Voltar aos Sermões
SERMÃO 83

"Duas Visões que Jamais Esquecerei"

João 1:4
"Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens." — João 1:4

A Primeira Visão: O Cadáver Rebocado

Entrei na cidade de Mentone exatamente quando o sol se punha, e fui impressionado pelo número de pessoas que se haviam congregado na praia e ao longo da estrada que margeia o mar. Todas elas contemplavam atentamente um barco que avançava devagar, embora remado por vários homens. Era evidente que arrastavam um peso morto por detrás do barco — um peso que precisava ser conduzido com cuidado e ternura. Ao fazermos indagações, soubemos que o cadáver de um marinheiro acabara de ser encontrado e estavam trazendo-o para a margem a fim de ser sepultado. Esta informação não nos tentou a ficar como espectadores, antes nos fez correr para o nosso hotel, maravilhados com a curiosidade mórbida que podia ser atraída pela corrupção e que achava desejável a sensação de contemplar um cadáver em putrefação. De nossa janela vimos um caixão ser levado até a praia, e sentimos um grande alívio com a esperança de que o pobre afogado seria agora quieta e decentemente pousado para dormir no seio da mãe terra.

Como este fato se deu, conforme dissemos, no exato momento em que chegávamos ao lugar onde esperávamos descansar e recuperar as nossas forças, causou em nós uma impressão profunda. Não somos no menor grau supersticiosos e não consideramos os acontecimentos como presságios de um lado ou de outro; mas o incidente era triste, e estávamos pensativos, de sorte que lançou naturalmente sobre nós uma sombra, ao mesmo tempo em que se gravou em nossa memória. Vítima desconhecida do mar, tu tens uma lembrança em nosso coração!

As reflexões que então afluíram à nossa mente as confiamos ao papel, e aqui estão. Não é a igreja de Deus como aquele barco? E não está ela sobrecarregada por uma massa de professantes mortos da religião que consomem as suas forças, impedem o seu progresso e espalham em torno dela um mau cheiro? Sim, é exatamente assim, e o nosso coração está pesado porque o vemos sob os nossos próprios olhos todos os dias. Pessoas se têm unido à igreja que não têm parte nem sorte na piedade vital; não prestam qualquer ajuda, não a podem prestar, pois não têm força espiritual alguma, mas são um peso morto sobre as nossas energias, pois temos de mantê-las em algo como movimento decente e conduzi-las conosco até que sejam depositadas na sepultura.

A situação é pior na realidade do que o nosso quadro representa, porque os mortos estão no mesmo barco com os vivos e, assim, são capazes de causar maior aflição de coração aos verdadeiros santos de Deus. Somos responsabilizados pelas ações de todos os nossos co-membros; a mundanidade ofensiva deles nos incomoda e nos torna de mau gosto para os outros. É uma coisa terrível ver metade de uma igreja orando e a outra metade a trivialidades. Não podemos esquecer cedo o nosso horror ao ouvir que, enquanto o Espírito Santo visitava uma igreja com avivamento, havia membros naquela mesma igreja que estavam ocupados, até altas horas da madrugada, com diversões mundanas. Não acreditamos nos nossos próprios ouvidos; tão depressa teríamos pensado em ouvir que os apóstolos cantavam canções profanas no momento de Pentecostes. Não era que o momento fosse inoportuno — pouco nos importa isso —, mas o próprio ato revelava um gosto que não é compatível com a verdadeira religião. Naturalmente, o mundo atribuiu isso à conta da igreja, e as pessoas verdadeiramente devotas tiveram de sofrer pelos pecados de outros, e o Santo Espírito de Deus foi contristado por tais ofensas, que Ele via, embora os piedosos não as vissem. Os seguidores sinceros e humildes de Jesus naquela igreja mal teriam acreditado que tal conduta fosse possível, se a tivessem visto com seus próprios olhos; e os que tiveram a tristeza de saber que era verdade sentiram uma depressão de coração pior do que qualquer enfermidade corporal poderia infligir.

Se a igreja fosse pura e sem mistura, o seu crescimento seria muito mais rápido, pois os joios que não podemos arrancar enfraquecem o trigo em meio ao qual vivem. O tom de espiritualidade é rebaixado em todo o corpo pela mundanidade de poucos. O pecado fora da igreja é comparativamente pouco nocivo a ela; ela o vê e luta contra ele; mas quando o traidor está dentro das suas próprias portas, o mal que produz é terrível. Troia não pôde ser tomada por assalto aberto, mas o ardiloso estratagema do cavalo de madeira cheio de guerreiros armados realizou a vontade dos gregos; uma vez arrastado para dentro das muralhas, os guerreiros ocultos no seu interior puderam abrir os portões da cidade, e os inimigos logo invadiram cada rua, e Troia caiu para nunca mais se erguer. A vigilância onipotente de Deus afastará tal ruína da igreja de Deus; mas, à parte da guarda divina, o perigo é igualmente iminente.

Desejamos que cada membro de igreja reconheça o fato de que ele ou ajuda ou prejudica a igreja à qual pertence. Ou ele se torna parte dos impedimentos do exército, tornando a marcha mais laboriosa, ou acrescenta à sua força real de combate. Aquele que ora, trabalha e vive em coerência com a sua profissão é um acréscimo ao verdadeiro poder da igreja; pode ser um indivíduo obscuro, dotado de apenas um talento, mais à vontade na última fila, e todavia pode ser da maior utilidade para todo o exército, e quando a guerra acabar participará das recompensas da vitória que caberão aos exércitos do Deus vivo. Por outro lado, se for sem oração, ocioso e mundano, por mais rico, mais bem educado ou mais respeitado que seja, é um peso morto, uma simples bagagem, uma causa de insucesso, um Acã no campo de Israel. Qual destes, caro leitor, és tu neste momento?

A Segunda Visão: A Fonte de Água Doce no Mar

A segunda visão memorável que se ergue agora diante de nós foi avistada do jardim daquele digno e renomado médico, o Dr. Bennett, a quem Mentone deve a sua atual prosperidade. Olhando para o mar, além de um promontório, vimos — quando o doutor no-la havia apontado — uma área de agitação nas águas, como se uma corrente fervia e borbulhava do fundo do oceano. Era uma nascente de água doce que subia das profundezas do mar até à superfície. Há uma nascente semelhante ao largo da costa de Spézia, que envia à superfície um imenso volume de água doce, a despeito das torrentes de água salgada que a recobrem. Tal fenômeno pode parecer impossível, mas ali estava diante dos nossos próprios olhos, e em qualquer tempo o viajante pode vê-lo por si mesmo — uma fonte de água doce no meio do mar salgado!

Não temos aqui uma imagem sugestiva do poder da graça divina? Descendo do reservatório inexaurível em que habita toda a plenitude, posto nas mais altas regiões dos céus, o bendito caudal de graça tem uma corrente poderosa que busca subir ao seu próprio nível, e por isso brota com uma energia sem paralelo. Pode ser que o possuidor desta nascente interior tenha mil lembranças de pecado, hábitos adquiridos de maldade e uma densa massa de ignorância e preconceito que o oprimem; todavia, a vida nova tem de e há de se revelar; ela abre caminho à força, ergue-se à superfície, esclarece uma área para as suas próprias energias, não aceita ser sufocada ou reprimida. Ou a ilustração pode referir-se à verdadeira religião num bairro em que tudo lhe é contrário, ou numa época em que o espírito dos mais lhe é mortalmente hostil. Não surgiu o cristianismo como uma nascente do fundo escuro de alguma solitária gruta oceânica, bem abaixo do fundo das montanhas? Não parecia certo que as ondas do paganismo haveriam de engolir inteiramente um poder tão insignificante? Como poderia ele subir à superfície da história humana? Poderia borbulhar onde criaturas obscuras e ínfimas seriam os seus únicos observadores, mas o grande mar ignoraria totalmente a sua existência; as suas águas doces nem sequer amenizariam a salinidade da salmoura.

Mas qual é a verdade da questão? A nossa santa fé rompeu através do judaísmo, da filosofia e da idolatria, chegou ao conhecimento público, abençoou as nações e reivindicou para si uma esfera cada vez mais ampla. A sua fonte subiu através das ondas salgadas do oceano e ainda sobe — sim, está transformando as águas e as curando; e por meio da sua influência chegará um dia em que não haverá mar de pecado e de dor, pois esta "fonte de toda bênção" terá feito dele um reservatório de água da vida.

Um homem de bem colocado num cortiço de Londres, ou em qualquer dos bairros miseráveis de uma grande cidade, trabalha em condições de terríveis desvantagens. Em torno dele abundam pecado e ignorância. A sua religião, mal percebida, é logo ridicularizada; ele se torna o alvo de chistes bêbados e o tema de canções desenfreadas. Há de ceder o ponto e desistir do temor ao Senhor? Haverá de fazê-lo se for hipócrita; por outro lado, se for realmente participante da água viva que Jesus dá, ela será nele um manancial de água que brota, e a despeito de toda oposição tem de e há de fluir para fora. A princípio, em paciência possuirá a sua alma e manterá a sua posição; em seguida ganhará respeito e silenciará a calúnia; a seguir influenciará alguns menos maus do que os seus vizinhos; e por fim a sua piedade vital subjugará todas as coisas a si mesma. Um dos resultados mais encorajadores do nosso ministério é a coerência dos extremamente pobres, cujo testemunho se presta em lugares que é quase perigoso percorrer à noite. A honestidade, a sobriedade e a fé simples deles são sermões para os pobres que os rodeiam, e estes sermões não são esquecidos. Os homens ficam espantados quando veem piedade em tais circunstâncias; a atenção é despertada, o espanto é excitado, e na presença do espetáculo estranho confessam que este é o dedo de Deus. A energia invencível da fé e do amor são os milagres permanentes da igreja, pelos quais os imparciais são convencidos e os opositores são silenciados.

Agora mesmo, com o ritualismo e o racionalismo, poderia ter-se temido que a vida evangélica estivesse sufocada na Grã-Bretanha. O irromper do avivamento em muitas partes do país dissipou efetivamente todos os temores dos crentes e, em grande medida, fez calar as fanfarronices dos céticos. A água viva está brotando. Vede-a ali na Escócia, perturbando a outrora calma superfície da sociedade. Vede como ferve e borbulha em Edimburgo e Glasgow! Faz o mar ferver como uma caldeira. Perfura a esmagadora massa do pecado, abre o seu próprio canal, regozija-se em abençoar os filhos dos homens. "Brota, ó poço! Cantai-lhe!"

Caro leitor, há vida desta ordem em ti, ou estás morto em pecado? Olha para este quadro e para aquele: pusemos diante de ti a morte e a vida; qual delas se assemelha mais à tua própria condição? Se fores obrigado a condenar-te a ti mesmo, lembra-te de que há um perto de ti a cujo respeito está escrito: "Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens."

📤 Compartilhe este Sermão