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SERMÃO 78

"Supondo-o ser o Jardineiro"

João 20:15
"Supondo que era o jardineiro." — João 20:15

Há cerca de duas semanas, eu estava sentado num jardim mui formoso, em meio a toda sorte de flores que desabrochavam em deliciosa abundância ao meu redor. Abrigando-me do ardor do sol sob as ramas pendentes de uma oliveira, lançava os olhos sobre palmeiras e bananeiras, rosas e camélias, laranjeiras e áloes, lavanda e heliotropo. O jardim estava pleno de cor e beleza, perfume e fertilidade. Com certeza, o jardineiro, quem quer que fosse, que havia traçado, formado e conservado em ordem aquele lugar encantador, merecia grande louvor. Assim pensei, e então me ocorreu meditar sobre a Igreja de Deus como um jardim, e supor que o Senhor Jesus fosse o jardineiro, e depois refletir sobre o que mais seguramente aconteceria se assim fosse. "Supondo-o ser o jardineiro," minha mente concebeu um paraíso onde todas as coisas boas florescem e todas as coisas malignas são arrancadas pela raiz. Se um trabalhador comum havia produzido tanta beleza como a que então via e desfrutava na terra, que bondade e glória não serão produzidas "supondo-o ser o jardineiro"! Sabeis a quem nos referimos com o "ele" — o Filho de Deus eternamente bendito, a quem Maria Madalena, em nosso texto, tomou por erro como o jardineiro. Seguiremos por ora uma santa em sua trilha equivocada; e, contudo, nos encontraremos indo pelo caminho certo. Ela errou ao cair em "supondo-o ser o jardineiro"; mas se estivermos sob o ensinamento do Seu Espírito, não cometeremos erro algum se agora nos permitirmos uma quieta meditação sobre o nosso Senhor eternamente bendito, "supondo-o ser o jardineiro."

Não é uma suposição antinatureza, com certeza; pois se podemos verdadeiramente cantar "Somos um jardim murado, escolhido e feito terreno peculiar," esse cercado tem necessidade de um jardineiro. Não somos todos plantas do plantio de Sua destra? Não necessitamos todos de ser regados e tratados pelo Seu cuidado constante e gracioso? Ele diz: "Eu sou a videira verdadeira; meu Pai é o lavrador," e essa é uma perspectiva da questão; mas podemos também cantar: "O meu amado tem uma vinha num outeiro muito fértil; e a cercou, e limpou de pedras, e a plantou de vides escolhidas" — isto é, ele agia como jardineiro para ela. Assim nos ensinou Isaías a cantar um cântico do Bem-amado acerca da sua vinha. Lemos de nosso Senhor ainda sob estes termos: "Tu que habitas nos jardins, os companheiros escutam a tua voz." Para que propósito habita ele nas vinhas senão para ver como as videiras prosperam e cuidar de todas as plantas? A imagem, digo eu, está longe de ser antinatural; ao contrário, é a mais prenhe de sugestões e repleta de ensinamento útil. Não vamos contra as harmonias da natureza quando estamos "supondo-o ser o jardineiro."

Tampouco a figura é não-escriturística; pois numa de suas próprias parábolas nosso Senhor se faz o tratador da vinha. Lemos agora mesmo aquela parábola tão cheia de advertência. Quando o "certo homem" entrou e viu a figueira que não dava fruto, disse ao tratador de sua vinha: "Corta-a; para que ocupa ela inutilmente a terra?" Quem foi que se interpôs entre aquela árvore improfícua e o machado senão o nosso grande Intercessor e Interpositor? É ele quem constantemente avança com "Deixa-a ainda este ano também, até que eu a cave ao redor e a esterque." Neste caso, ele mesmo assume o caráter de tratador da vinha, e não erramos ao "supor-o ser o jardineiro."

Se buscarmos o suporte de um tipo, nosso Senhor recebe o nome de "o segundo Adão," e o primeiro Adão era um jardineiro. Moisés nos conta que o Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para o cultivar e guardá-lo. O homem em seu estado mais nobre não devia viver neste mundo num paraíso de luxo indolente, mas num jardim de trabalho recompensado. Eis que a Igreja é o Éden de Cristo, regado pelo rio da vida, e tão fertilizado que toda sorte de frutos é produzida para Deus; e ele, o nosso segundo Adão, caminha neste Éden espiritual para o cultivar e guardá-lo; e assim, por um tipo, vemos que estamos certos ao "supor-o ser o jardineiro." Também Salomão assim pensou nele quando descreveu o real Noivo descendo com sua esposa ao jardim quando as flores apareciam na terra e a figueira havia lançado os seus figos verdes; ele saiu com a sua amada para a preservação dos jardins, dizendo: "Apanhai-nos as raposas, as raposinhas, que estragam as vinhas; porque as nossas vinhas estão em flor."

Nem a natureza, nem a Escritura, nem o tipo, nem o cântico nos proíbem de pensar em nosso adorável Senhor Jesus como alguém que se preocupa com as flores e frutos da Sua Igreja. Não erramos quando falamos dele, "supondo-o ser o jardineiro." E assim me assentei tranquilo e me permiti a sugerida linha de pensamento, que agora repito ao vosso ouvido, esperando poder abrir muitas estradas de meditação também para os vossos corações. Não tentarei pensar exaustivamente tal assunto, mas apenas indicar em que direção podeis olhar para encontrar uma veia de minério precioso.

I. A CHAVE PARA MUITAS MARAVILHAS

"Supondo-o ser o jardineiro," temos aqui A CHAVE PARA MUITAS MARAVILHAS no jardim da Sua Igreja.

A primeira maravilha é que haja uma Igreja de modo algum no mundo; que haja um jardim florescendo no meio deste ermo estéril. Sobre uma rocha dura e pedernosa o Senhor fez crescer o Éden da Sua Igreja. Como veio a ser — aqui um oásis de vida num deserto de morte? Como veio a fé no meio da incredulidade, e a esperança onde tudo é temor servil, e o amor onde o ódio abunda? "Vós sois de Deus, filhinhos, e o mundo inteiro jaz no maligno." Donde vem esse ser "de Deus" onde tudo o mais está fechado na posse do diabo? Como veio a existir um povo para Deus, separado, e santificado, e consagrado, e ordenado a produzir fruto para o Seu nome? Com certeza isso jamais poderia ter sido se a sua realização houvesse sido deixada ao homem. Entendemos a sua existência "supondo-o ser o jardineiro," mas nada mais pode dar conta dela. Ele pode fazer a figueira florescer em lugar do espinheiro, e a murta em lugar do cardamo; mas ninguém mais pode realizar tal mudança. O jardim em que eu estava sentado foi feito sobre a face nua da rocha, e quase toda a terra de que eram compostos os seus terraços havia sido carregada até lá, da praia abaixo, por trabalho árduo, e assim sobre a rocha havia sido criado um solo. Não era pela sua própria natureza que o jardim se encontrava em tal lugar; mas por habilidade e trabalho havia sido formado: assim também a Igreja de Deus teve de ser construída pelo Senhor Jesus, que é o autor assim como o consumador do Seu jardim. Painosamente, com mãos feridas, ele edificou cada terraço, e formou cada canteiro, e plantou cada planta. Todas as flores tiveram de ser regadas com o Seu suor de sangue, e vigiadas pelos Seus olhos lacrimosos — as marcas dos pregos em Suas mãos e a ferida em Seu lado são os sinais do que lhe custou fazer um novo Paraíso. Ele deu a Sua vida pela vida de cada planta que está no jardim, e nem uma delas estaria lá com base em qualquer outra teoria além de "supondo-o ser o jardineiro."

Além disso, há outra maravilha. Como floresce a Igreja de Deus em tal clima? O presente mundo mau é muito hostil ao crescimento da graça, e a Igreja não é capaz por si mesma de resistir às influências malignas que a cercam. A Igreja contém em si mesma elementos que tendem à sua própria desordem e destruição se deixada a si mesma; assim como o jardim tem presentes no seu solo todos os germes de uma emaranhada moita de ervas daninhas. A melhor Igreja que Cristo jamais teve na terra dentro de poucos anos apostataría da verdade se abandonada pelo Espírito de Deus. O mundo jamais auxilia a Igreja; está todo em armas contra ela; não há nada no ar ou no solo do mundo que possa fertilizar a Igreja nem no mínimo grau. Como é, então, que a despeito de tudo isso a Igreja é um belo jardim para Deus, e há doces especiarias crescendo nos seus canteiros, e lindas flores são colhidas pela mão Divina das suas bordas? A continuidade e prosperidade da Igreja só pode ser explicada "supondo-o ser o jardineiro." Força onipotente é aplicada à obra outrora impossível de sustentar um povo santo entre os homens; sabedoria onipotente se exercita sobre esta dificuldade outrora insuperável. Ouvi a palavra do Senhor, e aprendei daí a razão para o crescimento de Sua Igreja abaixo: "Eu, o Senhor, a guardo; de momento em momento a regarei; para que ninguém a ofenda, de noite e de dia a guardarei." Eis a razão para a existência de um povo espiritual ainda no meio de uma geração ímpia e perversa. Eis a razão para uma eleição de graça no meio do vício, da mundanidade e da incredulidade circundantes. "Supondo-o ser o jardineiro," posso ver por que deve haver fecundidade, e beleza, e doçura até no centro do deserto do pecado.

Outro mistério também é esclarecido por esta suposição. A maravilha é que alguma vez vós e eu tenhamos sido colocados entre as plantas do Senhor. Por que nos é permitido crescer no jardim da Sua graça? Por quê eu, Senhor? Por quê eu? Como é que fomos mantidos ali, e suportados na nossa esterilidade, quando há muito poderia ter dito: "Corta-a; para que ocupa ela inutilmente a terra?" Quem mais teria suportado uma rebeldia como a nossa? Quem poderia ter manifestado tão infinita paciência? Quem poderia ter nos tratado com tal cuidado, e quando o cuidado era tão mal recompensado, quem teria o renovado por tanto tempo de dia em dia, e persistido em desígnios de amor sem limites? Quem poderia ter feito mais por Sua vinha? Quem poderia ou quereria ter feito tanto? Um mero homem teria se arrependido de seu bom intento, provocado pela nossa ingratidão. Ninguém além de Deus poderia ter tido paciência com alguns de nós! Que não tenhamos há muito sido desprendidos como ramos infrutíferos da videira; que ainda sejamos mantidos no tronco, na esperança de que possamos afinal dar fruto, é uma grande maravilha. Não sei como é que fomos poupados, exceto com base nisto — "supondo-o ser o jardineiro" — pois Jesus é todo gentileza e graça, tão lento com a Sua faca, tão tardio com o Seu machado, tão esperançoso se mostramos um botão ou dois, ou quiçá produzimos uma pequena baga azeda — tão esperançoso, digo eu, de que estas possam ser prognósticos promissores de algo melhor mais tarde. Paciência infinita! Longanimidade imensurável! Onde sereis encontradas senão no peito do Bem-amado? Com certeza a enxada poupou muitos de nós simplesmente e somente porque Aquele que é manso e humilde de coração é o jardineiro.

Amados irmãos, há uma misericórdia com relação a esta Igreja pela qual muitas vezes tenho rendido graças a Deus, a saber, que males deveriam ter sido mantidos afastados por tão longo tempo. Durante o período em que temos estado juntos como pastor e povo, que é agora de cerca de vinte e nove anos, temos desfrutado de prosperidade ininterrupta, indo de força em força na obra do Senhor. Ai de nós! temos visto muitas outras igrejas que eram tão promissoras quanto a nossa desgarradas pela contenda, humilhadas pela decadência, ou derrubadas pela heresia. Espero que não tenhamos sido propensos a julgar os seus erros com severidade; mas devemos ser gratos pela nossa própria libertação dos males que as afligiram. Não sei como é que temos sido mantidos juntos no amor, ajudados a abundar no trabalho, e habilitados a sermos firmes na fé, a não ser que uma graça especial haja vigiado sobre nós. Estamos cheios de falhas; nada temos de que nos gloriar; e no entanto nenhuma Igreja foi mais divinamente favorecida: maravilha-me que a bênção haja durado tanto, e não consigo explicá-la exceto quando caio em "supondo-o ser o jardineiro." Não posso atribuir a nossa prosperidade ao pastor, com certeza; nem mesmo aos meus amados irmãos presbíteros e diáconos, nem sequer ao melhor de vós com o vosso amor fervoroso e vosso zelo santo. Penso que deve ser que Jesus haja sido o jardineiro, e que fechou o portão quando receio que o tenha deixado aberto; e expulsou o javali do mato bem quando havia entrado para arrancar pela raiz as plantas mais fracas. Deve ter andado à noite para afastar os ladrões que rondavam, e deve ter estado aqui também no calor do meio-dia para guardar aqueles de vós que prosperaram em bens mundanos, do brilho de um sol excessivamente ardente. Sim, ele tem estado conosco, bendito seja o Seu nome! Daí vêm toda esta paz, e unidade, e entusiasmo. Que jamais o aflijamos de tal modo que Ele se aparte de nós; antes supliquemos a ele, dizendo: "Permanece connosco. Tu que habitas nos jardins, faz deste um dos jardins nos quais te deignas habitar até que o dia appareça e as sombras fujam." Assim a nossa suposição é uma chave para muitas maravilhas.

II. UM ESTÍMULO PARA MUITOS DEVERES

Deixai que as vossas imaginações corram junto com a minha enquanto eu digo que "supondo-o ser o jardineiro" deve ser UM ESTÍMULO PARA MUITOS DEVERES.

Um dos deveres de um cristão é a alegria. Abençoada é aquela religião que entre seus preceitos manda os homens ser felizes. Quando a alegria se torna um dever, quem desejaria negligenciá-la? Com certeza deve ajudar cada pequena planta a absorver a luz solar quando se sussurra entre as flores que Jesus é o jardineiro. "Oh," dizeis, "sou uma plantinha tão pequena; não cresço bem; não apresento tanta folhagem, nem há tantas flores em mim como em muitas ao meu redor!" É muito certo que penseis pouco de vós mesmos: talvez inclinar a cabeça faça parte da vossa beleza — muitas flores não seriam nem metade tão encantadoras se não houvessem praticado a arte de inclinar as suas cabeças. Mas "supondo-o ser o jardineiro," então ele é tanto jardineiro para vós como é para a mais majestosa palmeira de todo o domínio. No jardim de Mentone, bem diante de mim, cresciam a laranjeira e o aloé, e outras das plantas mais nobres e notáveis; mas numa parede à minha esquerda cresciam cheiros-de-murta comuns e saxífragas, e pequenas ervas como as que encontramos nos nossos próprios lugares rochosos. Ora, o jardineiro havia cuidado de todas elas, das pequenas como das grandes; na verdade, havia centenas de espécimes das criações mais insignificantes, todas devidamente rotuladas e descritas. A menor saxífraga podia dizer: "Ele é o meu jardineiro tão certamente como é o jardineiro da Gloire de Dijon ou do Maréchal Neil." Ó filho fraco de Deus, o Senhor cuida de ti! O vosso Pai celestial alimenta os corvos e guia o voo dos pássaros: não cuidaria ele muito mais de vós, ó homens de pequena fé? Ó pequenas plantas, crescereis bem o suficiente. Talvez estejais crescendo agora para baixo em vez de para cima. Lembrai que há plantas de que valorizamos muito mais a raiz subterrânea do que o tronco acima do solo. Talvez não seja para vós crescer muito depressa; podeis ser por natureza um arbusto de crescimento lento, e não seríeis saudáveis se corresseis para o galho. De qualquer modo, seja esta a vossa alegria — estais no jardim do Senhor, e, "supondo-o ser o jardineiro," ele tirará o melhor de vós. Não podeis estar em melhores mãos.

Outro dever é o de valorizar a presença do Senhor, e orar por ela. Devemos, sempre que a manhã do sábado amanhecer, orar a nosso Bem-amado que venha ao Seu jardim e coma os Seus frutos agradáveis. Que podemos nós fazer sem ele? Todo o dia longo o nosso clamor deve subir a ele: "Ó Senhor, olha e visita esta vide, e a vinha que a tua destra plantou." Devemos suplicar ardentemente que venha e se manifeste a nós como não se manifesta ao mundo. Pois que é um jardim se o jardineiro nunca se aproxima dele? Qual a diferença entre ele e o deserto se aquele a quem pertence jamais levanta a pá ou a podadeira sobre ele? De modo que é nossa necessidade ter Cristo connosco, "supondo-o ser o jardineiro;" e é nossa bem-aventurança que tenhamos Cristo andando entre os nossos canteiros e bordas, vigiando cada planta, treliçando, cuidando, amadurecendo a todas. "Supondo-o ser o jardineiro," está bem, pois dele vem o nosso fruto. Separados dele, nada somos; só enquanto ele cuida de nós podemos produzir fruto. Abandonemos de uma vez a confiança no homem, deixemos de tentar suprir os fatos da Sua presença espiritual por rotina ou barulho, ritualismo ou estardalhaço; mas oremos ao nosso Senhor que esteja sempre presente connosco, e por essa presença faça crescer o nosso jardim.

"Supondo-o ser o jardineiro," há outro dever, e é este: que cada um de nós se entregue inteiramente a ele. Uma planta não sabe como deve ser tratada; não sabe quando deve ser regada ou quando deve ser mantida seca; uma árvore frutífera não é juíza de quando necessita ser podada, ou cavada, ou adubada. O talento e a sabedoria do jardim não estão nas flores e nos arbustos, mas no jardineiro. Ora, então, se vós e eu estamos aqui hoje com alguma vontade própria e julgamento carnal em nós, busquemos pô-los de lado de todo para que sejamos absolutamente à disposição do nosso Senhor. Talvez não quisésseis confiar-vos implicitamente nas mãos de qualquer mero homem (pena que o fizésseis!); mas, com certeza, ó planta do plantio da destra do Senhor, podeis colocar-vos sem questão nessa Sua cara mão. "Supondo-o ser o jardineiro," podeis bem dizer: "Não quereria ter vontade, nem desejo, nem talento, nem capricho, nem caminho, mas seria como nada nas mãos do jardineiro, para que ele seja para mim a minha sabedoria e o meu tudo. Aqui, gentil jardineiro, a tua pobre planta inclina-se à tua mão; forma-me como quiseres." Podeis estar certos de que a felicidade habita porta a porta com o espírito de completa aquiescência à vontade de Deus, e será fácil exercer essa perfeita aquiescência quando supomos que o Senhor Jesus é o jardineiro. Se o Senhor o fez; que tem um santo a dizer? Ó tu, aflito, o Senhor o fez: desejarias que fosse de outra forma? Não, não és grato que seja assim, pois assim é a vontade daquele em cuja mão está a tua vida, e cujos são todos os teus caminhos? O dever da submissão é muito claro, "supondo-o ser o jardineiro."

Mais um dever mencionarei, embora outros se sugiram. "Supondo-o ser o jardineiro," deixemo-nos produzir fruto para ele. Não me dirijo esta manhã a um povo que não sente nenhum cuidado quanto a servir a Deus. Creio que a maioria de vós deseja glorificar a Deus; pois, sendo salvos pela graça, sentis uma santa ambição de mostrar os Seus louvores, que vos chamou das trevas para a Sua luz maravilhosa. Desejais trazer outros a Cristo, porque vós mesmos fostes trazidos à vida e liberdade nele. Ora, que este seja um estímulo ao vosso frutificar, que Jesus é o jardineiro. Onde produzistes um único cacho, produzi cem! "supondo-o ser o jardineiro." Se a ele cabe a honra disso, laborai por fazer o que lhe dará grande renome. Se o nosso estado espiritual devesse ser atribuído a nós mesmos, ou ao nosso ministro, ou a alguns dos nossos irmãos cristãos, talvez não sentiríamos que estávamos sob grande necessidade de ser frutíferos; mas se Jesus é o jardineiro, e deve receber a culpa ou a honra do que produzimos, então usemos cada gota de seiva e esforcemos cada fibra, para que, no máximo do que é capaz a nossa humanidade, possamos produzir uma bela recompensa pelo labor do nosso Senhor. Sob tal tutoria e cuidado deveríamos tornar-nos eminentes discípulos. Treina-nos Cristo? Oh, que jamais façamos o mundo pensar de forma baixa do nosso Mestre. Os estudantes sentem que a sua alma mater merece grandes coisas deles, por isso laboram para tornar a sua universidade renomada. E assim, como Jesus é tutor e universidade para nós, sintamos que somos obrigados a refletir crédito sobre um mestre tão grande, sobre um nome tão divino. Não sei como expressá-lo, mas com certeza deveríamos fazer algo digno de tal Senhor. Cada pequena flor no jardim do Senhor deve ostentar as suas cores mais brilhantes, e derramar o seu mais raro perfume, porque Jesus cuida dela. O melhor de todo o bem possível deve ser produzido por cada planta no jardim do nosso Pai, supondo que Jesus é o jardineiro.

Até aqui, pois, sobre esses dois pontos — uma chave para muitas maravilhas, e um estímulo para muitos deveres.

III. ALÍVIO DE UMA RESPONSABILIDADE ESMAGADORA

Em terceiro lugar, encontrei nesta suposição UM ALÍVIO DE UMA RESPONSABILIDADE ESMAGADORA. A uma pessoa é dada uma obra de Deus a fazer, e se ela a faz corretamente, não pode fazê-la descuidadamente. A primeira coisa quando acorda ela pergunta: "Como está prosperando a obra?" e o último pensamento à noite é: "O que posso fazer para cumprir o meu chamado?" Por vezes a ansiedade perturba até os seus sonhos, e ela suspira: "Ó Senhor, envia agora prosperidade!" Como está prosperando o jardim que somos designados a tratar? Estamos de coração partido porque nada parece florescer? É uma estação ruim? ou é o solo magro e faminto? É um alívio muito abençoado ao excesso de preocupação se pudermos cair no hábito de "supondo-o ser o jardineiro." Se Jesus é o Senhor e Mestre em todas as coisas, não é meu dever manter toda a Igreja em ordem. Não sou responsável pelo crescimento de cada cristão, nem por cada erro do apóstata, nem por cada falha de vida do professo. Este fardo não deve repousar sobre mim de tal modo que seja esmagado por ele. "Supondo-o ser o jardineiro," então a Igreja desfruta de uma supervisão melhor do que a minha; melhor cuidado é tomado do jardim do que poderia ser tomado pelos guardas mais vigilantes, ainda que de noite a geada os consumisse, e de dia o calor. "Supondo-o ser o jardineiro," então tudo deve correr bem a longo prazo. Aquele que guarda a Israel não dormita nem dorme; não precisamos nos afligir e desanimar. Peço a vós, trabalhadores sérios que estais vos tornando deprimidos, que penseis nisso um pouco. Vede que é vosso trabalhar sob o Senhor Jesus; mas não é vosso tomar a ansiedade do Seu cargo para as vossas almas como se fôsseis vós a suportar os Seus fardos. O sub-jardineiro, o trabalhador no jardim, não precisa afligir-se com o jardim inteiro como se tudo estivesse entregue a ele. Não, não; que ele não tome demais sobre si. Peço-vos que circunscrevais a vossa ansiedade pelos fatos do caso. Assim tendes um número de jovens ao vosso redor, e estais velando pelas suas almas como aqueles que devem prestar contas. Isso é bom; mas não vos preocupeis e vos esgoteis; pois, afinal, o salvar e o guardar dessas almas não está nas vossas mãos, mas repousa em Alguém muito mais capaz do que vós mesmos. Basta pensar que o Senhor é o jardineiro.

Sei que assim é nas questões da providência. Um certo homem de Deus em tempos turbulentos tornou-se completamente incapaz de cumprir o seu dever porque pôs no coração em excesso os males da época; ficou deprimido e perturbado, e embarcou num navio, querendo deixar o país, que estava entrando num estado tal que já não conseguia suportá-lo. Então alguém lhe disse: "Sr. Whitelock, é o senhor o gerente do mundo?" Não, não era bem isso. "Não se saiu Deus muito bem sem o senhor antes de o senhor nascer, e não pensa que se sairá muito bem sem o senhor quando o senhor morrer?" Essa reflexão ajudou a aliviar a mente do bom homem, e ele voltou para cumprir o seu dever. Quero que percebais assim o limite da vossa responsabilidade: não sois o jardineiro em si mesmo; sois apenas um dos rapazes do jardineiro, designado a correr em recados, ou a fazer um pouco de cavar, ou a varrer os caminhos. O jardim é suficientemente bem gerido mesmo que não sejais o gerente-chefe nele.

Embora isso nos alivie da ansiedade, torna o trabalho por Cristo muito doce, porque se o jardim não parece nos recompensar pelo nosso esforço, dizemos a nós mesmos: "Não é, afinal, o meu jardim. 'Supondo-o ser o jardineiro,' estou muito disposto a trabalhar num pedaço de rocha estéril, ou atar um galho velho e seco, ou cavar uma leiva inútil; pois, se agrada apenas a Jesus, o trabalho é por esta única razão proveitoso ao máximo grau. Não me compete questionar a sabedoria da minha tarefa, mas empreendê-la no nome do meu Senhor e Mestre. 'Supondo-o ser o jardineiro,' levanta de mim a pesada responsabilidade, e o meu trabalho se torna agradável e deleitoso."

No trato com as almas dos homens, encontramos casos que são extremamente difíceis. Algumas pessoas são tão tímidas e temerosas que não sabemos como consolá-las; outras são tão presunçosas que mal sabemos como ajudá-las. Algumas são tão de dois rostos que não as conseguimos entender, e outras tão inconstantes que não as conseguimos segurar. Algumas flores desconcertam o jardineiro comum: encontramos plantas cobertas de espinhos, e quando tentamos treiná-las ferem a mão que as quer ajudar. Esses crescimentos estranhos vos causariam grande confusão se fôsseis o jardineiro; mas "supondo-o ser o jardineiro," tendes a felicidade de poder ir a ele constantemente, dizendo: "Bom Senhor, não entendo esta criatura singular; é uma planta tão estranha quanto eu mesmo sou. Oh, que a tratavas, ou me dissesses como. Vim contar-te dela."

Constantemente a nossa dificuldade é que temos tantas plantas para cuidar que não temos tempo para cultivar nenhuma delas da melhor maneira, porque temos mais cinquenta, todas necessitando de atenção ao mesmo tempo; e então antes de terminarmos com o regador, temos de buscar a enxada e o ancinho e a pá, e ficamos confusos com esses cuidados múltiplos, assim como Paulo estava quando dizia: "O que pesa sobre mim cada dia — o cuidado de todas as igrejas." Ah, então, é uma coisa abençoada fazer o pouco que podemos fazer e deixar o resto a Jesus, "supondo-o ser o jardineiro."

Na Igreja de Deus há uma disciplina que não podemos exercer. Não penso que seja tão difícil exercer a disciplina quanto não ser capaz de exercê-la quando ainda sentes que ela devia ser feita. Os servos do senhor da casa ficaram perplexos quando não podiam arrancar o joio. "Não semeaste tu bom grão no teu campo? Donde vieram então os joios?" "Um inimigo fez isso." "Queres, pois, que vamos e o colhamos?" "Não," disse ele, "para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele." Isso aflige o ministro cristão quando não pode remover uma erva daninha pestilenta e prejudicial. Sim, mas "supondo-o ser o jardineiro," e sendo Sua vontade deixar aquela erva daninha, que tenho eu e vós a fazer senão calar? Ele tem uma disciplina mais segura e mais certa do que a nossa, e a seu tempo os joios a conhecerão. Em paciência possuamos as nossas almas.

E então, novamente, há aquela sucessão no jardim que não podemos manter. As plantas morrerão, e outras devem ser colocadas nos seus lugares ou o jardim ficará nu, mas não sabemos onde encontrar essas flores frescas. Dizemos: "Quando aquele bom homem morrer, quem o sucederá?" É uma questão que ouvi muitas vezes, até estar bastante cansado dela. Quem há de seguir a tal pessoa? Esperemos até que ela parta e precise ser seguida. Por que vender o casaco do homem enquanto ele ainda o pode usar? Somos propensos a pensar, quando essa raça de bons irmãos houver morrido, que nenhum surgirá digno de desatar as correias das suas sandálias. Bem, amigo, poderia supor muitas coisas, mas esta manhã o meu texto é "supondo-o ser o jardineiro," e com base nessa suposição espero que o Senhor tenha outras plantas em reserva que ainda não vistes, e estas se encaixarão exatamente nos nossos lugares quando ficarem vagos, e o Senhor manterá a verdadeira sucessão apostólica até o dia da Sua segunda vinda.

Em todo tempo de escuridão e desânimo, quando o coração afunda e os espíritos declinam, e pensamos que está tudo acabado para a Igreja de Deus, recuemos a esta base: "Supondo-o ser o jardineiro," e esperemos ver coisas maiores e melhores do que estas. Estamos no fim do nosso talento, mas ele não está no começo do Seu ainda; estamos confusos, mas ele jamais estará; portanto esperemos e sejamos tranquilos, "supondo-o ser o jardineiro."

IV. LIBERTAÇÃO DE MUITOS TEMORES SOMBRIOS

Em quarto lugar, quero que noteis que esta suposição vos dará UMA LIBERTAÇÃO DE MUITOS TEMORES SOMBRIOS. Eu desci pelo jardim, e vi um lugar onde todo o caminho estava coberto de folhas e galhos quebrados, e pedras, e vi a terra dos canteiros de flores revirada, e raízes completamente fora do chão: tudo estava em desordem. Havia um cão se divertindo? ou havia uma criança travessa trabalhando ali? Se fosse assim, era uma grande pena. Mas não: em um ou dois minutos vi o jardineiro voltar, e percebi que havia sido ele a fazer toda essa desordem. Havia estado cortando, e cavando, e machucando, e fazendo bagunça; e tudo para o bem do jardim. Pode ter acontecido a alguns de vós que fostes bastante podados ultimamente, e nos vossos assuntos domésticos as coisas não estiveram num estado tão favorável como poderíeis ter desejado; pode ser que na Igreja tenhamos visto ervas daninhas arrancadas, e galhos estéreis aparados, de modo que tudo está em desalinho. Bem, se o Senhor o fez, os temores sombrios são inúteis. "Supondo-o ser o jardineiro," está tudo bem.

Ao conversar isso com o meu amigo, eu disse a ele: "Supondo-o ser o jardineiro," então a serpente terá um mau tempo. Supondo Adão ser o jardineiro, então a serpente entra e conversa com a sua esposa, e disso resulta dano; mas supondo Jesus ser o jardineiro, ai de ti, serpente: há um golpe para a tua cabeça em meio minuto se ousares mostrar-te dentro dos limites. Assim, se tememos que o diabo se infiltre entre nós, oremos sempre pedindo que não haja espaço para o diabo, porque o Senhor Jesus Cristo preenche tudo, e mantém o adversário afastado. Outras criaturas além de serpentes se introduzem nos jardins; lagartas e formigas cortadeiras, e todo tipo de criaturas destruidoras são propensas a devorar as nossas igrejas. Como podemos mantê-las afastadas? O muro mais alto não pode excluí-las: não há proteção exceto uma, e é "supondo-o ser o jardineiro." Assim está escrito: "Ameaçarei o devorador por amor de vós, e não corromperá o fruto da vossa terra; nem a vossa vide no campo lançará o fruto antes do tempo, diz o Senhor dos exércitos."

Às vezes me pertuba a questão: E se raízes de amargura brotassem entre nós para nos perturbar? Somos todos criaturas tão falíveis; supondo que algum irmão permitisse que a semente da discórdia crescesse no seu peito, então pode haver uma irmã em cujo coração as sementes também germinarão, e dela voarão para outra irmã, e serão sopradas até que irmãos e irmãs estejam todos carregando arruda e absinto nos seus corações. Quem há de prevenir isso? Somente o Senhor Jesus pelo Seu Espírito. Ele pode manter afastado este mal, "supondo-o ser o jardineiro." A raiz que produz absinto crescerá muito pouco onde Jesus está. Habita connosco, Senhor, como Igreja e povo: pelo Teu Espírito Santo reside connosco e em nós, e jamais Te aparta de nós, e então nenhuma raiz de amargura brotará para nos perturbar.

Vem então outro temor. Suponhamos que as águas vivas do Espírito de Deus não viessem regar o jardim, então o quê? Não podemos fazê-las fluir, pois o Espírito é soberano, e flui onde lhe agrada. Ah, mas o Espírito de Deus estará no nosso jardim, "supondo que o nosso Senhor seja o jardineiro." Não há temor de não sermos regados quando Jesus se encarrega de fazê-lo. "Ele derramará água sobre o que tem sede, e rios sobre a terra árida." Mas e se a luz solar do Seu amor não brilhar sobre o jardim? Se os frutos nunca amadurecerem, se não houver paz, nenhuma alegria no Senhor? Isso não pode acontecer "supondo-o ser o jardineiro"; pois o Seu rosto é o sol, e a Sua face espalha aqueles raios benéficos, e calores nutritivos, e influências aperfeiçoadoras que são necessários para amadurecer os santos em toda a doçura da graça para a glória de Deus. Assim, "supondo-o ser o jardineiro" no fim do ano, afasto os meus dúvidas e temores, e convido-vos, que carregais a Igreja no coração, a fazer o mesmo. Está tudo bem com a causa de Cristo porque está nas Suas próprias mãos. Ele não falhará nem se desanimará. O prazer do Senhor prosperará em Suas mãos.

V. UM AVISO PARA OS DESCUIDADOS

Em quinto lugar, há aqui UM AVISO PARA OS DESCUIDADOS, "supondo-o ser o jardineiro." Nesta grande congregação, muitos são para a Igreja o que as ervas daninhas são para um jardim. Não foram plantados por Deus; não estão crescendo sob o Seu cuidado; não estão produzindo nenhum fruto para a Sua glória. Meu querido amigo, tenho tentado muitas vezes chegar até ti, impressionar-te, mas não consigo. Toma cuidado; pois um destes dias, "supondo-o ser o jardineiro," ele chegará até ti, e saberás o que significa aquela palavra: "Toda planta que o meu Pai celestial não plantou, será arrancada pela raiz." Toma cuidado de ti mesmo, peço-te.

Outros entre nós são como os ramos da videira que não dão fruto. Muitas vezes falamos com eles com muita severidade, dizendo-lhes a verdade honesta em linguagem inequívoca, e ainda assim não tocamos as suas consciências. Ah, mas "supondo-o ser o jardineiro," ele cumprirá aquela sentença: "Todo ramo em mim que não dá fruto, ele o tira." Ele chegará até ti, se nós não conseguirmos. Oxalá, antes que este velho ano estivesse completamente morto, te voltasses ao Senhor com pleno propósito de coração; de modo que, em vez de seres uma erva daninha, te tornasses uma flor escolhida; de modo que, em vez de um pau seco, fosses um ramo cheio de seiva e frutífero da videira. Que o Senhor faça com que assim seja; mas se alguém aqui necessita da advertência, peço-lhe que a tome a peito imediatamente. "Supondo-o ser o jardineiro," não haverá escapar do Seu olho; não haverá libertação da Sua mão. Assim como "ele limpará bem a Sua eira, e ajuntará o Seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo que nunca se apaga," assim ele purificará completamente o Seu jardim e lançará fora toda coisa inútil.

VI. UM SOSSEGO PARA OS QUE SE QUEIXAM

Outro conjunto de pensamentos pode bem surgir como UM SOSSEGO PARA OS QUE SE QUEIXAM, "supondo-o ser o jardineiro." Alguns de nós têm sofrido muita dor física, que muitas vezes morde nos espíritos e faz o coração curvar-se; outros têm sofrido pesadas perdas temporais, não tendo tido êxito nos negócios, mas, ao contrário, tendo tido de suportar privações, talvez até à penúria. Estais prontos a queixar-vos contra o Senhor por tudo isso? Peço-vos que não o façais. Tomais a suposição do texto para a vossa mente esta manhã. O Senhor tem vos podado com severidade, cortando os vossos melhores ramos, e pareceis como uma coisa desprezada que está constantemente atormentada pela faca. Sim, mas "supondo-o ser o jardineiro," suponde que o vosso Senhor amoroso o realizou tudo, que de Sua própria mão veio toda a vossa tristeza, cada corte, e cada ferida, e cada estaca: não altera isso o caso? Não o fez o Senhor? Bem, então, se assim é, ponde o dedo nos lábios e ficai quietos, até serdes capazes de dizer de coração: "O Senhor deu, e o Senhor tomou; bendito seja o nome do Senhor." Estou persuadido de que o Senhor não fez nada errado para com nenhum dos Seus; que nenhum filho Seu pode com razão queixar-se de ter sido açoitado com excessiva severidade; e que nenhum ramo da videira pode verdadeiramente declarar que foi podado com demasiada acuidade. Não; o que o Senhor fez é o melhor que poderia ter sido feito, a própria coisa que vós e eu, se pudéssemos ter possuído sabedoria e amor infinitos, teríamos desejado fazer; portanto cessemos cada pensamento de murmúrio, e digamos: "O Senhor o fez," e alegrai-vos.

Especialmente falo àqueles que sofreram luto. Dificilmente posso expressar-vos quão estranho me sinto neste momento quando o meu sermão revive uma memória tão doce, matizada de tão excessiva amargura. Eu estava sentado com o meu amigo e secretário naquele jardim há cerca de quinze dias, e então estávamos em perfeita saúde, regozijando-nos na bondade do Senhor. Regressámos a casa, e em cinco dias fui atingido por dor debilitante; e pior, muito pior do que isso, ele foi chamado a perder a sua esposa. Dissemos um ao outro enquanto estávamos ali sentados lendo a Palavra de Deus e meditando: "Como somos felizes! Ousamos pensar em ser tão felizes? Não há de terminar logo?" Nunca pensei que teria de dizer por ele: "Ai, meu irmão, foste muito humilhado, pois a delícia dos teus olhos foi tirada de ti." Mas aqui está o nosso consolo: o Senhor o fez. A melhor rosa do jardim se foi. Quem a tomou? O jardineiro passou por aqui e a colheu. Ele a plantou e cuidou dela, e agora a tomou. Não é isso o mais natural? Há alguém que chore por isso? Não; todos sabem que é certo, e segundo a ordem da natureza, que ele venha e recolha o melhor do jardim. Se estais muito perturbados pela perda do vosso bem-amado, contudo enxugai o vosso pesar, "supondo-o ser o jardineiro." Beijai a mão que vos causou tal tristeza. Amados irmãos, lembrai que da próxima vez que o Senhor vier à vossa parte do jardim — e pode fazê-lo dentro da próxima semana — ele apenas colherá as Suas próprias flores, e poderíeis impedi-lo de fazê-lo mesmo se pudésseis?

VII. UMA PERSPECTIVA PARA OS ESPERANÇOSOS

"Supondo-o ser o jardineiro," há então UMA PERSPECTIVA PARA OS ESPERANÇOSOS. "Supondo-o ser o jardineiro," então espero ver no jardim onde ele trabalha a melhor prosperidade possível: espero não ver nenhuma flor seca, nenhuma árvore sem fruto; espero ver o mais rico, o mais raro fruto, com a mais delicada flor sobre ele, diariamente apresentado ao grande Dono do jardim. Esperemos isso nesta Igreja, e oremos por isso. Oh, se tivermos apenas fé, veremos grandes coisas. É a nossa incredulidade que constrange a Deus. Crejamos em grandes coisas da obra de Cristo pelo Seu Espírito no meio dos corações do Seu povo, e não seremos decepcionados.

"Supondo-o ser o jardineiro," então, amados irmãos, podemos esperar comunhão divina de inexprimível preciosidade. Voltemos ao Éden por um momento. Quando Adão era o jardineiro, o que aconteceu? O Senhor Deus passeava no jardim na brisa do dia. Mas "supondo-o ser o jardineiro," então teremos o Senhor Deus habitando entre nós, e Se revelando em toda a glória do Seu poder, e na plenitude do Seu coração paternal; fazendo-nos conhecê-lo, para que sejamos cheios de toda a plenitude de Deus. Que alegria é esta!

Mais um pensamento. "Supondo-o ser o jardineiro," e Deus vindo e passeando entre as árvores do jardim, então espero que ele remova o jardim inteiro para cima consigo para céus mais belos; pois ele ressuscitou, e o Seu povo deve ressuscitar com ele. Espero uma bendita transplantação de todas estas flores abaixo para uma atmosfera mais clara acima, longe de toda esta fumaça e névoa e umidade, para cima onde o sol nunca está encoberto, onde as flores nunca murcham, onde os frutos nunca apodrecem. Oh, a glória que então desfrutaremos lá em cima, nos montes de especiarias no jardim de Deus.

"Supondo-o ser o jardineiro," que jardim formará ele acima, e como vós e eu cresceremos nele, desenvolvendo-nos além da imaginação! "Ainda não é manifesto o que haveremos de ser; mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como ele é, assim o veremos." Sendo ele o autor e consumador da nossa fé, a que perfeição nos conduzirá, e a que glória nos levará! Oh, ser encontrado nele! Que Deus nos conceda sê-lo. Ser plantas no Seu jardim, "supondo-o ser o jardineiro," é todo o céu que podemos desejar. Amém.

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