Os grandes príncipes do Oriente têm o costume de viajar em esplêndidas liteiras, que são ao mesmo tempo carros e camas. A pessoa reclina no interior, protegida por cortinas dos olhares do público; uma guarda-costas protege a comitiva dos salteadores, e tochas acesas iluminam o caminho pelo qual os viajantes passam. O rei Salomão, neste Cântico, descreve a Igreja de Cristo e o próprio Cristo como viajando pelo mundo em tal liteira. O dia está chegando em que tanto o nosso Senhor divino quanto a sua escolhida noiva serão revelados em glória diante dos olhos de todos os homens. A era presente é o período do ocultamento — o místico Salomão e sua amada Solima estão ambos na terra, mas são invisíveis aos homens; como a arca de outrora, habitam dentro de cortinas; somente os sacerdotes ungidos de Deus podem discernir suas belezas, e mesmo estes contemplam mais pela fé do que pela visão.
"Eis que estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos" — certamente é verdade, pois Jesus está aqui; mas igualmente corretas são as palavras de Pedro: "Ao qual, não tendo visto, amais; e em quem, não vendo ainda, mas crendo, exultais com alegria inefável e cheia de glória." Ele está aqui na realidade, poder e influência de Sua presença, mas não está aqui quanto à visibilidade de Seu reino e pessoa, pois esperamos com os lombos cingidos e com paciência de esperança, até a revelação de Jesus Cristo. A porção do bem-aventurado Cântico que temos agora diante de nós é, pensamos nós, descritiva do progresso do Cristo oculto pelo mundo. Ele tem sido conduzido, em verdade, mas Ele próprio tem sido tão pouco percebido pelos homens que eles chegam a fazer a pergunta: "Quem é esta que sobe do deserto?"
Ele ainda não se manifesta abertamente aos homens. Se alguém disser: "Eis aqui!" ou "Eis ali! Este é Cristo!" não lhe deis crédito, pois Cristo ainda não se fez ver. Quando vier, será tão perceptível quanto o relâmpago, que todo olho discerne sem necessidade de instrutor. Assim também com a sua verdadeira Igreja. Ela também está oculta como seu Senhor, e embora sua mão, seu pé ou seu rosto possam às vezes ser vistos, jamais o corpo eleito como um todo foi contemplado. Se alguém disser: "Eis aqui está a Igreja de Cristo!" ou "Eis ali!" não lhe deis crédito; pois é fato que não há corporação de homens da qual possamos dizer exclusiva ou universalmente: "Eis aqui está a Igreja de Cristo." Há joio crescendo com o trigo no campo mais bem guardado, e por outro lado nenhum cercado contém todo o trigo. A verdadeira Igreja de Cristo está espalhada aqui e ali; é encontrada em todas as denominações, e não há uma denominação da qual se possa dizer: "Esta somente é a Igreja de Cristo, ou todos os seus membros pertencem ao corpo da esposa de Cristo."
Observemos, em primeiro lugar, a glória do progresso de Cristo pelo mundo, conforme descrita no versículo seis: "Quem é esta que sobe do deserto como colunas de fumaça, perfumada de mirra e de incenso, com todos os pós aromáticos do mercador?" A comitiva excita a atenção do observador; sua curiosidade é despertada, e ele pergunta: "Quem é esta?" Ora, nos primeiros dias do progresso da Igreja cristã havia pessoas que se maravilhavam grandemente; e embora atribuíssem as maravilhas do dia de Pentecostes à embriaguez, "todos estavam atônitos e em dúvida, dizendo uns aos outros: Que quer isto dizer?" Anos depois, muitos filósofos pagãos perguntavam: "Que novo poder é este que está quebrando os ídolos, mudando velhos costumes, tornando até os tronos inseguros — que é isto?" Pela época da Reforma, havia monges encapuzados, cardeais com seus chapéus vermelhos, bispos, príncipes e imperadores que todos diziam: "O que é isto? Que estranha doutrina veio à luz?" Nos tempos da reforma moderna, um século atrás, quando aprouve a Deus reviver Sua Igreja por meio de Whitefield e seus irmãos, havia muitos que diziam: "Que é este novo entusiasmo, este metodismo? Donde vem, e que poder é este que ele maneja?" E sem dúvida, sempre que aprouve a Deus fazer surgir Sua Igreja com poder e torná-la poderosa entre os filhos dos homens, a ignorância dos homens se manifestará em espanto, pois dirão: "Quem é esta?" A religião espiritual é tão novidade hoje quanto no dia em que os sábios gregos dela zombaram no Areópago.
A verdadeira Igreja de Deus ainda é peregrina e estrangeira; um forasteiro e estrangeiro em toda terra; uma ave rara; uma pomba no meio de corvos; um lírio entre espinhos. Quando grandes personagens viajavam em suas liteiras, e especialmente em procissões nupciais, eram acompanhados por várias pessoas que, à noite, carregavam bem alto no ar archotes acesos que davam uma labareda de luz. Às vezes essas luzes eram simplesmente tochas nas mãos de pedestres que corriam; outras vezes eram uma espécie de cesto de ferro erguido no ar sobre varas, do qual subia uma coluna de fumaça e chama. Nosso texto diz: "Quem é esta que sobe do deserto como colunas de fumaça?" — bela ilustração do fato de que onde quer que Cristo e Sua causa sejam levados, a luz é uma acompanhante certa. Em qualquer região que o evangelho viaje, cada um de seus arautos é um raio de luz, cada um de seus ministros é um fogo flamejante. Deus faz de Suas igrejas os castiçais de ouro e diz a Seus filhos: "Vós sois a luz do mundo." Tão certamente como alguma vez Deus disse: "Haja luz!" e houve luz sobre a velha criação, assim Ele diz, quando quer que Sua Igreja avança: "Haja luz!" e há luz.
Antros de escuridão, onde os morcegos da superstição haviam dobrado as asas e se pendurado para eterno descanso, foram perturbados pelo brilho dessas divinas tochas; as mais profundas cavernas da superstição e do pecado, antes negras com uma escuridão que se podia sentir, foram visitadas por uma luz superior ao brilho do sol. "O povo que andava em trevas viu uma grande luz; e aos que moravam na terra da sombra da morte a luz nasceu." Assim diz o Senhor à nação onde o Seu reino chega: "Levanta-te, resplandece, porque vem a tua luz, e a glória do Senhor vai se manifestar sobre ti!" Levai a Igreja de Cristo às Ilhas do Pacífico; transportai Cristo e Sua esposa em Sua liteira ao cafre, ao hotentote, ou ao esquimó, e por toda parte a noite da morte termina e a manhã com sua gloriosa aurora chegou. Erguei alto vossas lâmpadas, servos do nosso Senhor. Erguei alto a cruz do Redentor; pois nEle está a luz, e a luz é a vida dos homens.
Mas dir-me-eis que nosso texto fala mais de "colunas de fumaça" do que de lâmpadas cintilantes. Irmãos, a fumaça é apenas o efeito da chama, e mesmo a coluna de fumaça é luminosa. Que é a fumaça que acompanhou a Igreja? Que outra coisa senão as mortes de seus mártires, os sofrimentos de seus confessores, a paciente perseverança de seus filhos valentes? Onde quer que vá, a densa fumaça de seu sofrimento sobe até ao céu. "Somos sempre entregues à morte", disse o apóstolo. A causa da verdade envolve um sacrifício perpétuo; sua fumaça sobe para sempre. Fumaça negra, digo, aos olhos do homem, mas a Deus é aroma de suave cheiro. Nunca a gordura dos carneiros, nem a gordura dos rins de animais cevados, cheirou tão suavemente diante do Altíssimo quanto a fé, o amor e a coragem que subiram ao céu dos destemidos heróis da Igreja nas eras passadas, quando na fogueira foram fiéis até à morte.
Acontece frequentemente que monarcas orientais de imensos domínios não se contentam em queimar carvão comum nesses cestos, mas frequentemente consomem sândalo e outras madeiras que exalam um cheiro delicioso; ou então, se usam carvão comum, aspergem sobre ele olíbano e mirra, de modo que um delicioso perfume se espalha por todos os lados. Nos tempos antigos, iam também a grande despesa na obtenção de drogas, que os mercadores colecionavam de todas as partes da terra, e estas eram cuidadosamente compostas nos renomados "pós dos mercadores", que produziam uma deliciosa variedade de delicados perfumes, impossível de produzir com qualquer única essência aromática. Nosso poeta inspirado descreve o cortejo viajante do par real e não deixa de demorar-se no delicioso perfume de mirra e incenso, com todos os pós do mercador, "que fazem o deserto cheirar como um jardim de rosas."
Onde quer que a Igreja de Cristo avance, embora seu caminho seja um deserto, embora marche por um deserto uivante, ela espalha o mais rico perfume. A página da história só seria digna de ser apagada no esquecimento se não fosse pelas suaves fragrâncias que a Igreja deixou sobre ela. Olhai para todas as eras passadas, e o rastro da Igreja ainda exala toda a mais rica fragrância da virtude humana e da graça divina. Onde quer que a Igreja avance, ela manifesta o sabor do conhecimento de Cristo em todo lugar! Os homens creem em Jesus, e para o Senhor a fé tem toda a fragrância da mirra. Amam Jesus; e o amor, na estimativa do céu, é melhor do que o incenso. Amando a Cristo, esforçam-se por ser semelhantes a Ele, até que a paciência, a humildade, a benevolência fraterna, a veracidade, e tudo o que é honesto, adorável e de boa fama, como "pós do mercador", se espalhem por toda a terra.
Dizei-me onde a Igreja não está, e eu vos direi onde o pecado reina; dizei-me onde Cristo e Sua Igreja são transportados, e eu vos direi onde encontrareis toda virtude que pode adornar a humanidade, e toda excelência que pode magnificar a graça de Deus. Se quereis encontrar um antídoto para as emanações mortais que espreitam nos desertos de pecado deste mundo, se quereis destruir a pestilência infame que reina nas trevas do paganismo, do papismo e da incredulidade, clamai ao Poderoso: "Levanta-te, ó viajante desconhecido, levanta-te, e manda teus servos transportar-te para o meio de toda esta miséria e morte! A luz de tuas tochas flamejantes espalhará as trevas, e o ardor de teus preciosos perfumes dirá ao mal: 'Dobra as asas!' e à pestilência do pecado: 'Volta à tua cova!'"
Temos, em segundo lugar, que notar a segurança da Igreja de Cristo em todos os tempos. Claro que, ao viajar por um deserto, uma procissão real estava sempre em perigo de ataque. Árabes espreitavam ao redor; beduínos errantes estavam sempre prontos para cair sobre a caravana; e especialmente isso acontecia com uma procissão nupcial, porque então os salteadores poderiam esperar obter muitas joias, ou, se não, um pesado resgate pela redenção da noiva ou do noivo por seus amigos.
Que direi dos ataques que têm sido feitos à Igreja de Cristo, e ao próprio Cristo? Têm sido incessantes. Quando uma forma de mal foi derrotada, outra se apresentou. O mal fervilha em filhos. As rãs e os piolhos do Egito não eram mais numerosos do que os inimigos do ungido do Senhor e de sua noiva. Cada dia produz novas batalhas. Esses ataques surgem de todos os lados; às vezes do mundo, e às vezes, ai de nós!, dos próprios membros professantes da Igreja. Os adversários espreitam em toda parte, e até que a Igreja e seu Senhor sejam revelados no esplendor do Milênio, tendo deixado o deserto para sempre, devemos esperar encontrá-la molestada por todos os lados.
Meus caros irmãos, sabemos que a causa de Cristo no mundo está sempre segura por causa da proteção divina, e porque as legiões dos anjos de Deus fazem guarda em torno dos santos. Mas temos algo mais tangível do que isso. Nosso gracioso Deus se dignou confiar a homens o ministério de Cristo. Homens, sim, os filhos dos homens, estão em formação ao redor da liteira viajante de Cristo, para guardar tanto o noivo quanto a noiva. Lede os versículos 7 e 8 com cuidado, e notareis que há guerreiros em número suficiente. "Sessenta guerreiros valerosos estão ao redor dela." Há sempre homens suficientes escolhidos por Deus para guardar a Igreja.
A pobre Incredulidade levanta as mãos e clama: "Ah! os bons homens morreram todos; Sião está sob uma nuvem; o Senhor tirou os grandes homens; não temos defensores valentes da fé, nenhum como esta crise pode requerer!" Ah! Incredulidade, que o Senhor te diga como disse a Elias: "Ainda reservei para mim sete mil em Israel, todos os joelhos que se não dobraram a Baal." Haverá precisamente tantos guerreiros quantos a crise exigir. Não sabemos de onde os homens virão, mas o Senhor proverá. Pode estar sentado na escola dominical hoje uma criança que um dia sacudirá esta nação de um extremo a outro; pode estar aqui, desconhecido, obscuro e despercebido, o homem que Deus tornará forte para repreender a infame incredulidade de nossa era. Não sabemos onde repousa a unção. Nós, em nossa tolice, ungimos Eliabe ou Abinadabe, mas Deus escolheu Davi, o filho do pastor, e o trará e ensinará a arremessar a pedra na testa de Golias. Não tremais, nem tenhais medo; Deus, que faz o homem e faz a boca do homem, encontrará os sessenta homens quando os sessenta forem necessários.
Observai que esses guerreiros são homens do metal certo. "Sessenta valerosos", e glória seja ao meu Mestre — embora não possa lisonjear o ministério, não devo desonrá-lo crendo que Ele deixou Sua Igreja sem defensores valentes. Há Luteros ainda vivos que desafiam todos os adversários; homens que podem dizer: "Não fazemos caso das nossas vidas como se fossem preciosas para nós mesmos, contanto que acabemos o nosso curso com alegria, e o ministério que recebi do Senhor Jesus." Não temais; pode ser que ainda não conheçais o valor da guarda-costas do Senhor, mas quando a batalha da Igreja se tornar mais acirrada do que agora, subitamente aparecerá um campeão marchando para a frente da batalha, e os homens dirão: "Quem é este? Como ele maneja aquele machado de guerra! Como ele parte a armadura de seus inimigos! Vede como os empilha em montões sobre montões, e escala aquela colina de inimigos abatidos para golpear um inimigo maior! Quem é este?" E a resposta será: "Este é um homem que Deus encontrou; o mundo não o conhecia, mas Deus o treinou nos acampamentos de Dã, e agora o Espírito o move a golpear os filisteus."
Observai ainda que esses homens estão bem armados. O texto diz expressamente: "Todos eles pegam em espada." Que espadas são essas? Todo homem valente no Israel de Cristo segura a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus. Um homem que é bom conhecedor das Escrituras geralmente será um bom teólogo; aquele que tira do tesouro da Palavra escrita descobrirá que sua palavra falada será frutífera em proveito para o povo de Deus. Se usarmos a razão carnal; se nos apoiarmos no refinamento, no argumento, na eloquência, ou em qualquer outra forma da sabedoria humana, em breve descobriremos que nossos inimigos nos vencerão; mas aplicar a Palavra para a direita e para a esquerda; dar golpes e investidas evangélicas tais que o próprio diabo não pode aparar — isso é vencer o mundo pela Palavra de Deus.
Além disso, e aqui há uma oportunidade para todos vós carregardes espadas — todo homem valente no Israel de Deus carrega a espada da oração, que pode ser comparada àquelas enormes espadas de duas mãos dos tempos antigos, que o soldado levantava e derrubava com tal força tremenda, que partia um homem ao meio: a oração é uma arma que nenhum homem pode eficazmente resistir. Se souberdes como usá-la, derrubai-a sobre a cabeça do inimigo, e ai dele!
Além disso, esses homens não eram apenas bem armados, mas bem treinados. "São destros na guerra"; homens que suportaram tentações; homens cujas almas foram exercitadas; homens que mataram tanto o leão quanto o urso, e são homens de guerra desde a mocidade. Os ministros cristãos especialmente não devem ser noviços, mas tanto na escola da tentação quanto em alguma escola dos profetas devem ser disciplinados para o combate. Observai também que esses homens estavam sempre prontos. Cada um tem a espada sobre a coxa, pronta para ser sacada. Esses homens eram vigilantes, "tendo a espada sobre a coxa por causa dos temores da noite." Nunca dormem, mas velam sempre pelo interesse da Igreja. Orai para que o Senhor levante muitos assim, que noite e dia, com lágrimas, velarão pelas almas dos homens e contra os inimigos do nosso Israel.
Entrementes, repousando em paz, notemos a excelência deste carro em que Jesus viaja. Não é difícil transmitir às pessoas menos familiarizadas com os costumes e usos orientais uma ideia do que é essa liteira. É uma espécie de grande sedan em que uma ou duas pessoas podem reclinar com facilidade. Claro que esta liteira não poderia ser feita de ouro ou prata, porque então seria pesada demais para ser carregada; deve ser feita de madeira; por isso o rei Salomão fez uma cama, ou carro, ou liteira, de madeira do Líbano. Depois precisam de quatro colunas para sustentar a cobertura e as cortinas; as colunas são de prata. O fundo deve ser algo sólido, para sustentar o peso da pessoa; o estrado é de ouro. O dossel no alto é uma cobertura de púrpura. Como reclinar sobre o ouro seria muito desagradável, está coberto com tapetes delicados e finamente trabalhados; e assim temos o interior revestido de amor pelas filhas de Jerusalém.
As doutrinas do evangelho podem ser comparadas, por sua antiguidade, por seu suave perfume e por sua incorruptibilidade, à madeira do Líbano. O evangelho de Cristo nunca decai; Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre. Não há um único elemento de apodrecimento em nenhuma verdade. E para as almas iluminadas de cima, o evangelho exala uma fragrância muito mais rica do que a madeira do Líbano.
Quanto às colunas de prata que sustentam o dossel, a que as compararei senão aos atributos de Deus que sustentam e garantem a eficácia da grande expiação de Cristo sob a qual estamos abrigados? Há a coluna de prata da justiça de Deus. Ele não pode, não quer ferir a alma que se esconde sob a cruz de Cristo. Se Cristo pagou a dívida, como é possível que Deus visite uma segunda vez a iniquidade de Seu povo, primeiro em seu Fiador e depois novamente neles próprios? Depois está a sólida coluna de Seu poder: "Elas nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão; meu Pai, que mas deu, é maior do que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai." Depois, do outro lado, está a coluna de Seu amor, uma coluna de prata de fato, brilhante e cintilante ao olhar; amor imutável e eterno, forte como o poder e firme como a justiça que sustentam o dossel do outro lado. E aqui está a imutabilidade, outra coluna sobre a qual repousa a expiação. Se Deus pudesse mudar, então poderia rejeitar os comprados pelo sangue; mas "porque sou o Senhor e não mudo, por isso, ó filhos de Jacó, não sois consumidos."
Quanto à cobertura da liteira, é de púrpura. Não preciso dizer-vos onde foi tingida. Não há matizes tirenses misturados aqui. Olhai para cima, cristão, e deleitai-vos naquele dossel de cor de sangue que vos abriga do sol de dia e da lua de noite! Do inferno e do céu, do tempo e da eternidade, estais seguros por esta cobertura que é de púrpura. Oh! tema tentador para demorar-se na preciosa e gloriosa doutrina da expiação! Sempre que nossos adversários assaltam a Igreja, qualquer que seja o objeto aparente de sua animosidade, o real é sempre o mesmo — um desesperado ódio à grande verdade de que Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo, não lhes imputando os seus pecados. Pois bem, já que eles a odeiam, amemo-la; e nela tenhamos o nosso maior deleite.
Quanto ao fundo desta liteira, que é de ouro — não pode este representar o eterno propósito e conselho de Deus, aquele propósito que Ele formou em Si mesmo antes que a terra existisse? Puro era o decreto de Deus, santo, sábio, justo, para Sua própria glória, e muito verdadeiro; e assim como as coisas preciosas do templo eram todas de ouro, bem pode a base do amor eterno — um decreto imutável e inalterável — ser comparada ao mais fino ouro. Não sei, irmãos, como é convosco, mas acho muito agradável ter como base de minha esperança o firme decreto de Deus. A expiação me cobre, sei; mas ainda sobre isso devo repousar: Jeová o quer; Deus o decreta; Ele o disse, e assim será; Ele o ordenou e permanece firme.
Então, para tornar tudo macio e agradável para reclinar, há o revestimento de trabalho de agulha. Almofadas macias de amor para repousar. Há um duplo sentido aqui, pois tanto a noiva quanto o noivo encontram repouso no amor. Nosso Senhor encontra repouso no amor de Seu povo. "Aqui habitarei para sempre." Eles fazem, por assim dizer, esses tapetes de trabalho de agulha em seu amor e afeição por Ele, e em sua confiança e certeza nEle; e aqui Ele repousa. Por outro lado, nosso Amado gastou Sua vida para nos preparar nossa cama de repouso, de modo que devemos traduzir isso como "amor para" as filhas de Jerusalém, além de amor "das" filhas de Jerusalém. Repousamos no amor de Cristo; Ele repousa em nosso amor.
Encerramos notando o dever de cada coração crente em relação ao assunto. Que cada crente, embora se reconheça como parte da Igreja dentro da liteira, veja a si próprio pessoalmente como uma das filhas de Sião, e saía esta manhã para encontrar o rei Salomão. Não é o rei Davi; o rei Davi é o tipo de Cristo até o tempo de Sua crucificação — "desprezado e rejeitado dos homens, homem de dores e experimentado no sofrimento", e no entanto Rei dos judeus. O rei Salomão é o tipo de Cristo desde o dia em que "trouxeram Seu carro do alto, para conduzi-lo ao Seu trono", e com som de trombetas o conduziram à câmara de presença de Seu Pai acima. Agora é o rei Salomão; rei Salomão em riqueza, em sabedoria, em dignidade, em honra, em paz. Ele é o Maravilhoso, o Conselheiro, o Deus Forte, o Pai da Eternidade, o Príncipe da Paz, e por isso é o rei Salomão que avança.
Levantai-vos de vossas camas de preguiça; saí de vossas câmaras de comodidade; saí para orar, trabalhar, sofrer; saí para viver em pureza, deixando Babilônia para trás; saí para andar com Ele sozinho, deixando até vossos parentes e conhecidos se eles não quiserem seguir convosco. Por que tardais em casa quando o Rei está fora? "Eis que o esposo vem, saí ao seu encontro", e vede o rei Salomão. Hoje deixai vosso olhar pousar nEle. Vede a cabeça que hoje está coroada de glória, usando muitas coroas. Contemplai também Suas mãos que outrora foram traspassadas, mas agora empunham o cetro. Olhai para o Seu cinto onde estão as chaves do céu, da morte e do inferno. Olhai para Seus pés, outrora traspassados com ferro, mas agora postos sobre a cabeça do dragão. Quando O tiverdes contemplado da cabeça aos pés, exclamai: "Sim, Ele é o mais excelente entre dez mil, e totalmente amável."
O pecado prevalece? Olhai para o rei Salomão. Surgiram dúvidas e temores? Vede o rei Jesus. Estais turbados, e o inimigo vos molesta? Levantai os olhos para Ele. Recordai-vos da luz em que deveis contemplá-Lo. Não penseis que Cristo perdeu o Seu poder de outrora. Contemplai-O como era no Pentecostes, com a coroa com que Sua mãe o coroou no dia das suas núpcias. Oh! quão glorioso era o nosso Senhor quando a Igreja o corou com seu zelo, e as flechas saíam em todas as direções, e três mil caíam abatidos pela Sua mão direita para serem vivificados pelo sopro de Sua boca! Oh, como esses primeiros santos O coroaram, quando traziam os seus bens e os depositavam aos pés dos apóstolos, e nenhum considerava o que tinha como seu próprio. Coroavam-No com o amor mais puro do coração; a Igreja tinha em sua fronte sua grinalda nupcial, e o seu esposo usava sua coroa nupcial.
Não esqueçais que Sua mãe há de coroá-Lo em breve no dia de Suas núpcias. Ele é nosso irmão assim como nosso esposo, e a Igreja é Sua mãe assim como a nossa. Oh! ela O há de coroar em breve! O dia de Suas núpcias se aproxima. Escutai! Ouço o toque da trombeta! Jesus vem, e Seus pés se põem sobre o Monte das Oliveiras; reis e príncipes lambem o pó diante dEle; Ele ajunta feixes de cetros sob Seu braço como o ceifeiro ajunta o trigo com a foice. Ele pisa sobre principados e potestades; o leão jovem e o dragão são pisados debaixo de Seus pés. E agora os Seus santos clamam: "Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor." O tão esperado chegou, e Sua mãe O coroou no dia de Suas núpcias!
Coragem, pobre coração, coragem! Saí e vede hoje o rei Salomão como Ele há de ser, e lembrai-vos:
Quando O contemplatmos, alegremo-nos de que esta há de ser nossa glória. Haveremos de tirar este pano de saco e vestir escarlate e linho fino. O pó há de ser limpo de nossa fronte e o suor de nosso rosto; as algemas hão de ser tiradas de nosso pulso e as cadeias de nossos pés; e havemos de ser emancipados, enobrecidos, glorificados, feitos participantes com Cristo em todo o Seu esplendor, e ensinados a reinar com Ele pelos séculos dos séculos.
Mas há aqui alguns a quem mal posso chamar de filhas de Jerusalém, embora estejam sempre ao redor da porta de Sião. Oh, há muitos de vós que estão sempre ouvindo nossa voz e participando de nossos hinos, e ainda não vistes o nosso Mestre! Saí; deixai vossos prazeres pecaminosos, e deixai também a vossa justiça própria; saí e vede o rei Salomão. Olhai para Jesus, pecador, sangrando na cruz, e ao olhardes, amai e confiai; e sei que assim que O tiverdes visto e confiado nEle, tereis uma coroa para pôr em Sua cabeça. Será o dia dos vossos esponsais com Ele, e O coroareis com tal coroa. Decorareis essa coroa com joias tiradas da mina secreta do mais profundo de vosso coração, e tendo feito essa coroa, a poreis em Sua cabeça, e prostrar-vos-eis diante dEle e cantareis:
Pois bem, deixaremos de lado todo temor, e continuaremos o dia inteiro contemplando o nosso incomparável Cristo, adorando-O, exaltando-O, tendo comunhão com Ele; pois tudo está bem; Sua liteira viajante está sempre segura, e em breve Ele sairá dela com Sua noiva à Sua direita, e o mundo ficará atônito ao ver as belezas do par real quando Ele for exaltado, e os que estão com Ele, diante da presença de Seu Pai e de todos os santos anjos!