nós, que somos sujeitos da graça divina, somos "criados em Cristo Jesus para as boas obras." Isso é claro para o crente iluminado; mas os bebês na graça têm olhos fracos e não conseguem perceber de imediato. Antes, na graciosa providência de Deus, Lutero foi levantado para pregar a doutrina da justificação pela fé, a noção comum entre as pessoas religiosas era que os homens deviam ser salvos pelas obras; e o resultado foi que, não conhecendo a raiz de onde brota a virtude, muito poucas pessoas tinham quaisquer boas obras de fato.
A religião decaiu de tal modo que se tornou uma mera questão de cerimônia vazia, ou de reclusão inútil; e, além disso, a superstição cobriu a verdade original do evangelho, de modo que mal se podia encontrá-la. O reinado da auto-justificação e do clericalismo não trouxe nenhum bom resultado sobre as massas das pessoas religiosas. Indulgências e perdões de pecados eram vendidos pelas ruas e publicamente leiloados. Cobrava-se tanto pelo perdão de um pecado, e tanto por outro, e o erário de "sua santidade" em Roma — que mais adequadamente se poderia chamar de "sua impiedade" — era preenchido com pagamentos por atenuação de penas num purgatório inventado por Roma. Lutero aprendeu do sagrado Volume, pelo Espírito do Senhor, que somos salvos somente pela graça mediante a fé; e, tendo-o descoberto, ficou tão possuído por essa única verdade que a pregou com voz de trovão.
Seu testemunho em um ponto era tão concentrado que seria demasiado esperar igual clareza sobre todas as outras verdades. Às vezes o comparo a um touro que fecha os olhos e vai direto ao único objeto que pretende derrubar. Com um impacto poderoso, ele derrubou os portões da superstição papal. Ele não via nada — não queria ver nada — exceto isto: "Pela graça sois salvos, mediante a fé." Fez um trabalho muito claro e bom neste ponto, embora defeituoso em certos outros.
Os ecos de sua voz viril ressoaram pelos séculos. Noto que quase todos os sermões dos ministros protestantes, por longo tempo depois de Lutero, versavam sobre a justificação pela fé; e qualquer que fosse o texto, de alguma forma traziam aquele artigo que faz a Igreja de pé ou caída. Raramente terminavam um sermão sem declarar que a salvação não é pelas obras, mas pela fé em Jesus Cristo. Não os censuro por um momento; antes os louvo — melhor demais do que de menos sobre a doutrina central do evangelho.
Os tempos precisavam que esse ponto fosse esclarecido a todos; e os pregadores reformadores o esclareceram. A justificação pela fé era o prego que precisava ser cravado e rebitado; e todos os seus martelos foram dirigidos a esse prego. Não eram nem de longe tão específicos e claros sobre muitas outras doutrinas quanto eram sobre esta; mas então era uma pedra fundamental, e eles estavam ocupados em colocá-la, e a colocaram, e a colocaram completamente, e para sempre. Ainda assim, teriam completado mais plenamente o círculo da verdade revelada se a santificação tivesse sido tão plenamente compreendida e claramente explicada quanto a justificação.
Teria sido melhor se as pernas do evangelho da Reforma fossem iguais, pois uma era um pouco mais comprida e um pouco mais forte do que a outra, e portanto havia uma claudicação — uma mancada como a de Israel vitorioso vindo de Jaboque — mas ainda assim uma mancada, que seria bom curar. Passamos além do estágio de nos demorarmos demais na doutrina cardeal, e muito receio que nos nossos tempos não haja pregação suficiente da justificação pela fé. Desejaria os tempos de Lutero de volta, e que os antigos trovões de Wittenberg pudessem ser ouvidos novamente; e ainda assim ficarei contente se tudo o que é prático no evangelho tiver também toda a sua esfera plena. Justiça imputada, por todos os meios; mas ouçamos também da justiça impartida; pois ambas são preciosas dádivas da graça.
Os deveres — digamos antes, os altos e sagrados privilégios — que nos vêm como filhos e servos de Deus — estes devem ser mantidos e plenamente pregados, lado a lado com a bendita verdade incorporada nestes versos: "Há vida num olhar para o Crucificado: há vida neste momento para ti." Trataremos, primeiro, do primeiro ponto do texto, que é este: "Não pelas obras", ou o caminho da salvação. "Não pelas obras" é uma descrição negativa, mas dentro do negativo está muito claramente o positivo. O caminho da salvação é por algo diferente de nossas próprias obras. Em segundo lugar, falarei sobre a caminhada da salvação.
Nós que somos salvos andamos em santidade; pois somos "criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que as praticássemos." É um decreto do Senhor soberano que os seus escolhidos sejam guiados a andar em santidade. Muitos fazem objeção a isso; mas nada podemos fazer; a Escritura é suficientemente clara. Diz-se-nos que não deveríamos, em nenhuma ocasião, permitir que as pessoas cantem: "Pecador, nada faças, nem grande nem pequeno; Jesus fez tudo, fez tudo, há muito, muito tempo." Grande objeção tem sido feita a essa expressão; mas creio que, se a mesma verdade tivesse sido expressa em outras palavras, a mesma objeção teria sido levantada, pois é a verdade que é objetada, e não as palavras em que está expressa.
O meu próprio texto seria, para tais pessoas, muito objetável — "Não pelas obras." Estão prontos para atacar Paulo por falar assim evangelicamente. Odeiam a doutrina da salvação toda como dádiva, e de forma alguma pelo mérito — doutrina que nós amamos. Pregamos a salvação "não pelas obras"; repetimos o ensino uma e outra vez, e pretendemos repeti-lo continuamente até morrermos. A salvação vem da misericórdia do Senhor, e não pelas obras da lei.
Se pregássemos que a salvação é pelas obras, agradaríamos a muita gente fina; mas como não sabemos que seria de todo bom para eles serem agradados, não mudaremos um único fio do nosso cabelo para agradá-los; muito menos reteremos ou explicaremos a verdade fundamental do evangelho de Jesus Cristo; e isso por diversas razões. Se pregássemos a pecadores mortos em transgressões e pecados que a salvação se daria pelas suas próprias obras, estaríamos deixando de lado o caminho da salvação pela graça. Não pode haver dois caminhos de salvação para as mesmas pessoas. Se tomamos um, praticamente negamos o outro.
Não pode ser questionado que um homem culpado, se for salvo de todo, deve ser salvo pela misericórdia de Deus. Também não pode ser negado que o nosso Salvador e os seus apóstolos ensinaram que somos salvos pela fé. Um homem deve fechar os olhos se não vir isso ser o ensino deles. Se, portanto, ensino aos homens que podem ser salvos pelas obras, praticamente lhes disse que a salvação pela graça é um mito, um erro, um equívoco prejudicial.
Eu a descartei; pois, como já disse, não pode haver dois caminhos para o céu: não pode haver mais de um. Se estabeleço o caminho das obras, fecho o caminho da graça. Se a salvação é pelo mérito, não é pela misericórdia. Mas se não há salvação dos homens pela pura misericórdia de Deus, em que triste situação nos encontramos!
Negar a graça é realmente negar a esperança. Onde, então, haveria qualquer evangelho, ou boas novas? O caminho da salvação pelas obras não é "novidade." É o velho caminho de invenção humana, que é o erro geral e bem conhecido de todas as épocas. Além disso, não são "boas novas," ou notícias alegres; pois não há nada de bom ou alegre nelas.
Que seremos recompensados pelas nossas obras não é mais do que o que os pagãos ensinavam. A justificação por desempenhos religiosos e atos meritórios não é nada melhor do que o velho farisaísmo com um nome cristão colado nele. Não vale a pena ser revelada pelo Espírito de Deus, pois se vê à luz da própria vela do homem. Essa doutrina torna o Senhor Jesus Cristo praticamente um ninguém; pois se a salvação é pelas obras, então o caminho da salvação pela fé num Salvador é supérfluo, e até mesmo prejudicial.
Em seguida, pregar o caminho da salvação pelas obras é propor aos homens um caminho pelo qual já falharam. Se deveis ser salvos pelas obras, deveis começar muito cedo: deveis começar antes de pecar, pois um único pecado decide o assunto. Mas já começastes a transgredir a lei de Deus. Não me dirijo a pessoas que ainda têm de começar o caminho, pois já começaram.
Já ides bem longe, de um jeito ou de outro; e uma vez que começastes pelo caminho das obras, que fracasso já fizestes! Há alguém aqui que pode afirmar ter sido salvo pelas obras até agora? Há alguém entre vós que esteve sem pecado? Examinai as vossas vidas; examinai as vossas consciências; observai as vossas palavras, os vossos pensamentos, as vossas imaginações, os vossos motivos; pois tudo isso entra na conta.
Há aqui um homem que faz o bem e não peca? A Escritura declara que "não há quem faça o bem, não há nem um." "Todos nós nos desviamos como ovelhas; cada um de nós se desviou para o seu próprio caminho." O caminho da salvação não pode, portanto, ser seguindo uma estrada da qual já nos desviamos tão pecaminosa e persistentemente. Se fosseis perfeitos como Adão era antes de pecar, poderíeis seguir o caminho das obras e estar seguros; mas não estais nessa condição. Se eu pudesse ser enviado a um Adão e uma Eva inteiramente não caídos, poderia lhes propor o caminho da salvação pela obediência à lei; mas vós caístes, e vossa natureza está inclinada a abandonar o caminho reto.
As próprias vestes que vestis mostram que descobristes a vossa vergonha. Os trabalhos diários que vos cansam provam que não estais no paraíso. A própria pregação do evangelho implica que estais num mundo pecaminoso. Não possuís uma vontade imparcial, ou inclinada para o bem: escolhestes o mal, e continuais a escolhê-lo; e portanto só vos estaria propondo uma estrada na qual já tropeçastes, e estaria estabelecendo uma tarefa na qual já fracastes.
E, em seguida, creio que será admitido por todos, que o caminho da salvação pelas boas obras seria evidentemente inadequado para um número considerável. Tomarei um caso. Sou chamado em emergência, e é alta madrugada. Um homem está morrendo, subitamente atingido pela ventania da morte.
Vou ao seu leito, conforme pedido. A consciência permanece; mas ele está evidentemente em agonia mortal. Levou uma vida ímpia, e está prestes a morrer.
Sou solicitado por sua esposa e amigos a lhe dizer uma palavra que o abençoe. Direi a ele que só pode ser salvo pelas boas obras? Onde está o tempo para as obras? Onde está a possibilidade delas? Quase enquanto falo, sua vida luta para escapar.
Ele olha para mim na agonia de sua alma e balbucia: "Que farei para me salvar?" Lerei a ele a lei moral? Explicarei os Dez Mandamentos e lhe direi que precisa guardar todos eles? Ele abanaria a cabeça e diria: "Os transgredi todos; sou condenado por todos eles." Se a salvação é pelas obras, que mais tenho a dizer?
De nada sou útil aqui. O que posso dizer? O homem está completamente perdido. Não há remédio para ele.
Como posso dizer-lhe o cruel dogma do "pensamento moderno" de que o seu próprio caráter pessoal é tudo? Como posso dizer-lhe que não há valor na crença, nenhum auxílio para a alma em olhar para outro — mesmo para Jesus, o Substituto? Não há sussurro de esperança para um homem moribundo na dura e pedregosa doutrina da salvação pelas obras. Se a salvação fosse pelas obras, o nosso Senhor não poderia ter dito ao ladrão, morrendo ao seu lado: "Hoje estarás comigo no paraíso." Esse homem não podia fazer obras.
Suas mãos e pés estavam pregados à cruz, e estava nas agonias da morte. Não, deve ser da graça, graça que tudo vence; e o modo de operá-la deve ser pela fé, ou então para os homens moribundos o evangelho é uma zombaria. O homem deve olhar e viver. O pecador que expira deve confiar no Salvador que expira.
Enquanto a vida escoa, o penitente deve encontrar vida na morte de Jesus. Não é claro que o evangelho das obras é inadequado num caso como esse? Ora, um evangelho que é inadequado para alguém não é o evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo. Sim, afirmo-o claramente.
Um evangelho que não serve a todos não serve a ninguém; e se serve a qualquer classe e condição realmente, deve servir a todas as classes. Creio ter-vos dito que, numa ocasião, recebi uma carta que pretendia ser muito irritante para mim, de algum cavalheiro aristocrático bastante eminente, que dizia ter lido alguns dos meus sermões quando estava na costa da África, e descobriu que certos negros ali — certos "pretos" — se deleitavam muito neles. Escreveu para me informar que eu era um pregador muito competente para "pretos." Aceitei a garantia imediatamente como um elogio muito elevado. Senti que, se podia pregar para "pretos", podia pregar para qualquer um; e que, se o evangelho que eu pregava era adequado para os nativos da costa da África, certamente serviria às pessoas em Londres; se os que estão longe podiam entendê-lo, vós, que estais perto, também podíeis entendê-lo.
O evangelho não foi enviado ao mundo para ser um medicamento patenteado que só poderia ser adquirido pelos ricos, ou uma fórmula que só poderia ser pronunciada por estudiosos de latim. É um evangelho para todas as categorias e condições dos homens; e se provar que o que chamais de evangelho é inadequado para os moribundos, ou é inadequado para os ignorantes, então não é o evangelho de Jesus Cristo. O evangelho da salvação pela graça, mediante a fé, é adequado para toda classe de pessoas com que temos de lidar. O hábito pecaminoso acorrentou em grilhões de ferro muitos dos nossos concidadãos, e o evangelho pode libertá-los.
Seja o hábito a embriaguez, a blasfêmia, ou o que for, o hábito os prende firmemente; e o profeta diz, sobre o hábito: "Pode um etíope mudar a sua pele, ou um leopardo as suas manchas? Também vós poderíeis fazer o bem, vós que estais acostumados a fazer o mal." A que propósito, então, clamo ao leopardo "Muda as tuas manchas", ou ao etíope "Muda a tua pele"? Devo trazer uma força superior a agir sobre o leopardo ou o etíope, antes que isso possa ser cumprido; e não há força na mera exortação. Podeis exortar um cego a ver o quanto quiserdes; mas ele não verá. Podeis exortar um morto a viver o quanto quiserdes; mas ele não viverá com a vossa exortação apenas.
É necessário algo mais. As forças da depravação natural e os hábitos adquiridos de pecado em muitos casos — creio que o admitireis — colocam a doutrina da salvação pelas obras fora de questão; e se fora de questão quanto a um, está fora quanto a todos; pois não pode haver senão um evangelho. Percorrei os vossos estabelecimentos penais; percorrei as vossas prisões; e vede o que podeis fazer com uma doutrina de salvação pelas boas obras. Voltareis desapontados, por mais fervente que seja o vosso discurso.
Mas ide lá, e falai da graça livre e do amor que morre, e do perdão comprado com sangue, e olhos que derramam lágrimas, confissões de pecado, e clamores por perdão vos dirão que não falastes em vão. Além disso, caros amigos, se formos pregar aos homens a salvação pelas obras, estaremos pregando-lhes um caminho de salvação impossível para todos por causa da perfeição da lei. Quais são as boas obras que podem merecer o céu? Quais são as boas obras que podem assegurar a vida eterna?
Estas não são as coisas fáceis que alguns parecem imaginar. Devem ser perfeitamente puras, contínuas e imaculadas. "A lei do Senhor é perfeita." Ela condena um pensamento, e até mesmo o olhar de um olho, como um ato criminoso. "Todo aquele que olhar para uma mulher com intenção impura já adulterou com ela no seu coração." A lei de Deus em dez mandamentos significa muito mais do que as palavras nuas implicariam: lida com toda a gama da condição moral, motivo e pensamento.
Não penseis que o seu alcance inclui apenas atos externos: inclui os externos, mas, de fato, os dez mandamentos são espirituais, penetram no coração e esquadrinham as partes internas do espírito. Quanto mais um homem entende a lei, mais se sente condenado por ela, e menos se entrega ao sonho de que, tal como é, alguma vez conseguirá mantê-la intacta. Com mãos tão sujas como as nossas, como podemos fazer um trabalho limpo? Com corações tão poluídos, como podemos ser "imaculados no caminho"?
A natureza não se eleva além da sua fonte, e o que sai do coração não será melhor que o coração, e este é "enganoso acima de tudo, e desesperadamente corrupto." A lei de Deus é uma; e se a transgredis em qualquer ponto, transgredis em tudo. Se numa corrente de cem elos, noventa e nove fossem perfeitos; ainda assim, se um único elo, em qualquer parte da corrente, fosse demasiado fraco para o peso sobre ele colocado, a carga cairia ao chão tão certamente como se vinte elos estivessem partidos. Uma única transgressão da lei perfeita de Deus envolve transgressão contra ela como um todo. Para ser salvo pelas obras, é necessária uma obediência absolutamente perfeita e continuamente perfeita a ela, em pensamento, palavra e ato; e essa obediência deve ser prestada alegremente e de coração, pois esta é a essência da primeira tábua — "Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força." Podeis guardar isso?
Homem vaidoso, já medistes a vossa força moral em face de exigências tão grandes, e ao mesmo tempo tão justas? Até agora provaste ser igual à tarefa? Esta é a essência da segunda tábua — "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Já tentastes fazer isso — amar o vosso próximo como a vós mesmos? Fostes um pouco bondosos, e às vezes generosos; mas o padrão de amar o vosso próximo como a vós mesmos — chegastes a ele alguma vez?
Acaso a vossa caridade foi igual ao vosso amor-próprio? Não acredito que tenha chegado sequer à metade do caminho. Ora, "tudo o que a lei diz, diz aos que estão sob a lei"; e se ela diz tudo isto a vós, e não podeis responder às suas exigências, como podeis esperar que vivereis por ela? Quando um homem falha em guardar a lei, ela o condena; e a sua penalidade — em outras palavras, a sua maldição — recai sobre ele como algo que lhe é justamente devido.
Aquele que está sob a lei está sob a maldição. Tudo o que a lei tem a dizer a vós é: "Tu a transgrediste; e deves morrer por isso." Lede as maldições escritas no livro de Deuteronômio, e lembrai-vos de que todas elas são pronunciadas sobre a vossa cabeça. "Olhai para as chamas que Moisés viu, e estremecei, tremei e desesperai." E ainda, caros amigos, se pregamos a salvação pelas obras, desviaremos a mente dos homens de um senso da sua grande necessidade. Aqui está uma pessoa que tem uma doença terrível.
Ela pode ser curada. O bisturi deve ser usado; mas se, em vez disso, eu estabelecer para ela regras de limpeza e de higiene geral, posso fazer-lhe algum tipo de bem; mas enquanto isso, ela negligenciará o principal mal, a sua doença se alastrará e se tornará fatal. O que devo fazer, se sou cirurgião? Não devo impressioná-la, primeiro, com a convicção de que uma operação séria é necessária, e que deve ser submetida?
Todo o resto será adequado, e até necessário, no devido tempo; mas não devo fazer nada para desviar sua mente do grande mal principal que está destruindo a sua vida. Ao pecador deve ser dito que precisa nascer de novo, que sua natureza é corrupta, que essa natureza corrupta deve ser destruída, que uma nova natureza deve ser criada nele: para isso a sua mente deve ser dirigida. Ele deve ser feito uma "nova criatura" em Cristo Jesus; e se o estimulo à ação externa, com vistas à sua salvação por ela, desviarei os seus pensamentos do mal interior do pecado, que é a própria essência do assunto. Oh, senhores, se houvésseis cometido uma ofensa contra o governo de vosso país, e fosseis considerados culpados e condenados a morrer, o meu primeiro dever para convosco seria implorar-vos que pedísseis o perdão.
Poderia vir à vossa cela e dizer que desejaria que vós estivésseis vestidos com mais decência; que lesseis tal livro, ou aprendêsseis tal ciência; e isso tudo poderia estar muito bem; mas a primeira coisa que precisais é ter a sentença de morte revogada. Exortar-vos-ei, meus caros ouvintes, a fazer tudo o que é honesto, e reto, e bom; mas há algo de que precisais ainda mais do que isso. Precisais ser limpos do pecado pelo precioso sangue de Cristo. Precisais ser renovados no coração pelo Espírito Santo, e deveis voltar os vossos pensamentos para essas coisas.
Precisais primeiro e acima de tudo do Senhor Jesus. Olhai para ele, eu vos suplico. Não ousaria exortar-vos a esta obra, ou àquela, com receio de desviar a vossa mente de Cristo. A pregação da justificação legal não tem poder sobre os homens.
As congregações assim instruídas costumam ser despreocupadas, mundanas e dedicadas a diversões carnais. Os que ouvem sobre obras sentem como se já tivessem feito o suficiente, e não precisassem praticá-las. Não há nada em tal doutrina para despertar ansiedade, ou mover o desejo, ou agitar as profundezas da alma. Não tem nada de divino, nada de sobrenatural, nada que possa realmente elevar os caídos, animar os fracos ou inspirar os graciosos.
Sem unção, vida ou fogo, um ministério legal é mera música para homens coxos, ou apresentação de um curso de ação viva para uma abóbada cheia de cadáveres. Este ponto conhecemos como fato, e portanto não repetiremos o experimento. Receio que, se começássemos a pregar a salvação pelas obras, encorajaríamos o orgulho em alguns e criaríamos desespero em outros. Muitos pensariam que se saíram razoavelmente bem, em comparação com outras pessoas; portanto, rapidamente se envolveriam numa esperança falsa.
Mas outros, sabendo que não se saíram bem em comparação com outras pessoas, pensariam que não havia esperança para eles, e assim se sentariam no desespero. Que propósito prático poderia servir isso — tornar alguns mais orgulhosos, e outros mais perversos, através da influência do desespero sobre eles? Mas o pior de tudo é que os afastaria de Jesus. Nosso trabalho, irmãos, é elevar o Senhor Jesus Cristo.
Para que fim ele morreu, se os homens podem ser salvos por suas próprias obras? Seria supérfluo que ele pendesse na cruz se os nossos próprios méritos podem abrir um caminho de salvação. Como poderia o grande Deus permitir e até ordenar tal morte se pudéssemos ser salvos pelos nossos próprios méritos? Por que aquele suor de sangue?
Por que aquela pregação das mãos e dos pés? Por que aquele "Eli, Eli, lamá sabactâni?" se por vós mesmos podeis ser salvos? Mas não é assim. Não podeis salvar-vos a vós mesmos por esforços próprios, e daí termos de vir a vós, fechando-vos a esta única coisa — que deveis ser salvos pela fé naquele a quem Deus designou para ser uma propiciação pelo pecado.
Precisais do amor de Deus; precisais do poder do Espírito Santo; precisais ser vivificados para uma nova vida; precisais ser ajudados a correr nos caminhos da justiça: numa palavra, precisais de tudo até que venhais a Cristo, e tudo o que precisais encontrareis nele, e somente nele. Em vós mesmos não há nada de que precisais. Podeis procurar, olhar, e revirar o monte de lixo de vossa natureza de um lado para o outro, mas nunca encontrareis aí a joia da salvação. Essa pérola de grande preço está no Senhor que assumiu a natureza humana, e viveu, e amou, e morreu, e ressurgiu, para redimir os homens da queda e de todo pecado consequente.
Oh, que vos afastásseis de vós mesmos de uma vez para sempre! Deus não permita que o pregador algum dia apresente a vós qualquer coisa além do Salvador crucificado, como Moisés levantou a serpente no deserto, mandando os homens olharem e viverem. Falar a homens incrédulos sobre a possibilidade da salvação pelas suas próprias obras os afastaria da vida eterna. Tudo o que a vida da natureza pode fazer nunca servirá para produzir uma natureza superior.
Deixai o natural exercitar-se ao máximo que quiser, nunca se elevará ao espiritual. O melhor cavalo de trabalho não se torna com isso um homem: o homem não regenerado que melhor vive não pode com isso tornar-se regenerado. Deve haver um novo nascimento; e esse vem pela fé, e não pelas obras. Crer em Jesus é a porta de entrada da nova vida, e não há outra entrada.
Se de alguma forma vos pussérmos a caçar outro caminho, faremos com que percais a única entrada, e isso será para a perda eterna de vossa alma. Como tememos isso, cada vez mais resolvemos erguer a cruz, e somente a cruz, e outra vez e outra vez clamamos: "Crei no Senhor Jesus Cristo, e sereis salvos." Deus não permita que, por nossos ensaios sobre virtude ou o "entusiasmo da humanidade", vos distraíamos de correr ao Senhor Jesus para que ele vos dê descanso, vida e santidade! Queremos que os vossos pensamentos corram todos para o Calvário, e para aquela pessoa maravilhosa, cujas feridas na madeira sangram cura para as feridas do pecado, e cuja morte é, para os crentes, a morte do grande poder maligno que outrora os mantinha em cativeiro. Assim muito sobre um tema que nunca gastaremos, e sobre o qual continuaremos a insistir enquanto houver vida ou fôlego, porque sempre será necessário enquanto houver pecadores na terra precisando de salvação.
Mas agora chegamos a esta segunda parte importantíssima do assunto, a saber, a caminhada da salvação. Os que creram em Cristo, e foram sujeitos da obra do Espírito, são agora "criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que as praticássemos." Deus deseja que o seu povo abunde em boas obras. É o seu grande objetivo produzir um povo apto para comungar consigo: um povo santo, com quem possa ter comunhão no tempo e na eternidade.
Ele deseja que não apenas produzamos boas obras, mas que abundemos nelas; e que abundemos nas de mais alta ordem. Quer que nos tornemos imitadores de si mesmo como filhos amados, possuindo os mesmos atributos morais que o Pai nos céus possui. Não está escrito: "Sede perfeitos, como o vosso Pai, que está nos céus, é perfeito"? Oh, que chegássemos a uma distância mensurável deste bem-aventurado cumprimento!
Notai no texto, primeiro, que há uma nova criação. Um dos poetas disse antigamente que "um homem honesto é a mais nobre obra de Deus." Isso não é verdade, a menos que coloquemos na palavra "honesto" um sentido espiritual enfático. Um homem cristão, porém, é a mais nobre obra de Deus. Ele é o produto da segunda criação.
De início o homem caiu e estragou a obra do seu Criador; mas, na nova criação, aquele que faz todas as coisas nos refaz. Ora, o objetivo da nova criação de nossa raça é a santidade para a glória de Deus. Não sois recriados à imagem do Adão caído, mas à semelhança do segundo Adão. Não sois recriados para pecar — isso não pode ser imaginado.
A nova criatura não peca, pois é nascida de Deus. A nova vida é uma semente viva e incorruptível, que vive e permanece para sempre. A natureza velha peca, e sempre pecará; mas a nova vida é de Deus, e luta diariamente contra o pecado da natureza velha, e persevera, e avança em direção a tudo o que é santo, reto e perfeito. Os seus instintos correm todos para a santidade perfeita.
A natureza velha não tem vontade de orar; mas a natureza nova ora tão facilmente como respiramos. A natureza velha murmura, mas a natureza nova canta e louva a Deus a partir de um impulso interior. A natureza velha vai após a carne, pois é carnal; mas a natureza nova busca as coisas do Espírito, pois é espiritual. Se em alguma medida nascestes de novo, nascestes para a santidade.
Se fostes recriados, fostes criados para as boas obras. Se não for assim conosco, a nossa religião é mera aparência. Esta nova criação está em conexão com Cristo, pois lemos no texto: "Criados em Cristo Jesus." Somos os ramos; ele é a Videira de onde crescemos. Vossa vida, e todo o vosso poder de dar fruto, estão na vossa união com Cristo.
Não sois meramente recriados, mas criados em Cristo Jesus. Não é meramente uma mudança de uma natureza inferior para uma superior, mas da separação de Cristo para a união com ele. Que coisa maravilhosa é esta — que vós e eu não sejamos apenas criaturas no mundo, mas novas criaturas em Cristo Jesus! Criaturas éramos no primeiro Adão; mas a nossa nova-criaturalidade está no segundo Adão.
Amados, se sois o que professais ser, estais unidos a Jesus por aquela união vital que não pode ser dissolvida; e as boas obras seguem aquela união. Unidos a Jesus pela fé nele, pelo amor a ele e pela imitação dele, andais em boas obras. Vossa criação para a santidade é a vossa criação em Cristo Jesus. Ao tornar-vos um com o Salvador ungido, a sua unção vos ordena para o serviço, e a sua salvação vos conduz à obediência.
Não pode deixar de haver fruto naquele ramo que está vitalmente unido a aquele tronco frutífero, Cristo Jesus, que sempre fez as coisas que agradavam ao Pai. As nossas boas obras devem fluir da nossa união com Cristo em virtude da nossa fé nele. Dependemos dele para nos tornar santos. Dependemos dele para nos manter santos.
Vencemos o pecado pelo sangue do Cordeiro. Alcançamos a santidade pelo amor constrangedor de Jesus. O amor a Cristo é a causa impulsionadora de afastarmos, primeiro um mal, e depois outro; e a energia que nos habilita a buscar uma virtude, e depois outra. O amor a Cristo arde como um fogo no peito que o concebeu; e, ao arder, faz o coração brilhar e transformar-se à sua própria natureza.
Já vistes um pedaço de ferro colocado no fogo, todo negro ou enferrujado, e no fogo ele foi gradualmente se tornando vermelho com o calor; e ao ir se tornando vermelho, jogou fora as escamas de ferrugem, até que por fim pareceu ser ele mesmo uma massa de fogo. O efeito do amor de Deus, derramado no coração pelo Espírito Santo, é queimar a ferrugem e as escamas do pecado e da depravação, e nos tornamos amor puro a Deus através da força do amor de Deus, que toma posse do nosso ser. Além disso, aquele amor nos move à paciente imitação de Cristo. Sabeis o que isso significa?
"A Imitação de Cristo" é um livro maravilhoso sobre o assunto, que todo cristão deve ler. Tem as suas falhas, mas as suas excelências são muitas. Que não apenas leiamos o livro, mas que o escrevamos de novo em nossa própria vida e caráter, procurando em tudo ser como Jesus! É uma boa coisa pendurar em vossa casa a pergunta: "O que faria Jesus?" Ela responde a nove de cada dez das dificuldades da casuística moral.
Quando não sabeis o que fazer, e a lei não parece muito explícita sobre o assunto, colocai-o assim — "O que faria Jesus?" Aqui, então, está o caso: pela vossa criação em Cristo chegais a manifestar fé nele, amor a ele e imitação dele; e todos estes são os meios pelos quais as boas obras são produzidas em vós. Sois "criados em Cristo Jesus para as boas obras." Notai que a criação para estas boas obras é objeto de um decreto divino: "as quais Deus preparou de antemão para que as praticássemos." Este é o decreto de Deus. Sou ordenado para a vida eterna? Respondei a outra pergunta: "Sou ordenado a andar em boas obras?" Se sou ordenado para as boas obras, então ando nelas, e o decreto de Deus é manifestamente cumprido em mim.
Mas se faço profissão de ser cristão, frequento um lugar de culto e me congratulo pela minha segurança, enquanto vivo no pecado, então evidentemente não há nenhum decreto de que eu ande em boas obras, pois estou vivendo de modo diferente do que esse decreto teria me feito viver. Oh, amados, é o propósito eterno de Deus tornar o seu povo santo! Concordai com esse propósito, com a liberdade de vossa vontade renovada, e com o deleite do vosso coração regenerado! Concordai com a vontade de Deus.
Sim, ardentemente desejais, veementemente anelais pela santidade perfeita no temor de Deus. Então podeis, no meio de lutas severas contra a tentação de fora e de dentro, recuar sobre o decreto da predestinação. Uma vez que é o decreto de Deus que eu, como nova criatura em Cristo, esteja cheio de boas obras, assim serei, apesar da minha natureza velha, e apesar da minha fraqueza espiritual. O decreto, na nova criatura de Deus, será cumprido apesar das minhas circunstâncias, apesar das tentações da minha situação, apesar da oposição do diabo.
Deus preparou de antemão que andássemos em boas obras; e nelas andaremos, sustentados pelo seu Espírito Santo. Assim, então, caros amigos, estas boas obras devem estar no cristão. Não são a raiz, mas o fruto da sua salvação. Não são o caminho para a salvação do crente; são o seu andar no caminho da salvação.
Onde há vida saudável numa árvore, a árvore dará fruto segundo a sua espécie; assim, se Deus tornou boa a nossa natureza, o fruto será bom. Mas se o fruto for mau, é porque a árvore é o que sempre foi — uma árvore má. O desejo dos homens recriados de novo em Cristo é livrar-se de todo pecado. Pecamos, mas não amamos o pecado.
O pecado às vezes adquire poder sobre nós para a nossa tristeza, mas é uma espécie de morte para nós sentirmos que caímos no pecado; ainda assim ele não terá domínio sobre nós, pois não estamos sob a lei, mas sob a graça; e portanto o venceremos e obteremos a vitória. O resultado da nossa união com Cristo deve ser a santidade. "Que consonância tem Cristo com Belial?" Que união pode ele ter com homens que amam o pecado? Como podem os que são do mundo, que amam o mundo, ser ditos membros do Cabeça que está no céu, na perfeição da sua glória?
Irmãos, devemos, no poder do texto, e especialmente no poder da nossa união com Cristo, procurar fazer avanços diários nas boas obras, que Deus preparou de antemão para que andássemos nelas; pois andar significa não apenas perseverar, mas avançar. Devemos ir de força em força na santidade: devemos fazer mais e melhor. Que estais fazendo por Jesus? Fazei o dobro.
Se estais espalhando o conhecimento do seu nome, trabalhai com ambas as mãos. Se vivendo com retidão, procurai afastar quaisquer resquícios de pecado que permaneçam no vosso caráter, para glorificar o nome de Deus ao máximo. E, por último, este deve ser o nosso exercício diário: "que andássemos nelas." As boas obras não devem ser um divertimento, mas uma vocação. Não devemos nos entregar a elas ocasionalmente: devem ser o teor e o pendor de nossas vidas.
"Oh," diz alguém, "isso é um dito difícil." Dizeis isso? Bem, então, isso revela e coloca em clara luz a primeira parte do meu assunto. Vedes como é impossível que sejais salvos por essas boas obras; não vedes? Mas se sois salvos — se obtivestes uma salvação presente, se agora sois filho de Deus, se agora estais seguros da vossa segurança — vos rogo, pelo amor que tendes a Deus, pela gratidão que tendes ao seu Cristo, dedicai-vos inteiramente a tudo o que é reto, e bom, e puro, e justo.
Apoiai tudo o que tem a ver com temperança, e justiça, e verdade, e piedade; e "deixai a vossa luz brilhar assim diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus." Que o Espírito de Deus sele este sermão nos corações do seu povo, por amor de Cristo! Amém.